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Rosa Oliveira: “Cinza”

BPI_2172 A editora Tinta da China publicou em 2013 uma colecção de livros dedicados à poesia, coordenada por Pedro Mexia. Quatro títulos compõem esta primeira colecção e Cinza, de Rosa Oliveira, é um deles. A Preguiça foi ter com Rosa, que reside em Coimbra e nos mostrou algumas páginas sobre si.

A escrita começou há muito tempo. “Na adolescência comecei por escrever poesia, ou por julgar que escrevia poesia, como grande parte dos adolescentes”, relembra Rosa acrescentando que “aquilo era tão mau que rapidamente deitei para o lixo ou coloquei no fundo de alguma gaveta”. A partir daí, em compasso mais lento ou mais acelerado, foi sempre escrevendo, mesmo que “sem grande sequência definida”.

Nos anos 70, em plena altura pós PREC, Rosa submeteu um primeiro texto a um prémio de revelação na área de ficção. Não ganhou o primeiro lugar, mas ganhou o segundo. “Quem ganhou o primeiro prémio foi a Lídia Jorge, foi aí que foi descoberta. Em segundo lugar, fiquei eu e mais cinco autores, entre eles a Hélia Correia. Foi um lote variado”. Alguns desses autores conseguiram editar, outros não. Rosa tentou editar mas não conseguiu. “O meu livro, como me diziam, era mais experimental, fora do contexto que se vivia”.

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Entretanto, chegou a altura de fazer um curso e veio para Coimbra. Após esse passo, foi dar aulas para Lisboa no ensino secundário, algo que “nunca gostei muito”, confessou. Seguiu-se o mestrado, “na altura em que surgiram os mestrados e ainda não sabíamos muito bem para que serviam”, e com ele o regresso a esta cidade. Após o seu términus, com uma tese dedicada a Jorge de Sena (que foi publicada em livro), Rosa começou a trabalhar. “Nesse tempo, ao contrário de hoje, havia muita oferta de emprego”. Actualmente, e desde há muitos anos, lecciona na Escola Superior de Educação, sempre em áreas ligadas à língua portuguesa.

A escrita continuou a ser uma constante. “De facto, numa determinada época, a minha escrita virou-se muito para o ensaio, por razões académicas: a tese e os artigos. Mas a escrita académica é extremamente árida”. Facto que não foi afinal suficiente para impedir que a inscrição num doutoramento fosse feita. “Inscrevi-me num doutoramento em Teoria da Literatura em Lisboa. Frequentei, gostei muito, mas era complicado de conciliar com a minha vida”. Contudo, serviu como estímulo para regressar de novo à escrita. Não a académica, “que me secava por dentro”, mas a literária.

A efectiva publicação do que ia escrevendo surgiu um pouco por acaso, mas surgiu também no tempo que coincidiu com a massificação da internet. Vejamos como. “Sempre que mando emails e mensagens de telemóvel, não consigo ser muito sucinta. Então, um amigo meu, de forma um pouco malandra, começou a pegar em alguns desses textos e a publicar no seu blogue. E de repente vi que estava ali! Comecei assim a apurar mais essas minhas pequenas reflexões e observações do dia-a-dia”, explicou.

Dos ensaios, das observações e das reflexões do dia-a-dia, que eram feitas de forma solta, Rosa começou a criar textos e poemas. “Mandava muitos para esse meu amigo publicar mas entretanto criei um blogue e comecei a publicar lá os meus poemas”. A repercussão não foi a esperada, pois “não sabia quem lia e quem não lia”.

O número de poemas escritos foi crescendo, bem como a vontade de os mostrar ao mundo. “Comecei a pesquisar na internet edições de poesia para divulgação de autores nunca publicados. Pensei em prémios, não pelos prémios em si, mas pela possível publicação. Encontrei imensos (há prémios muito curiosos) e acabei por enviar para um”. Ao mesmo tempo, sem ficar pacificamente à espera do resultado desse concurso (que acabou por não ganhar), Rosa enviou o conjunto de poemas que compõem o livro Cinza para três editoras, entre elas a Tinta da China. “Basicamente eram as editoras que eu tinha contactos de email. E mandei para a Tinta da China, mesmo sabendo que eles não publicavam poesia, facto que acabaram por me confirmar num telefonema posterior”.

Inesperadamente, a mudança acontece. “Enquanto pensava em mais editoras, recebo um email da Tinta da China a dizer que iam começar uma colecção de poesia e que o meu livro, que entretanto estava lá guardado, ia ser publicado. O que foi muito bom, porque esta colecção supostamente iria publicar só autores já publicados”, conta de forma alegre.

Entre este email e a publicação de Cinza em Junho de 2013, passou cerca de um ano. No livro estão reunidos poemas que foram escritos há dez, oito ou cinco anos, mas principalmente nos últimos três anos.

A inspiração de Rosa vem, sobretudo, das palavras. Das que lê nos livros e nos filmes, ou que ouve em qualquer situação diária. “A inspiração vem de um clique, de um instante que fica na cabeça. No meu caso, as palavras, as frases”. E se falamos em referências literárias, falamos em poetas portugueses como Ruy Belo, Herberto Hélder, Mário Cesariny, escritores clássicos como Samuel Beckett, Franz Kafka, Fiódor Dostoiévsky, Anton Tchekhov, Gustave Flaubert, ou mais recentes como Vladimir Nabokov, Ian McEwan, Mercè Rodoreda, John Banville. Estes entre muitos outros.

O feedback de Cinza tem sido muito positivo. Desde logo pela atenção que a imprensa lhe dedicou, mas também, e talvez o mais indicador, porque a primeira edição esgotou. “Para um primeiro livro, não me posso queixar. Tive sorte, em vários aspectos”.

Rosa está a trabalhar já para um novo livro, tendo contudo a certeza que continuará a trabalhar em duas frentes de batalha: os poemas e os contos. “Tenho estas duas vozes dentro de mim e tenho de lhes dar saída”.

Para quem ainda não leu o livro, aqui fica um poema como aperitivo.

«ride the wave

muitos são os que caem pelo caminho
poucos os que flutuam

decresce a luz puída do inverno rigoroso
atravesso a península, a ibérica
em todo o lado há marcas, ruínas
condutores perseguidos por
linhas incandescentes no frio seco da noite

as rádios transmitem para a intimidade
os condutores cruzam olhares
animais feridos
atiram cigarros para trás das costas
prosseguem viagem acelerando

parece não haver alternativa à vida»

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 16 de Janeiro de 2014)