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Há água em Marte

BPI_9350 O Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) apresenta, até dia 11 de Janeiro próximo, a exposição do artista plástico Valdemar Santos, Há água em Marte, sob a curadoria de Carlos Antunes.

Não é a primeira vez que o CAPC acolhe Valdemar Santos, tendo recebido o artista individualmente em 2005 (My gardner is bielorussian), e em duas exposições colectivas posteriores (Mono, 2008 e Don`t shit where you eat, 2011). Por outro lado, também não é a primeira vez que se apresentam a público algumas das obras que integram esta exposição, tais como o acrílico Fonte Fria datado de 2005 (e que resulta de uma aguarela, de 1871, que consubstancia o projecto para arranjo da fonte fria no Buçaco), e os acrílicos a Grua, P e CV, que datam de 2009. Ainda assim, esta mostra resulta de uma conjugação inédita de várias obras do autor.

O nome que dá vida a esta mostra é, na realidade, e segundo o próprio autor, a cópia de um título do jornal O Público, de 24 de Janeiro de 2004, e já foi alvo de exercício pelo mesmo artista, aquando da instalação no Projecto Telefónico em Guimarães (2012), no Cais 1 e Cais 2.

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Na realidade, este podia tratar-se de um título de outra edição, ou de outro jornal, ou podia ser, e para nós, o nome de um outro momento qualquer da história deste, ou do outro mundo. Se há ou não há água em Marte importa na medida em que o homem pode, ou não, querer fazer expandir-se, levando com ele tudo quanto há e tudo quanto tem, virá a ter, ou que nunca teve. E havendo água em Marte abre-se a porta ao renascimento, ou à miséria.

Nas palavras de António Olaio, registadas na folha de sala da exposição, lemos que: «Há Marte em toda a arte porque na arte existe um alcançável inalcançável, lugar de coincidência de realidade e ilusão.». Certo é que, a pretexto deste título, podemos ver uma mostra de obras que aludem ao homem e ao super-homem, ao homem micro e ao macro-homem e, no final da visita, ao homem na sua solidão e na frieza dos dias que vive imerso em mundos que nem sempre são o que deviam ser.

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Na primeira sala vemos o título da exposição que, por sua vez, consubstancia uma obra de arte, em letras recortadas onde se lê que Há água em Marte e no fundo da sala alinham covers de capas de livros, a da esquerda do de Alberto Pimenta, Discurso sobre o Filho-da-Puta, e o da direita de Georges Orwel, Animal Farm. Nas demais salas podemos ver neandertais afrontados, olhares solitários que nos moem, maquetes de casas esmagadas por um pneu, e de garagens que esmagam livros, maquetes de salas vazias que guardam caules lanhosos e, ao fundo de todas as salas, estancia a imagem que faz a capa da exposição, a pequena imagem de marte a tinta azul, porque cheia de água.

Resta saber se no meio destes tons azuis e verdes, se no predizer da literatura e da BD enunciadas, se nas alusões constantes à solidão, haverá água em Marte que prediga o futuro de uma civilização em estado líquido.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 5 de Dezembro de 2013)