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A maldição do tédio

1544132_10202876658940321_1443983712_n O documentário Filhos do Tédio acabou de ser editado em DVD. Após ter passado por imensas telas de cinema, é agora possível vê-lo no conforto do lar. Aproveitando o acontecimento e também o facto de este ano se comemorarem os dez anos do início das filmagens, fomos tomar um café, e recuar no tempo, com Rita Alcaire e Rodrigo Lacerda, os seus realizadores.

“Não há como escapar à década e isso é uma coisa boa”, começou Rita por dizer quando lhe perguntámos quando tudo começou. A preparação e as filmagens do documentário começaram em 2004 e o filme saiu oficialmente em 2007.

Baseado na tese de licenciatura em Antropologia que Rita realizou quando terminou o curso, que mais tarde foi editada em livro, este filme fala-nos sobre a mítica banda de Coimbra Tédio Boys e todo o contexto que se vivia na cidade por essa altura. “Quando acabei o curso em Antropologia quis actualizar a minha ideia e o meu pensamento sobre o que tinha acontecido em Coimbra nos anos 90. Fiz um trabalho que questiona o estereótipo fado, estudantes e guitarradas a partir dessa realidade e principalmente a partir dos Tédio Boys, mas também do que aconteceu na cidade em termos de concertos e de uma outra forma de estar”, explicou-nos a autora.

Da escrita para a imagem, o salto foi rápido. “Nessa altura, chateei o Rodrigo para fazer umas filmagens de entrevistas e a verdade é que à medida que íamos fazendo as entrevistas e investigando, o Rodrigo apercebeu-se que era uma história muito visual e que havia muito para contar”, relembra.

Nesse ano, Rodrigo estava no segundo ano do curso de cinema em Inglaterra e não hesitou em começar a filmar. “Li a tese da Rita antes de sair em livro e, apesar de ser uma perspectiva teórica, pareceu-me que havia ali uma história para contar. Apesar de ter sido algo bastante inocente na altura, perguntei -lhe porque não tentávamos fazer um documentário e ela disse que sim”, conta com verdadeiro tom de cumplicidade.

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Ao longo das filmagens, os dois realizadores deram por si num enredo de descoberta constante de pormenores. “Começou por ser o contar e registar de uma história, um documentário curto, mas à medida que contactávamos as pessoas, descobrimos que tinham vídeos, fotografias, cartazes, bilhetes e isso enriqueceu o documentário. Se fossem só entrevistas não ficava tão fascinante”, revela Rodrigo. “Percebemos que havia uma rede afectiva muito forte. As pessoas guardaram tudo e havia mesmo interesse em falar sobre o assunto. Foi algo que mexeu com as pessoas, havia essa ligação forte à banda”, corrobora Rita.

A energia que nos concertos os Tédio Boys transmitiam à sua audiência era frenética e contagiante. E isso está bem documentado no Filhos do Tédio. “Nas filmagens dos concertos, nota-se que é uma filmagem dançada, em que as pessoas estavam a ouvir e a dançar Tédio Boys. Podemos dizer que era uma performance dupla. A dos espectadores e a da câmara, que acompanhava toda essa excitação”, refere Rodrigo. Acrescenta ainda que “na montagem do filme tentámos explorar essa sensação e essa estética natural deles”.

Para este documentário, as entrevistas aos membros dos Tédio Boys foram quase todas realizadas na penitenciária de Coimbra. Ao questionar sobre a escolha do local, a explicação envolve-se de lógica e de sentido. “Uma coisa que ficou muito clara quando fiz o trabalho e quando começámos a conhecer a história dos Tédio Boys é que havia uma sensação de aprisionamento nesta cidade, de não se poderem expressar livremente e quando tentavam fazê-lo, eram barrados pela polícia, encontrando sempre muita oposição. Ora, que melhor metáfora de uma prisão que uma prisão?”, explica Rita. O contacto com a penitenciária foi fácil e a receptivadade não podia ter sido melhor. “Em 2004 era o ano do Euro e havia uma ala que estava a ser preparada para receber os hooligans que pudessem vir a ser presos. Nós filmámos nessa ala”, acrescenta.

A este propósito, contam-nos uma história caricata que entretanto a lembrança lhes trouxe. “Quando acabámos de fazer a entrevista ao Toni, que demorou umas três horas, um guarda veio perguntar-nos se ele não era o vocalista de uma banda que tinha visto na Figueira. Não há dúvida que eles dominavam”.

Quanto ao DVD agora lançado, a ideia dos realizadores é que este seja um objecto interessante, quase de coleccionador, e não apenas um filme editado. Por isso mesmo, esta edição física reúne uma diversidade de material a que de outro modo não seria possível aceder. “Inclui uma curta-metragem de cinco minutos (Breve história do rock de Coimbra), excertos de filmagens que não entraram na montagem final, muitas fotografias que nos foram facultadas, um making-of, uma resposta do Kaló que dura sete minutos e material dos E.U.A.”.

Para Rita e Rodrigo, que desde aí têm realizado vários filmes em conjunto, fazer o Filhos do Tédio foi uma experiência marcante e de muita aprendizagem. Ao longo de todo este tempo, o público não esgota e não se cansa de assistir a este singular documento da história da música portuguesa.

Restou-nos saber se ouviam Tédio Boys nos anos 90. “Quando em 1994 saiu o disco Porkabilly Psychosis eu tinha 15 anos, andei a juntar dinheiro e fui comprá-lo à Fuga. Foi uma bomba! Gostava muito da banda mas não frequentava os espaços em que eles se moviam”, lembra Rita. Já com Rodrigo as coisas passaram-se ao contrário. “Eu frequentava esses espaços da cidade, mas não ouvia Tédio Boys”.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 9 de Janeiro de 2014)