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Anthrop: Autores Portugueses

BPI_1298 A Preguiça esteve na loja Anthrop, à entrada da velha Rua das Fangas, depois renomeada como Rua Fernandes Tomás, numa tarde fria de inverno para visitar as colecções de design português de moda e de acessórios. A loja situa-se numa das mais bonitas pracetas de Coimbra, logo após a porta da Almedina sob a antiga torre da Rolaçom onde funcionou, durante séculos, o governo municipal da cidade. Actualmente, esta zona de Coimbra foi densamente povoada por estabelecimentos comerciais (cafés, tasquinhas, a Quebra Orelha, a Trouxa Mocha, o Fado ao Centro e, no topo, o Club Quebra Costas), facto que trouxe um novo rumo a uma área que esteve, durante anos, subaproveitada. 

O nome da empresa não podia ser melhor. Anthrop remete-nos para o vocábulo grego anthropos (antropos) e, por isso, para o homem, visto como o centro de todas as preocupações e oferecendo uma percussão humanística a uma marca que se criou com essa finalidade de colocar o homem no centro de todas as preocupações.

A loja resultou da ampliação do projecto de design Anthrop, que ainda subsiste, anteriormente sediado na Rua da Alegria em Coimbra, sob a mão da dupla feita por Delfim Santos (gráfico) e Célia Guerreiro (cerâmica). Com o tempo o empreendimento foi-se complexificando, também por culpa do grupo empresarial que trabalhava com este atelier, solicitando peças de autor para oferecer aos clientes. Este fenómeno fez com que a parceria Anthrop entrasse, paulatinamente, no mercado do design de autor, estendendo o banco de contactos de tal forma que houve necessidade de ampliar o projecto. A par deste caminho, a Anthrop prossegue na vertente do fabrico de painéis cerâmicos de revestimento, desenhados pela Célia Guerreiro e feitos à mão, como não podia deixar de acontecer com esta marca.

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O espaço que a loja Anthrop ocupa hoje, no mítico espaço nas faldas da alta coimbrã, albergou uma velha farmácia até há cinco anos atrás. Ainda a adivinhamos quando entramos na loja, através do balcão que é o mesmo onde dantes se manipulavam os fármacos, através das paredes de madeira com suas velhas estantes para os potes, ultrapassando a porta que divide a loja, por onde se passava para descer à oficina. As obras de remodelação desta farmácia transvertida em loja de artigos de design pouparam a estrutura do espaço, pelo que o ambiente que se vive no seu interior remete-nos, ainda que de forma mascarada, para outros universos, povoados agora por artigos contemporâneos de fabrico estritamente português.

Sempre que entramos na Anthrop experimentamos coisas novas. Povoa o espaço uma densa variedade de objectos, cores, materiais e texturas que prendem, e perdemos a vista por entre as várias marcas de jóias, roupa, acessórios de moda, calçado e outros artigos manufacturados que se caracterizam, todos eles, pela técnica irrepreensível e pelo bom gosto.

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A loja apresenta-nos marcas como a MateriaLab, da designer de jóias Carla Matos, e as suas reinterpretações funcionais de materiais industriais, a Footnote que transforma à mão câmaras de ar em malas de senhora, cintos, chapéus, entre outros objectos de quotidiano feitos à mão, a Ovo, que também desenha malas, desta feita usando outros materiais, as jóias de Susana Teixeira, de Lia Gonçalves e de Paula Vieira, os objectos da designer Ana Moreira, os sapatos da Dysfunctional shoes (Guarda) e da Spai (que os faz com o material refeito dos outdoors), entre tantas outras marcas que fazem as delícias de quem gosta de usar obras de arte como insígnias do dia-a-dia. Por estes e outros motivos, visitar a loja Anthrop, no coração histórico da cidade de Coimbra, é o mesmo que percorrer uma galeria de arte onde se expõem obras feitas em Portugal, dando a conhecer ao público o que de melhor se idealiza entre nós, o que de melhor se transforma com as mãos, o que de melhor se reestrutura, dando vida ao inerte e beleza ao que antes disso não era nada.

Cada peça presente na loja consubstancia um objecto que funciona e que é passível de fruição. E é esse o distintivo que cunha as colecções escolhidas por Célia Guerreiro, que da velha farmácia das Fangas fez uma galeria de arte vestível e usável, com a qual mantemos uma relação afortunada.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 9 de Janeiro de 2014)