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Crossroads 2013

O Madison Square Garden em New York foi este ano o palco escolhido para Eric Clapton e amigos das seis cordas fazerem a sua já habitual jam session (em versão extendida) de beneficência para o Crossroads Centre. O Crossroads Guitar Festival, festival de guitarra que sucede a cada três anos e junta alguns dos melhores guitarristas do planeta no mesmo palco, serve de apoio ao centro de reabilitação para alcoólicos e toxicodependentes que Clapton e Richard Conte criaram em 1998, em Antigua.

Clapton deixou os palcos ao ar livre e as performances diurnas em Chicago e preferiu estender os tapetes persas n’O Garden, palco das distantes grandes exibições dos New York Knicks de Patrick Ewing ou do mítico combate de boxe entre Joe Frazier e Muhammad Ali conhecido como “A luta do Século”, em 1971. O primeiro Crossroads indoor perdeu também alguma piada com a ausência do seu habitual apresentador, Bill Murray, bem como alguma da energia e boa-disposição que caracterizaram este festival de e para guitarristas, tocado maioritariamente durante o dia, ao sol e em calções. Também há cerveja, mas fica-se sentado e na penumbra.

Tocada e gravada em duas noites consecutivas, (um registo fácil para quem está habituado a tocar no Royal Albert Hall durante semanas), a reunião contou com algumas dos já habituais lendas vivas do Rock e Blues como BB King, Jeff Beck, Buddy Guy ou Albert Lee e também com uma boa parte da nova geração de guitarristas que ali têm sido apresentados e promovidos por Clapton nos últimos anos, como Doyle Bramhall II, John Mayer, Derek Trucks ou Robert Randolph. Este ano, Gary Clark Jr. é uma das novidades no elenco e sério candidato a um lugar cativo no Crossroads. Sem tiques de guitar hero, destaca-se pela sua voz melodiosa e pela sonoridade crua e limpa da sua guitarra. No palco rotativo sucedem-se as montagens e desmontagens do material de cada um dos muitos músicos que por um dia (neste caso, dois!) se juntam em palco para homenagear  e tocar em conjunto alguns dos temas clássicos do Blues e do Rock’n’Roll.

Clatpon abre o concerto com um pequeno set acústico e uma versão reggae de Tears in Heaven, acompanhado de alguns elementos das suas bandas de tournée, como Andy Fairweather Low e Doyle Bramhall II (guitarras), Chris Stainton (piano) e Steve Jordan (bateria), para de seguida interpretar Lay Down Sally com o aniversariante Vince Gill, talvez em jeito de presente de aniversário. Valeu a Gill ter afinado o clássico com Sheryll Crow e o mítico James Burton, na edição de 2010. Infelizmente, Sheryll Crow também faltou à edição deste ano, o que muito nos entristece pois por muito que insistam, o esforçado Keith Urban não substitui o encanto especial da cantora do Missouri. Eric, trata disso para a próxima edição, se fazes favor.

Ao longo do espectáculo, o dono da festa vai surgindo em palco para tocar com alguns dos seus convidados, sempre em modo slowhand e com a boa-disposição característica de quem está a tocar para o cão no tapete da sala de estar. Robert Cray, Kurt Rosenwinkel, Allman Brothers e Robbie Robertson são alguns dos felizardos que partilham o palco com Clapton durante os dois concertos, e os aplausos são redobrados de cada vez que a Stratocaster de Clapton se faz ouvir.

Destaques individuais para as actuações de Robert Cray, muito profissional e com uma sonoridade muito coesa; John Mayer e Keith Urban num Don’t Let me Down cheio de dinâmica e solos de guitarra com enorme tom; Earl Klugh com uma belíssima interpretação de guitarra clássica que contrasta com a electrificação reinante e para o trio country de Vince Gill, Albert Lee e Keith Urban, muito empenhados e em grande sintonia com o público do Garden; um momento especial também com o dueto de resonators entre Keb Mo e Taj Mahal, num blues clássico e despido de artifícios. Muito feel e muito slide correm nas veias e cordas das guitarras destes dois senhores.

Como habitualmente sucede, o melhor guarda-se para o fim e Jeff Beck “esmaga a concorrência” com um enorme Going Down acompanhado da talentosa e sempre bem-vinda baixista Tal Wilkenfeld. Quase que a falar entre si, esta dupla virtuosa junta-se ao violino de Lizzie Ball em Mna Na Heireann de forma irrepreensível e melodiosa. Como se não fosse já suficiente, eis que surge um dinossauro ainda mais inesperado para um Key to the Highway bem moderado e a meio-gás. Sem desafinar muito, Sir Keith Richards junta-se a Sir Eric Clapton (apesar de não o serem, são-no inevitavelmente) e abrem caminho para o grande final do Crossroads 2013.

Acompanhado dos elementos da sua banda mais recente e das suas cada vez mais afinadas coristas, Clapton nem tira o kispo (estaria frio no Garden?) para a última performance da noite e ataca furiosamente o wah-wah em Got to get better in a little while, para gáudio do público que não mostra frio nem vontade de ir para casa. Seguem-se o clássico tema homónimo do festival, Crossroads e o hipnótico e muito aplaudido Sunshine of your Love, com Steve Jordan a não deixar ficar mal o legado de Ginger Baker e a espancar graciosamente a sua bateria como este clássico dos Cream exige e impõe.

No final, a inevitável jam com todos os guitarristas presentes (no final contámos 18 e dois canhotos!) prova que as guitarras nunca são demais e até mesmo que quantas mais melhor. Haja espaço, amplificadores para todos, e tempo para cada um brilhar, claro está. Clapton (já sem o kispo) e o Crossroads despedem-se assim até 2016, quem sabe se não pedimos uma acreditação para a Preguiça fazer a reportagem ao vivo e a cores deste grande festival de guitarra. A ver vamos!

Texto de Bruno Pires

(Publicado a 28 de Novembro de 2013)