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Luís Quintais: “Depois da Música”

BPI_2901Tal como na semana passada, em que nos dedicámos a mostrar um dos livros da colecção de poesia que a Tinta da China editou o ano passado, coordenada por Pedro Mexia, esta semana seguimos o mesmo rumo e damos o protagonismo a Depois da Música, outro dos títulos da colecção. Conversámos com Luís Quintais, o seu autor, e pode dizer-se que esta foi uma conversa que deu pano para mangas.

Luís Quintais, poeta, ensaísta e antropólogo, reside em Coimbra há cerca de vinte anos. No seu vasto currículo contam-se já dez livros publicados e, como nos informou, mais um a caminho. Não sendo o objectivo explorar a vasta carreira de Luís, quisemos saber como nasceu essa vontade de se expressar através da escrita. “Creio que essas coisas começam a acontecer de facto quando somos muito novos. O meu interesse pela escrita vem desde muito cedo e é sobretudo motivado pela leitura. Se me definir como alguma coisa é, antes de mais, como um leitor. Portanto, tudo o que tenho feito é, de alguma forma, uma resposta ao facto de ser fundamentalmente um leitor. Escrever é responder”.

Não querendo deixar escapar o assunto, aproveitámos a deixa para conhecer as leituras pelas quais Luís deambula. “Sou daqueles leitores que se interessa por tudo, às vezes quase até à alucinação, o que pode ser perigoso. Chego a ler 20 a 30 livros ao mesmo tempo, sendo que uns saem do meu espectro de leitura e outros levo até ao fim. Gosto de ler romances, quando tenho tempo; contos; textos académicos, os menos interessantes pela sua familiaridade; filosofia; ciência cognitiva, livros sobre música, biografias, ensaios e poesia também”. O que o estimula nesta leitura compulsiva é “a imprevisibilidade, gosto de encontrar uma zona de sombra e opacidade no que vou lendo. Gosto que me surpreendam”, explica determinado.

Mas voltando ao princípio, o escritor recorda que no início da década de 90 concorreu a um prémio literário com um conjunto de poemas que já tinha reunido. “Já tinha enviado alguns poemas para umas editoras, mas sem grande sucesso. Quando vi no jornal Público o anúncio ao prémio ‘Aula de Poesia de Barcelona’, atribuído pela Universidade de Barcelona, pensei porque não e enviei um conjunto de poemas chamado A Imprecisa Melancolia”.

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A resposta não foi imediata e o tempo foi passando, coincidindo com o início da sua carreira académica como docente e investigador na Universidade de Coimbra. “Na verdade, até me esqueci do assunto, pois estava muito empenhado na minha carreira académica. E um dia recebi um telefonema em que me diziam que tinha ganho um prémio. Inicialmente achei algo insólito, mas depois percebi do que se tratava”, conta entre largos risos.

Luís foi a Barcelona receber o prémio, viu o seu livro publicado na cidade espanhola e também em Portugal, e a partir desse momento não mais parou de escrever e publicar poesia. “A Imprecisa Melancolia fez alguma sensação no meio literário, até porque eu era uma pessoa totalmente desconhecida. A partir daí tornou-se mais fácil publicar. Mesmo assim ainda passou algum tempo entre essa publicação em 1995 e a segunda em 1999”. E da segunda à última publicação, em 2013, passou algum tempo também, acrescentamos nós.

Depois da Música é então o décimo, e mais recente, livro publicado. “Este livro surge de uma acumulação de poemas que fui fazendo entre o último livro e o que vai sair este ano”. Luís foi contactado por Pedro Mexia, “uma pessoa que conheço há muitos anos e que esteve sempre interessado no meu trabalho”, aceitou o convite e esse conjunto de poemas ganhou nova forma.

Depois da Música é um título que nos remete inevitavelmente para um universo musical. Qual o papel da música na vida de Luís? “A importância que a música teve em mim sob o ponto de vista expressivo, intelectual e até visceral, é de tal forma poderosa que acho mesmo que sou um músico frustrado, só posso ser um músico frustrado”, anuncia alegremente. No entanto, alerta, “ao contrário de muitas pessoas que acham que a poesia quer ser música, acho que a poesia não quer ser música necessariamente. Há uma sugestão de música naquilo que faço, mas não quero ser música”.

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Segundo o seu autor, este livro tem duas grandes acessões. “A música é claramente uma metáfora que conduz a própria escrita do livro, pois há todo um conjunto de poemas que tratam da música e que fazem uma reflexão sobre a música, mas é também uma metáfora da literatura e do facto de vivermos num momento agónico, de desestruturação da própria instituição literária e morte da literatura”.

Não podendo ter achado esta última ideia mais interessante, a vontade de a explorar impôs-se. “A literatura enquanto instituição literária está condenada, resta saber se existe ainda. A minha suspeita é que ela já está morta. Aquilo que estamos a encenar e reencenar permanentemente é uma tentativa condenada ao fracasso, de reanimação de algo que está morto e não sabemos que está morto. Vivemos em grande medida em termos pós-literários, essa é a razão porque a literatura não tem significado nem expressão significativa na cultura contemporânea. Encontro evidência desse facto todos os dias. Claro que há pessoas que não concordam ou que ficam chocadas quando digo isto”.

No entanto, em relação à poesia em concreto, as coisas acontecem de um modo diferente. “A poesia não está associada a um rótulo ou género literário. A poesia que faço é evidentemente um género literário, mas o meu entendimento do que é a poesia é um fazer universal antecedente à literatura. Encontramos poesia em sociedades de há milhares de anos que nem sequer conheciam a escrita. Portanto, a poesia é algo prévio a tudo isso”.

Para além da escrita e da antropologia, Luís é um cidadão activo na vida cultural e artística da cidade, participando em vários projectos. Chega mesmo a confessar que “o facto de estar longe de Lisboa trouxe-me alguns privilégios. Afastou-me de uma certa encenação em torno da literatura e do meio literário português, que considero muito hostil e pouco interessante. É um meio que funciona de uma maneira quase sempre encapsulada à volta de certo tipo de registos que são tomados quase como letra de lei e fico muito cansado e solenemente aborrecido com as convicções de muita gente”.

Em breve, um novo livro de Luís Quintais chegará às estantes das livrarias, desta vez pela mão da editora Assírio & Alvim. Mas enquanto tal não acontece, aqui fica um poema da sua última obra, em forma de presente.

«Ficção suprema

O mais impiedoso dos séculos não nos libertou da injúria. A menos solene das mortes, a mais inumana, não nos consagrou ao prosaísmo e à baça luz das estantes abandonadas. Algo se alucina no sangue ainda, a isso voltaremos, ó frondosa violência sem decreto.»

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 23 de Janeiro de 2014)