• Photobucket

Home / Tendências / Dogtown and Z-Boys

Dogtown and Z-Boys

  ZBoys-Del-Mar-NAtionalsDogtown and Z-Boys é um documentário sobre a evolução da cena skater californiana nos anos 70, realizado por Stacy Peralta, membro da documentada Zephyr Team e mais tarde responsável pela Powell Peralta, uma das mais conhecidas companhias de material de skate até aos dias de hoje.  Incluído nessa mítica equipa de surfistas/skatistas criada por Jeff Ho, Skip Engblom e Craig Stecyk, Stacy Peralta é o narrador privilegiado para contar a história de como o desporto explodiu nesses anos e porque razão muito se deve aos Z-Boys e ao que criaram nessa altura tão especial quanto irrepetível.

O filme recorre a registos vídeo e fotografias da época, combinadas num modo Ken Burns acelerado e por vezes caótico mas que se adequa perfeitamente ao tema e lhe confere uma dinâmica muito eficaz no processo descritivo. Com uma banda sonora escolhida a dedo (Jimi Hendrix, Ted Nugent, Buzzcocks, Black Sabbath, etc), voz off de Sean Penn e entrevistas actuais a quase todos os intervenientes na história da Zephyr Team e no universo Dogtown,  arrecadou (entre outros) os prémios de melhor realização e melhor documentário eleito pelo público no Festival Sundance em 2002.

ˇ¡

A história passa-se assim em meados dos anos 70, altura em que o skate era praticado de forma bastante rígida e sem grande criatividade, não só devido ao material rudimentar com que eram construídos os skates da altura, mas também por se assemelhar demasiado ao surf, com muitas das manobras a pretenderem imitar os movimentos praticados nas ondas, quando estas não existiam. Mas se a Zephyr Team era constituída por surfistas exímios e radicais, estes não se limitavam a transportar os movimentos das ondas para o asfalto, antes procuravam novas manobras e formas de rolar no cimento de forma diferente de tudo o que se conhecia até então. Sempre, sempre com muito estilo. O estilo era a imagem de marca dos Z-Boys, que a par de uma agressividade quase sem limites lhes permitiu destacar-se em muitos aspectos dos demais praticantes da modalidade.

A primeira participação dos Z-Boys na competição Del Mar Nationals em 1975 trouxe a equipa para um estrelato até então inexistente e próximo das estrelas de rock, com vários membros da equipa a deixarem os júris, adversários e público incrédulos e sem reação ao verem as suas manobras e estilo nunca antes vistos. Para ajudar, a seca que assolou a Califórnia entre 1975 e 1977 veio criar condições únicas para a evolução do skate aos pés destes 12 magníficos (11 + 1 magnífica, de nome Peggy Oki). Se já antes a invenção das rodas em uretano tinha revolucionado o desporto com uma estabilidade até então impossível, uma lei que proibia o encher de piscinas de lazer por toda a Califórnia criou as condições ideais para que o skate passasse do asfalto para o ar, deixando um rasto de borracha e pele queimada em cada centímetro das paredes de todas as piscinas vazias que “visitaram” durante esses anos. Munidos de bombas e mangueiras para retirar as águas residuais do fundo das piscinas, os Z-Boys percorriam os bairros em busca de piscinas em casas vazias, que se tornavam durante umas horas (ou dias, se tivessem sorte) o seu laboratório de manobras e experiência de vida.

ˇ¡

Cada vez mais alto, cada vez mais rápido, os Z-Boys inventavam diariamente novas manobras e todos os dias procuravam superar os limites que tinham conhecido (e superado) na véspera. Num dia de Verão em 1977, o inevitável viria a surgir quando Tony Alva voou literalmente da parede da piscina Dogbowl, num movimento de 180 graus para reentrar sem esforço no mundo da gravidade e regressar à parede da piscina. A prisão do skate ao asfalto e à horizontalidade terminava ali e começava assim a sua fase vertical e voadora, enviando literalmente tudo pelos ares.

O que se seguiu foi uma explosão da modalidade a todos os níveis, mas também a implosão da Zephyr Team às mãos da fama e notoriedade de cada um dos seus membros, uns mais do que outros. O filme concentra-se sobretudo nos mais mediáticos Stacy Peralta, Tony Alva e Jay Adams (por diferentes razões) mas sem esquecer os restantes membros e fundadores, que surgem aqui e ali com histórias e recordações dos momentos que viveram nesses dias dourados em que dominaram o mundo em cima de uma tábua com rodas.

Texto de Bruno Pires
Fotografia de Glen E. Friedman

(Publicado a 16 de Janeiro de 2014)