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O Edifício Chiado

BPI_3150Na semana que passou trouxemos à Preguiça uma exposição patente no Edifício Chiado, na baixa da cidade, sem que tenhamos apresentado o prédio que a alberga. Por esse motivo, e também por tratar-se de um imóvel com histórias para contar, decidimos falar dele agora.

A história deste Edifício deve contar-se a partir do ano 1894, altura em que Portugal vivia tempos especialmente difíceis. Foi durante este ano que se inauguraram os Grandes Armazéns em Lisboa, pela mão dos irmãos franceses Louis Boneville e Émile Philipot. Em 1897, também por força da concorrência dos Armazéns Grandella, o Chiado lisboeta perdeu vitalidade, facto que abriu espaço à companhia “Nunes dos Santos & C.ª” que, a partir de 1899, tomou conta do negócio mantendo o espírito da liderança anterior. Em 1904 entram novos sócios para a companhia que passou a conhecer-se com o nome “Santos, Cruz & Oliveira, Lda.”.

Os Grandes Armazéns do Chiado viriam depois a conhecer várias filiais no país, de entre as quais a de Coimbra. Para acolher esta ampla e moderna casa comercial foi adquirido um edifício construído na velha rua da Calçada, depois Rua Ferreira Borges, tendo-se realizado as devidas obras de remodelação entre os anos 1909 e 1910. As obras de transformação dos espaços desenrolaram-se de forma a ocupar os pátios posteriores e estenderam-se pelas construções anexas, para criar uma área desafogada e pronta para acomodar a vasta gama de produtos que ali se venderia, facilitando a circulação interna dos vendedores e do público. Para cumprir este propósito, a novíssima construção contou, para o piso do rés-do-chão, com uma estrutura em ferro com competências para suportar vãos amplos, evitando-se o mais possível o uso de paredes em alvenaria que comprimem os espaços. A fachada do edifício também foi totalmente remodelada, abrindo-se em largas e modernas montras de ferro e vidro viradas para a calçada, possibilitando a exibição eficaz dos artigos que o interior vendia, especialmente o piso térreo, onde funcionou o posto de venda ao público durante a sua primeira década de actividade (até c. 1921). 

Sem que tenhamos pesquisado em fundos documentais convenientes sobre o assunto, sabemos que o único nome relacionado com o processo de construção deste imóvel, e que consta do procedimento de licenciamento da obra, é “A. S. Correia” [seria Alberto de Sá Correia (admitido por Raquel Magalhães), e que se referencia no Arquivo Municipal como Desenhador (1895), Condutor de obras (1902) e Agente técnico de engenharia (1927)? ou seria o Alberto de Sá Correia, referido por F. Pereira da Costa na sua Enciclopédia Prática da Construção Civil (fasc. 30. Lisboa: Portugália Editora, s/d) como um condutor pelo Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e um introdutor da construção em betão?].

Certo é que não temos nome para o autor do desenho desta obra, e porque na ausência de documentação temos de empreender outros caminhos de averiguação, pensemos que desde os meados do século XIX, e especialmente no último quartel da centúria, Coimbra desenvolvia enormemente o trabalho em ferro, transformando-se paulatinamente num centro onde floresciam os gradeamentos, os candelabros e candeeiros a gás, os portões e, por fim, os coretos, entre outros equipamentos e obras feitas em ferro. Para este desenvolvimento contribuiu António Augusto Gonçalves (que em 1878 tinha fundado a Escola Livre das Artes do Desenho) que em 1900 decide viajar até Paris para visitar a sua Exposição Universal, regressando impressionado com o que por lá viu (especialmente a relativamente recente torre Eiffel) e determinado em incluir, na sua escola, o aprendizado da arte do fabrico em ferro.

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O coreto do Cais das Ameias (agora no Parque da Cidade) nasceu já dentro deste espírito novo aberto às estruturas e aos objectos férreos. Desenhado pelo arquitecto (que tantas obras deixou em Coimbra) Augusto da Silva Pinto, a obra inaugurou-se em Julho de 1904.

O Edifício Chiado surge na esteira de outras obras em ferro coimbrãs, como a do Teatro Circo do Príncipe Real D. Luís Filipe (o perdido Teatro Avenida, inaugurado nos anos noventa do séc. XIX e derribado praticamente um século depois para ceder-se a uma obra sem utilidade nem interesse estético), ou a da Penitenciária, construída entre o final dos anos setenta e o final dos anos noventa da mesma centúria de oitocentos, segundo desenho do Engenheiro Ricardo Júlio Ferraz, erguida sobre o velho Colégio de Tomar que também desapareceu. Acresce ainda referir, neste elenco de obras férreas coimbrãs, o antigo Mercado D. Pedro V, pensado durante o século XIX e ampliado (com o mercado do peixe numa estrutura em ferro) nos primeiros anos do século seguinte (1904), com obra adjudicada ao mesmo arquitecto do coreto do Cais: Augusto da Silva Pinto. Aliás, a presença deste arquitecto nas obras do mercado subsistiria ainda em 1908-09, aquando da encomenda camarária de um novo projecto para o mercado. Augusto da Silva Pinto concebe outra vasta estrutura em ferro e vidro que não viria a aplicar-se por falta de orçamento. Objectivamente, o mercado foi sendo substancialmente intervencionado, com obras pontuais para pequenos melhoramentos feitos sem planeamento e em 1914 estava já a ameaçar ruína.

Importa-nos rever estas notícias na medida em que encontramos, amiúde, o nome do arquitecto Silva Pinto a encabeçar obradouros férreos na cidade de Coimbra (e não mencionámos as obras de transformação do Colégio de Tomás, nem as da Faculdade de Letras), pelo que não nos custaria a admitir que a reconformação do espaço que viria a vestir-se no Edifício Chiado possa ter contado com a sua participação.

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A inauguração dos Grandes Armazéns do Chiado em Coimbra decorreu no dia 25 de Abril de 1910 e surtiu efeitos vigorosos, tanto pela modernidade da concepção espacial e de fachada, quanto pelos diversos artigos a “preço de fábrica” que anunciava vender. O espírito dos Grandes Armazéns era, como nas suas congéneres de Lisboa e Porto (e, depois disso, noutras cidades do país), realizar a venda a retalho de vários artigos, desde o vestuário à retrosaria, passando pela venda de mobílias e de brinquedos, perfumes, atoalhados entre outras gamas, todos num só espaço comercial.

O fecho da filial dos Armazéns do Chiado em Coimbra, em 1952, levou ao esvaziamento do edifício que, pouco tempo depois, albergaria o armazém e fábrica de confecções de Santiago allo Alvarez, conhecida por Santix, que estava instalada noutro espaço da Rua Ferreira Borges desde 1934. No decurso desta temporada sofreu o prédio um violento incêndio, em Abril de 1963, facto que viria a determinar o abandono do espaço que não era conveniente para alojar uma fábrica. Em 1976 estava o edifício na posse do Banco Intercontinental Português, e em 1977 na do Banco Pinto e Sotto Mayor, como prédio devoluto e pronto a demolir-se devido ao estado de avançada devastação.

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Salvou-se o Edifício Chiado devido à acção (a conhecida “Operação Chiado”) de um movimento cívico coimbrão, então liderado por Mendes Silva em 1978, e foi precisamente nesta época que se lançou a ideia, com propósitos muito específicos, de que este Edifício teria sido projectado por Eiffel. Decerto que a força deste argumento, facilitado pelo trabalho que este engenheiro deixou no Porto (a ponte D. Maria Pia do Porto, 1876-77), bem como pelo ruído criado em torno da sua hipotética participação na construção do elevador de Santa Justa (que na realidade resultou de uma vasta equipa de trabalho e que contou com a colaboração do francês Raul Mesnier du Ponsard, ao invés de G. Eiffel) produziria os seus efeitos.

Certo é que o imóvel se manteve em pé e que a Câmara Municipal de Coimbra o obtém em 1984. Nos finais dos anos noventa, quando Telo de Morais oferece à cidade a sua Colecção de Arte, começa a idear-se guardá-la neste espaço cujo destino estava ainda a definir-se. E foi com a finalidade de acomodar esta importante e vasta Colecção que se iniciaram as obras de adaptação do edifício a Museu, durante os primeiros anos da década de noventa, pela mão do arquitecto Rui Pimentel, coadjuvado pelo historiador Luís Pascoal e por uma equipa técnica da Câmara Municipal de Coimbra.

O Museu Municipal abre em 2001 e um ano depois conhece a publicação em Diário da República que o classifica como Imóvel de Interesse Público (IIP), através do Decreto n.º 5/2002, DR, 1ª série-B. n.º 42, de 19-02-2002.

Anos volvidos sobre a musealização deste Edifício, conta a cidade com este espaço que acolhe a generosa oferta de Telo de Morais à cidade, reservando-se o piso térreo para mostras e eventos temporários. O Museu estabelece um circuito interior que permite aceder à galeria Almedina (com entrada exterior logo depois da porta da Barbacã). O circuito museológico municipal conta ainda com a Torre da Almedina, que faz parte do Núcleo da Cidade Muralhada.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 30 de Janeiro de 2014)