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Birds Are Indie: Love is not enough

cover No dia 8 de Janeiro, o novo álbum da banda de Coimbra Birds Are Indie ficou disponível. Tendo saído em Dezembro numa primeira edição online, “Love is not enough” está agora à venda, pronto a ser ouvido e apreciado. A Preguiça foi ter com Joana, Jerónimo e Henrique e no meio de muitas gargalhadas, a conversa lá ganhou forma.

Em primeiro lugar, e antes de falarmos sobre o último álbum, gostaríamos que contassem um pouco da história dos Birds Are Indie.

Jerónimo – Eu e a Joana conhecemo-nos há muito tempo e passados muitos anos, do meio do nada, começámos a fazer umas canções. Fizemos as coisas ao contrário. Não decidimos formar uma banda, decidimos fazer umas canções e depois é que as coisas começaram a avolumar-se. Apareceu um amigo que se ofereceu para gravar algo se quiséssemos, outro amigo que tem uma net label e se ofereceu para editar, uma amiga fotógrafa que se ofereceu para tirar fotografias, ou um amigo que é designer e se ofereceu para fazer uma capa. Isto começou a avolumar-se tudo e aí começámos a pensar que realmente tínhamos uma banda. Depois, foi o processo normal.

E o nome da banda como surgiu?

Joana – O nome reflecte um bocado a nossa maneira de estar, pelo menos na música. Reflecte o facto de sermos independentes, de fazermos as coisas por nós próprios. Na altura em que a banda começou reparámos que se andava a discutir muito o conceito indie: o que é indie e o que não é. Ao mesmo tempo, muitos posters para concertos tinham pássaros e então pensámos que o que realmente é indie são os pássaros, o que realmente é independente são os pássaros, são os mais livres de todos, conseguem voar para qualquer lado. Foi uma frase que ficou e que aplicámos à banda, reflectindo um bocado a nossa maneira de estar, pois gostamos de ser livres e de poder fazer aquilo que queremos.

Joana, lemos algures que no início não sabias cantar. É verdade?

Joana – Não era não saber cantar, eu tinha muita vergonha de cantar. Acho que não tenho uma excelente voz, mas é mais por vergonha e mesmo hoje não me sinto muito confortável. Eu nem cantava à frente do Jerónimo, tinha muita vergonha. Acho que ele me dopou e eu comecei a cantar à frente dele e comecei a perder a vergonha (risos). De facto, para mim cantar era uma actividade que fazia em privado.

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Primeiro os Birds Are Indie eram só a Joana e o Jerónimo e mais tarde juntou-se o Henrique. Como aconteceu essa junção?

Jerónimo – O Henrique ofereceu-se para nos produzir o segundo EP “Life is long”. Mais tarde convidámo-lo para tocar ao vivo pontualmente e entretanto começou a ser natural a sua presença na banda. Agora somos os três.

Henrique – Não foi bem entrar na banda. Eu conhecia-os há muito tempo, já éramos amigos e foi acontecendo. Não foi nada de especial, nem um convite formal, nem se assinou nenhum contrato.

No intuito de perceber o vosso processo criativo, perguntamos se na construção das letras e das melodias das músicas existe divisão de tarefas?

Jerónimo – Normalmente a base das músicas passa mais por mim. A Joana, que é a pessoa mais próxima, acaba por ser o primeiro filtro, quem dá sugestões ou diz para alterar. Muitas vezes dá as ideias prévias de modo a que as músicas nasçam. É uma espécie de braço direito ao nível da composição. Mas os três, na garagem ou em estúdio, acabamos por complementar as músicas, dar ideias para onde a música se deve encaminhar. Às vezes a música encaminha-se para um lado em disco e quando tocamos ao vivo, encaminha-se para outro. Esse é um trabalho que vamos fazendo os três. A música pode mudar, passado um ano por exemplo, porque também aparecem instrumentos diferentes ou até porque já estamos cansados de a tocar sempre da mesma maneira. Com as letras passa-se o mesmo. Às vezes aparecem ao mesmo tempo, outras vezes aparecem primeiro, outras no fim. Pode aparecer só uma ideia, ou só um estado de espírito. Não há nenhuma fórmula definida. Por vezes ouço algumas pessoas que escrevem canções a dizer que surge uma melodia e parece que já traz as palavras atrás. Eu por vezes sinto isso e nem sei bem explicar. Não traz as palavras todas, pelo menos a mim não acontece, mas por vezes a melodia traz um verso e assim está dado o mote para o resto da letra.

Vocês têm imensas músicas feitas e editadas. De onde vem tanta inspiração?

Jerónimo – Acho que é o que diz toda a gente, mas a inspiração vem do que está à nossa volta. É inevitável. Ao início, grande parte das músicas, até por terem sido feitas em nossa casa, no nosso quarto, eram muito sobre nós os dois, sobre aquilo que nós sentíamos um pelo outro, era algo mesmo entre nós, nem era para ser mostrado a ninguém. Quando começámos a pensar que somos uma banda, começámos a perceber que as inspirações podem vir de mais sítios. Por isso mesmo, neste disco foi tudo muito mais pensado. Nas letras isso também aconteceu. Havia uma consciência de que éramos uma banda e com essa consciência escrevem-se as coisas de maneira diferente, não é fácil explicar. Escrever uma letra para uma canção não é o mesmo que escrever poesia. Somos uma banda com uma estrutura pop e isso exige um certo código e uma certa maneira de escrever que é preciso saber, é preciso saber traduzir as emoções para uma canção. E na parte da produção, também é preciso saber traduzir para a forma como se grava o que aquela música está a pedir, ou aquilo que queremos que um álbum seja. É todo este conjunto de maneiras pessoais e colectivas de ver que se transforma numa canção, ou num disco, ou num concerto.

Henrique – A minha inspiração vem de dentro, vem deles os dois, do que estou a ouvir. Quando estou a tocar com eles, há algo especial que sinto e se penso que fica bem é dessa maneira que toco. Vem daí.

Joana – Como também trabalho na área do design, onde a criatividade é mais racional, tenho alguma dificuldade em explicar de onde vem a criatividade e a inspiração para a música. Na música a criatividade é muito emocional e como tal, é difícil explicar.

Em relação ao último álbum “Love is not enough”, o que tem de novo e o que podemos esperar?

Jerónimo – Este disco foi mais pensado. Os discos anteriores eram gravados num fim-de-semana, ou no máximo em duas semanas de gravação, e o que se gravasse ficava gravado. Este último foi gravado num mês e meio. Sabíamos as músicas que queríamos gravar, embora também experimentássemos muitas coisas. Tínhamos muitos instrumentos, quisemos experimentar vozes e solos. No fim o Henrique teve de pegar em tudo e trabalhar um resultado final.

Henrique – Nos outros discos foi tudo um bocado mais descontraído, era um pouco o método de gravar o que saísse. Neste as coisas foram diferentes. Gravámos em Agosto e só agora é que saiu. Gravaram-se muitos instrumentos e muitas experiências.

Joana – A nível gráfico também há alguma diferença. Nós convidamos sempre alguém a participar no artwork. Para além de mim, há sempre outra pessoa a colaborar. Neste ultimo álbum a fotografia é do Luís Belo, um amigo de Viseu. Quando vimos aquela sequência de fotografias estávamos a gravar o disco e chegámos à conclusão que era aquilo que a capa do disco precisava.

Este é um álbum sobre o amor? Se o amor não é suficiente, o que é preciso mais?

Jerónimo – Normalmente as nossas músicas são sobre relações, não necessariamente amorosas. A maioria das músicas é sobre relações entre pessoas, ou entre uma pessoa e uma situação, ou entre uma pessoa e si próprio, entre amigos ou família. Há sempre um certo diálogo dentro das próprias músicas. O título deste disco é desde logo uma provocação. Na última música do disco o último verso é “love is not enough”, que vem na sequência da letra da música, e que acabou por sintetizar um bocado o que podia ser apresentado como uma provocação. E quando somos provocados, normalmente pomo-nos a pensar sobre isso. A ideia era essa: pôr as pessoas a pensar. Será que o amor é suficiente? Ou será que aquele amor que tu sentes ou que tens para dar, é suficiente? Será que aquilo que eu dou como adquirido, seja o que for, é suficiente? Ou será que tenho de trabalhar para isso de uma maneira diferente? A ideia é reflectir sobre isto. O tema geral do disco é a mudança, a situação de mudar e como isso nos influencia individualmente ou colectivamente. Também está presente aquela tal consciência de sabermos que somos uma banda e como é que uma banda evolui. E como vai ser daqui para a frente? Como é que mudámos? E o país? O que fizemos para a mudança acontecer? Ou como as coisas nos mudaram a nós? Quero mudar ou não quero? Este é um momento de indefinição a vários níveis. Tudo isto se foi passando nas nossas cabeças ao longo deste tempo em que as músicas foram sendo construídas. O amor é uma metáfora para a reflexão. E é também para desconstruir a ideia de sermos um casalinho querido que faz músicas. Nós assumimos isso, é importante, mas não é suficiente, lá está.

Joana – Acho que na nossa vida nada é suficiente, nem mesmo o amor. A questão é sempre “será que o que tenho é suficiente?”. É sempre aquela dúvida que está atrás da orelha a chatear.

Como será feita a distribuição do disco?

Jerónimo – Será feita por nós. O disco sai dia 8 em formato físico, já saiu online. Também saiu fisicamente em pré-compra para as pessoas que tiveram a enorme coragem e confiança de comprarem o disco, algumas sem terem ouvido nada. Incentivámos com uma prenda de agradecimento por essa coragem. Em Coimbra, o disco está à venda na loja Quebra Orelha e na Gang of Four, em Lisboa está na Louie Louie e no Porto na Matéria Prima.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 9 de Janeiro de 2014)