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Pedro, um filho do Mondego

BPI_9325_Small Vive na fronteira que separa as ciências das letras mas acredita que serão as ciências a pagar-lhe as contas. Tem 26 anos e é estudante de Engenharia Civil. Divide-se entre a Figueira da Foz, de onde é natural, e Coimbra, onde estuda. Pedro Rodrigues escreve e sonha, um dia, viver só da escrita. É autor do blogue Os Filhos do Mondego e conta já com quase 300 mil visualizações. O seu primeiro livro está disponível no mundo digital e o segundo já tem alicerces.

Eu hei-de amar uma puta foi o primeiro romance de Pedro Rodrigues. O livro foi lançado, em abril deste ano, apenas em formato digital e sem editora por opção do autor. “Decidi ser a minha própria editora”. Este romance é “um ensaio sobre a solidão” levado a cabo por duas personagens principais: Alice e Pedro. Em relação ao uso de calão no título garante não ter sido uma estratégia de marketing mas conhece quem tenha lido o livro apenas impulsionado pelo título. “E, sim, há um paralelismo com o livro de António Lobo Antunes, Eu Hei-de Amar Uma Pedra”, paralelismo esse descrito nas páginas do primeiro romance do jovem escritor.

Questionado sobre a origem do desejo de escrever, Pedro Rodrigues conta que esta vontade vive dentro dele há vários anos e hoje é uma terapia. Durante muito tempo escreveu “para as gavetas” até ao dia em que um primo leu os textos, reconheceu-lhe talento e incentivou-o a criar um blogue para partilhar o que escrevia. Filhos do Mondego nasce, em 2010, com esse objetivo: mostrar às pessoas. Hoje mais de 300 mil pessoas já visitaram o espaço de Pedro na internet.

Coimbra dos amores, Coimbra dos doutores: obrigada foi a crónica que trouxe Pedro até aos holofotes da blogosfera. O autor considera que conseguiu escrever aquilo que a maior parte dos estudantes sente enquanto vive em Coimbra. ”As noções de amor que eu tenho nem toda a gente partilha, nem toda a gente concorda com o que eu digo sobre o governo mas acho que toda a gente que está aqui em Coimbra, neste meio, sentiu aquele texto”.

O gosto pela literatura surgiu cedo – “desde muito novo, ainda na escola primária”. Mas no momento em que as opções se multiplicaram as letras foram empurradas para um segundo plano. “Tive que optar por aquilo que achei que me ia dar mais futuro em termos monetários”. Ainda assim, sem nunca descurar a engenharia, ambiciona fazer da literatura a sua vida e ver os seus livros em formato físico. Pedro Rodrigues não deixa esquecer e enaltece a importância que os pais têm em todo o seu percurso literário. Se por um lado foram os pais que o incentivaram a optar pela engenharia, a eles também deve a pequena biblioteca que sempre teve em casa.

eu hei de amar uma puta capa

Quanto à natureza dos seus textos garante que são “maioritariamente autobiográficos”. Para Pedro a escrita de qualquer autor tem uma dose de autobiografia. Tem em António Lobo Antunes uma das suas maiores influências bem como em Charles Bukowski e reconhece, também, valor à nova vaga de escritores. Colabora frequentemente com crónicas para a revista Algarve Mais e foi convidado para o TEDxCoimbra, em 2012, onde falou do medo de partilhar.

O seu segundo livro já está em construção. Pedro Rodrigues adianta que, possivelmente, será um livro de micro-contos. O objetivo passa por escrever, durante 365 dias seguidos, “pequenos textos que só farão sentido todos juntos”. E o título? “Tenho uma folha cheia de títulos”. A publicação desta segunda obra seguirá os moldes da primeira: possibilidade gratuita de download. Mas o jovem escritor pondera começar a mostrar o trabalho a algumas editoras.

Na conversa com a Preguiça, Pedro Rodrigues mostrou-se, ainda, inquietado em relação à geração a que pertence. Considera que a sua geração vive “demasiado depressa” no que toca aos sentimentos e às relações mas a sua maior preocupação vai ao encontro da ociosidade dos jovens. “A nossa maior crise é uma crise social e nós estamos a perder valores”. Na visão de Pedro Rodrigues os jovens vivem formatados para a televisão e para o computador – “vêem o Big Brother e isso faz-me confusão, não sei realmente o que é que se passa com as pessoas”.

E o futuro da literatura? “Eu gostava que fosse um futuro risonho mas neste país tudo o que é cultura é cada vez mais combatido”.

Texto de Rafaela Vilão (escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 04 de Dezembro de 2013)