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Desporto e natureza em sintonia

BPI_3397 A Preguiça foi praticar desporto. Carregados de pranchas de bodyboard e de skate feitas com utilização de cortiça e na companhia de Fernando Simões, o criador da marca Dodo Cork Boards, passeámos pelos diversos sobreiros existentes na cidade. Aqui está um projecto original e que acima de tudo, é amigo do ambiente.

A ideia de criar pranchas a partir da cortiça apareceu na mente de Fernando há cerca de cinco anos e “um pouco por brincadeira”, revela. O facto de na altura o seu emprego ser como fiscal de obras teve um papel importante nesta revelação. “Trabalhando como fiscal de obras, entrava em contacto com muitas matérias-primas diferentes. Foi através desse conhecimento dos diversos materiais existentes no mercado a nível da construção, que percebi que as características técnicas de um e outro material (das pranchas habituais e das de cortiça) são semelhantes e imaginei que poderia funcionar”, explica em detalhe.

O caminho não tem sido fácil, confessa honestamente, pois “estás a fazer uma coisa que ainda não é muito conhecida. Tive de adaptar e começar a utilizar uma técnica que normalmente não é usual nas pranchas de bodyboard e fui também buscar técnicas a outras áreas”. As experiências foram várias ao longo do tempo, testando os diferentes tipos de mistura de cortiça, e há cerca de um ano Fernando conseguiu arranjar o apoio de uma empresa. “Actualmente trabalho em parceria com a empresa Granorte. Eles ajudam-me a desenvolver materiais novos, mais adequados, à base de cortiça e tenho o compromisso de lhes comprar a cortiça. Estamos sempre a tentar desenvolver as coisas de modo a ir melhorando o produto”.

E já que se fala em produto, informamos que a Dodo Cork Boards tem disponíveis pranchas de skate (longboard) e de bodyboard, em vários tamanhos e adaptados às características do cliente. “As pessoas é que escolhem o tamanho. Em vez de fazer pranchas à carrada, a ideia é adaptar o produto à pessoa, ao seu peso e estrutura”. Ou seja, ao fazer-se a encomenda de uma prancha garante-se a sua total personalização.

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Para quem não percebe nada do assunto, como nós não percebíamos, pedimos que Fernando nos explicasse o que diferencia afinal as suas pranchas das restantes. “No caso da prancha de skate, uso a cortiça em substituição da lixa. Tecnologicamente não é nada do outro mundo, mas é uma solução mais ecológica do que o normal. Além do mais, pode variar em termos de padrão. Em vez de se fazer um desenho à base de tintas, por exemplo, faz-se um desenho com a base da cortiça. Basicamente a diferença está na parte estética. Nas pranchas de bodyboard trata-se de uma substituição do que existe. Ou seja, elas são 100% constituídas de plástico e neste caso passam a ter 30% a 40% em cortiça, que tem exactamente as mesmas características que o material habitualmente usado. A própria espessura do interior da prancha é reduzida”. Estamos esclarecidos!

A mão-de-obra utilizada são mesmo os dois braços e mãos de Fernando. “Sou eu que faço as pranchas. Trabalho numa garagem antiga, que na verdade é o meu laboratório de experiências, mais do que uma fábrica montada”, conta sem segredos. E quanto tempo demora uma prancha a ser feita? “A prancha de skate normalmente demora quatro dias, que é o tempo das colas secarem. No caso das de bodyboard, é mais complicado. A colagem é feita com uma resina especial, que demora quarenta e oito horas, no mínimo (por vezes vai até às sessenta), a secar. E como têm de se fazer pelo menos quatro colagens, é fazer as contas. Claro que enquanto uma seca, já estou a trabalhar noutra. Mas desde que encomendam até ficar pronta leva uns quinze dias”.

O nome curioso que Fernando decidiu atribuir ao seu projecto, vem da simpatia que nutre pelo dodo, um animal já extinto. “Em primeiro lugar, é uma forma de chamar a atenção em termos ecológicos, de que já chegámos ao limite. Em segundo lugar, tem a ver com as próprias características deste pássaro, que era diferente: muito amigável, não voava, não tinha medo dos humanos, era sociável e bem-disposto. O conceito é esse: a natureza associada à boa disposição. E se acrescentarmos um ‘i’, fica doido, o que também é uma brincadeira engraçada”.

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O criador de pranchas tenciona em breve arriscar na experiência de trabalhar pranchas de surf. “Vou começar por fazer reparações em pranchas de surf e depois, por exemplo, pôr-lhes cortiça por fora, dar um acabamento diferente”. Outro objectivo futuro que nos confidenciou é a interessante ideia de que “por cada prancha de bodyboard que venda, é um sobreiro que tenho de plantar. Ao usarmos cortiça, estamos a proteger as árvores e este seria um compromisso no sentido de incentivar a produção da própria cortiça. Cada vez há mais produtos em cortiça, portanto tem de se garantir que há matéria-prima daqui a dez anos. Assim torna-se um negócio ainda mais sustentável, porque tudo é um ciclo”.

Com a patente provisória de modelo de utilidade atribuída, a Dodo Cork Boards conta já com várias encomendas e tem presença numa loja de Lisboa, dedicada a produtos nacionais. O preço varia entre os 150€ e 300€ e podem ser encomendadas a partir da página do facebook. No fim da conversa, juntou-se a nós um amigo de Fernando que não se coibiu de dar opinião e garantiu que “além de esteticamente muito bonita, esta prancha é muito rápida”. Então boas ondas, desportistas! O ambiente agradece.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 30 de Janeiro de 2014)