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D. Fernando II e o pinheiro nórdico

BPI_0080 Numa altura em que praticamente todas as casas que conhecemos lavam a cara para acomodar o pinheiro de Natal, cumprindo um ritual que nos traz os perfumes da infância e as visões românticas da nossa cidade a vender pinheiros junto à Câmara Municipal, ou no Mercado Municipal, numa altura em que vagueamos o olhar por entre as caixas que guardamos há um ano para, de dentro delas, retirarmos as gambiarras e os anjos e os brinquedos de lata que penduramos, com extremado sentido estético, nas folhas verdes dessas árvores com as quais nos habituámos a lidar, numa altura em que o regresso ao tempo primevo nos traz um género de memórias que, logo em seguida, se transforma em contracção, ao olharmos bem para um mundo transformado num espaço pouco dado ao sonho, decidimos escrever sobre esta peça encantatória que nos povoa o imaginário: o pinheiro de Natal.

A tradição do uso do pinheiro em determinadas ocasiões festivas (solsticiares) possui origens pagãs e milenares (porque associado à vida, à fartura, à fertilidade, à saúde…) mas, com o passar do tempo, e como aconteceu com tantas outras tradições que o cristianismo reverteu (por vezes por não conseguir dominar), o simbolismo do pinheiro pagão converteu-se, associando-se a sua forma triangular à Santíssima Trindade, e a perenidade das suas folhas, à perpetuidade de Jesus Cristo.

Entre nós, deve-se a D. Fernando II, ou Fernando Augusto Francisco António Kohary de Saxónia-Coburgo-Gotha (1816-1885), a introdução desta peça decorativa sazonal. Achávamo-nos em pleno século XIX, e D. Fernando estava já casado (celebração datada de 1836) com a sua primeira mulher, a rainha (viúva) D. Maria II quando, cumprindo a sua tradição germânica, decidiu incluir no Palácio o pinheiro de Natal, enfeitado com velas e com frutos. No Portugal da época, o Natal assumia uma feição exclusivamente religiosa e, se havia quem alterasse a decoração das suas casas nesta ocasião, usava, para isso, do costumado presépio, centrado na figura do recém-nascido Menino acolitado pelos pais e animais e, quanto muito, pelos pastores e os Reis Magos.

Coincidência ou não, certo é que o pinheiro de Natal nos surge pela mão do “rei artista”, singular dirigente de Estado que apreciava bailes e saraus, que frequentava o teatro e os concertos, que usava da sua voz barítona como raros o conseguiam e que se conhecia como um grande cultor da vida festiva e prazenteira. Como sabemos, D. Fernando foi um amante das artes e um portentoso mecenas. Protegendo a recém-criada Academia das Belas Artes de Lisboa, fundada a 25 de Outubro de 1836, reparando e salvaguardando os ruinosos mosteiro da Batalha, Mafra, Tomar e Jerónimos, assumindo a presidência do Conservatório Real de Lisboa, promovendo o sistema de bolsas de estudos artísticos, cuidadoso e dedicado coleccionador, D. Fernando preferia a arte ao governo, praticando-a sempre que o tempo assim o permitia, escolhendo o Palácio da Pena, em Sintra, como atelier e residência artística.

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D. Fernando transformou a celebração do Natal, no Palácio da Pena, numa divertida e luzente aventura festiva. A gravura que nos legou, feita pela sua mão em 1848, e titulada A chegada do Pai Natal, [Palácio Nacional da Ajuda (PNA inv. n.º 56618)], fotografa um desses momentos familiares, com a figura central de um S. Nicolau carregando três sacos de prendas que as crianças espreitam, algumas curiosas, outras mais temerosas. Ao fundo da cena principal podemos ver, sobre uma mesa atoalhada, o pinheiro nórdico enfeitado com velas e pendentes. Este registo iconográfico dá-nos então notícia do uso deste elemento na decoração natalícia palaciana, e é partindo dele que espreitamos o ambiente particular vivido por D. Fernando com os seus filhos e D. Maria II que, embora reconhecendo que Portugal vivia momentos de grande desordem, se enternecia com os momentos gráceis que a maternidade e o matrimónio lhe proporcionavam.

Mas a tradição do uso do pinheiro entre nós não arrancou imediatamente à usança de D. Fernando. Foram precisos vários anos até que o comum das famílias portuguesas adoptasse este elemento decorativo e simbólico que passa a configurar o centro das atenções nesta quadra. Chegados ao último quartel do século XX, assistimos ao desaparecimento paulatino do presépio e ao advento do pinheiro caseiro carregado de frutos (a fonte de vida), de luz (o conhecimento, a iluminação, a luz divina), de estrelas (orientação) e, depois disso, carregado de anjos que anunciam e protegem, de branco (pureza) e, acima de tudo, de sonho. E chegados ao início da centúria em que nos encontramos, assistimos à ausência no nosso enorme presépio de rua e aos pinheiros naturais, porque difíceis de ornamentar, à escuridão e ao silêncio das ruas desertas, e ao deslumbre pelo império do Centro Comercial amontoado, cuja figura central é o ditoso e já irrelevante Pai Natal, o elemento que sobra aos tempos de D. Fernando tornado público.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 12 de Dezembro de 2013)