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A ressureição dos mitos

concert_sliderA recente edição em DVD do documentário Filhos do Tédio veio reavivar a memória dos que viveram esses tempos de domínio do psychobilly sobre o fado na cidade dos doutores e dar origem a um movimento virtual de apoio e incentivo à reunião da mítica banda de Coimbra. Não querendo contribuir para a especulação em torno deste caso recente, preferimos abordar a questão da ressureição de bandas supostamente defuntas, do que torna tais reuniões tão frequentes e do que ganham (ou perdem) os músicos e os públicos com isso.

A experiência de dois elementos de duas das mais famosas bandas da cidade que sobreviveram à experiência da reunião ajudam também a compreender melhor este fenómeno universal. Numa semana em que soubemos que Paul Mccartney e Ringo Starr se vão juntar para a cerimónia dos Grammys, num ano em que Courtney Love pode reunir as Hole e sabendo que Robert Plant tem uma aberta na agenda para juntar os Led Zeppelin, achámos que não podíamos perder a oportunidade de abordar este tema quente, nem que seja mesmo só para aquecer o ambiente e a imaginação.

Nito – É Mas Foice
“As reuniões são uma treta, principalmente porque as pessoas já não são as mesmas. Seguiram diferentes caminhos, evoluiram musicalmente (uns mantiveram-se radicais, outros tornaram-se mais ecléticos) e algumas seguiram vidas totalmente diferentes. Além de que na maior parte dos casos, acontecem por questões financeiras, pois a menos que sejas um purista e o faças apenas pelo gozo ou por saudosismo puro de tocares o que tocaste há 20 anos atrás, o dinheiro tem quase sempre uma grande influência nestas reuniões.
Depois há as expectativas que são criadas no público, que muitas vezes nem sempre se cumprem e que podem causar alguma desilusão. Acima de tudo, cada coisa no seu tempo e nada de revivalismos.
No caso da reunião de É Mas Foice, o que aconteceu foi que dois grandes amigos nossos fizeram uma grande festa pelos seus aniversários e todos concordámos em juntar-nos para um concerto como prenda de anos para eles. Ensaiámos 8 vezes e demos aquele concerto.”


Pedro Miguel – Preguiça Magazine

“Muitas das bandas são de uma era pré-tecnológica, pelo menos da maneira como hoje a conhecemos. Ainda não apanharam o Facebook, nem sequer MySpace, ou o YouTube. Ora se à época, sem essas ferramentas de disseminação instantânea, eles conseguiram notabilizar-se, porque raio não há de resultar nos dias de hoje?

A própria indústria musical, que tanto criticou e tentou travar de certo modo este paradigma tecnológico um pouco anarca, está finalmente a tirar partido disso mesmo em termos de marketing. No campo da alta fidelidade, algumas bandas podem hoje gravar novos temas, ou regravar outros mais antigo, com um som muito superior.

Outro aspecto, como no caso do punk hardcore, com letras viradas sobretudo para um olhar crítico da sociedade, é interessante verificar como as letras de há 15 ou 20 anos, continuam tão actuais (mas isso até mesmo as do José Afonso ainda o são).

E há o fenómeno viral, de imitação, ou seja, ao verem algumas bandas regressar, outras se perguntarão: “Então e porque não nós?”

E depois claro, em certos casos, há sempre o negócio, a possibilidade de amortizar um pouco mais a hipoteca da casa, o desemprego actual de alguns dos músicos, a crise de meia idade, ou simplesmente o puro prazer de voltar a tocar.

Será interessante para duas gerações. A mais nova, que se calhar alguns mais informados até ouviram falar de algumas das bandas, mas nunca tiveram a possibilidade de ver ao vivo, e para os fãs daquele tempo, hoje mais velhos, já menos dependentes da mesada dos pais, e que se calhar até podem dispender uns cobres para os ir ver ao vivo, e sim, em certos casos raros, até comprar os seus discos outra vez.”


Carlos Dias – Subway Riders

“Em geral não acho mal, pois há bandas que se juntaram muitos anos depois de terminarem e continuavam em forma, como os Velvet Underground, os Sonics, ou os Wire, que apesar da separação e muito devido à sua ligação às artes e à performance se mantiveram muito relevantes.
Mas acima de tudo, tem que fazer sentido e acrescentar algo. Até porque na maior parte dos casos é preferível ficarmos com aquela imagem romanceada (que depois vamos também transmitindo a quem não viu) em vez de desiludir as pessoas…que já não são as mesmas, todas elas mudaram.
Se as pessoas tiverem também evoluído musicalmente e o que tocam hoje for completamente diferente do que tocavam, acho que também não faz muito sentido juntarem-se para tocar algo com que já não se identifiquem.”


Antoine Pimentel – Belle Chase Hotel

“Antes de mais, e porque as coisas não se podem desligar umas das outras, coloca-se-me a questão de conseguir descrever as condições de existência da entidade “banda”.

Em princípio – e no princípio – e de forma a conseguir ser consequente e assim desenvolver algum tipo de potencial, esta deverá gerar no seu interior aquilo a que commumente se costuma designar por “química”. Como numa relação amorosa: “o todo e a soma das partes”, a sua grande mais valia. Uma associação coincidente nas capacidades de entrusamento empático, técnico, estético e, em última análise, ético e moral. De todos os seus intervenientes.

Isto é, e idealmente, os laços do ofício deverão basear-se num conjunto de afectos, de afinidades, de convergências e de divergências (para condimentar) que, de uma forma mais ou menos espontânea e mais ou menos declarada, possam progredir enquanto organismo criativo, temperados por uma série de complexas dinâmicas relacionais. Reunidas as condições de colaboração – numa palavra, a vontade – segue-se a “praxis”: a hierarquia consentida, as funções de cada um dos seus elementos, o repertório – a composição e os arranjos – os ensaios, as actuações, as gravações, as memórias colectivas. Os ditos e os não ditos. E literalmente, todo aquele percurso partilhado, feito de pedaços de vida das pessoas que, para o bem e para o mal, se encontrarão, horas a fio, confinadas em carrinhas. Para logo depois saírem e respirarem um pouco de ar puro, perdidas de cansaço e delírio numa qualquer estação de serviço ao amanhecer.

Todos estes dados constroem o que se poderá, e deverá – no caso se tratar de um exemplo de sucesso (efémero, como em tudo o que é vivo) – denominar por “identidade”. Um reflexo onde todas as partes envolvidas se revêem, num património comum que gera a cola que mantém o bólide sólido. E estas são, genericamente, algumas das condições para que se levante voo. Uma vez no ar, há que saber pilotar com perícia: muitos são os obstáculos, internos e externos. Há que saber aterrar em caso de emergência. Pode também ser necessário fazer escala para reabastecer. E aqui chego finalmente à questão que me colocam: a da minha opinião sobre a reunião de bandas anteriormente dissolvidas.

Normalmente, quando uma banda se dissolve é porque se chegou a uma fase de esgotamento da relação – por todas as razões possíveis e imaginárias (que podem ir de choques de personalidades, a quezílias sobre assuntos financeiros, etc…). Enfim, discrepâncias insanáveis. Esgotamento. Uma generalizada falta de retorno relativamente ao investimento pessoal e colectivo implícito.

O projecto seguiu o seu rumo: teve o seu princípio, o seu meio e o seu fim. Falamos naturalmente daquele período, o “original”, que se alimenta do que aí vem, ou do que pode vir; no fundo, das expectativas. Mas o que aqui se questiona é – perdoem-me o chavão, outros virão – “E depois do adeus?”. A vida continua, pois.

Fica portanto tudo irrevogavelmente concluído e resolvido?!… Nem sempre, pelos vistos. Como nas recaídas, no amor, na droga e na política. A existir “vida para além da porra” (expressão do JP), têm necessariamente de existir fortes motivações. Em muitos casos, estou francamente convencido de que a principal é (sim, é isso que estão a pensar). Mas também… E também.

Mais especificamente, o reviver de tudo aquilo que já foi aqui descrito pode ser fortemente aliciante – sabemos, no entanto, que nada se repete e tudo se transforma. Por outro lado, existem recordações que pensamos que devem ficar apenas nesse plano, assim intocadas. Mas ao mesmo tempo, somos confrontados pelo comichoso “porque não?”… Supostamente, a segunda oportunidade tem a mais valia da experiência e da maturidade. Mas, e se nos deparamos com o reconhecimento de que patinamos num “eterno retorno”?…

No meu caso pontual, ganhou a tentação (que persegue a vontade) de reinterpretar aquelas canções que só existem verdadeiramente ali, entre aquelas pessoas. Foi bom, de facto. Mas não há vez como a primeira.”

Texto de Bruno Pires

(Publicado a 16 de Janeiro de 2014)