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No mundo das letras

BPI_6895 Os clubes não são só os de futebol, nem os dos poetas mortos. Quem não pertenceu, na sua infância ou adolescência, a um? Secretos ou públicos, de cariz cultural, desportivo ou recreativo, os clubes sempre fizeram as delícias dos seus membros. Coimbra vê nascer mais um: o Clube dos Tipos. Joana Monteiro, natural de Coimbra, e Paul Hardman, inglês a viver recentemente na cidade, são designers gráficos e são os seus fundadores. Deixaram-nos entrar sem pedirem senha.

O Clube dos Tipos é um clube de tipografia, cujo intuito é reunir pessoas interessadas neste processo de criação, materialização e impressão das letras. “O clube foi formado com a intenção de fazer uma espécie de ponte e de ligação entre designers, artistas e pessoas em geral, que estejam interessados na tipografia tradicional”, explicaram.

Quem se juntar ao clube, irá trabalhar à volta do conceito clássico de tipografia, mas irá também ser desafiado a ir mais além do que aquilo que a técnica pura e dura tem para oferecer. Irá conhecer as regras, saber todos os passos a dar, saber trabalhar com os tipos (de letras) de madeira e de metal. Descobrirá que o espaço entre as letras, as palavras e as linhas também se faz com um elemento físico de metal, chamado matéria branca, e que esse espaçamento tem os nomes de kerning (espaço entre letras) e leading (espaço entre linhas). No entanto, irá perceber “que ao estar a trabalhar numa oficina de tipografia, há coisas que acontecem no meio do processo que não estamos a contar e isso é muito importante para nós”.

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Todo o processo é lento, demorado e dependente das decisões que são tomadas na altura. “Por exemplo, quando estás no computador, as decisões que tens de tomar são tão automáticas que te escapam, não chegas a ter contacto com elas. Muitas vezes quem trabalha com tipografia em formato digital nem sabe como funciona o processo. E isso faz com que o resultado final seja diferente do que seria se o processo fosse manual”. Aliás, acrescentam em tom de curiosidade, “mesmo quando se trabalha no computador, os termos usados são referentes aos nomes convencionais”.

É precisamente na ideia de que é no processo que surge o resultado que estes dois designers, e amigos, gostam de se centrar. “Muitas vezes durante o processo tipográfico temos de tomar opções que podem ser contagiadas por algumas restrições que a própria técnica implica. São essas restrições que se podem tornar interessantes e ser aproveitadas para incluir no projecto. Isso terá um grande peso no resultado visual final”. Os acidentes de percurso são, portanto, bem-vindos. E para aqueles que têm uma ideia muito concreta e específica sobre o fim a atingir, sem margem para deixar rolar a espuma do imprevisto, “nesse caso talvez não valha a pena ir para uma oficina de tipografia”.

O uso da tipografia, confessam Joana e Paul, “é feito à partida com uma intenção que não é necessariamente muito prática nem muito funcional, nomeadamente hoje com a maioria das impressões a serem feitas em máquinas digitais”. Talvez por isso cada vez mais artistas, de várias áreas, estejam a “invadir as tipografias pelo seu lado mais gráfico, mais plástico, mais artístico e menos comercial”. É nessa direcção que o Clube dos Tipos quer seguir, mostrando também às pessoas “que é possível aceder a uma oficina de tipografia, e a toda a técnica, com muito mais facilidade do que imaginavam”.

A trabalhar em parceria com a Tipografia Damasceno, este clube tem as portas abertas para qualquer pessoa que nele queira entrar. E quando perguntamos que tipo de actividades pretendem promover, a resposta é concreta e ao mesmo tempo cheia de incertezas, não fossem estes dois artistas adeptos do inesperado. “A nossa intenção é criar workshops que tragam as pessoas para as oficinas de tipografia. Estes workshops estão bem estruturados e serão dados por nós e pelo técnico de tipografia que é o Rui Damasceno”.

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Gostariam de ter ligação com a Universidade de Coimbra e parece que essa vontade se irá concretizar. “Há um professor universitário da área de design e multimédia que já entrou em contacto connosco e gostava de fazer um workshop com os alunos dele”. Esta é uma vertente que acham importante explorar, até porque ambos estiveram a fazer mestrado em Londres e lá “todas as escolas de arte, design e design gráfico têm acesso a oficinas de tipografia que estão dentro das próprias escolas há centenas de anos. E estão ali para isso, para os alunos as experimentarem e não para terem um intuito comercial”, desabafam. Em Portugal, algumas tipografias estão disponíveis para este serviço educativo, mas muitas nem sequer questionam essa forma de utilização.

Sendo assim, uma outra ideia que Joana e Paul têm em mente, é criar uma rede nacional de tipografias. “Uma espécie de base de dados em que esteja toda a informação sobre que tipografias em Portugal têm condições e querem ter este tipo de colaboração. Isso dará visibilidade e facilitará o acesso a essas mesmas tipografias”.

Apesar do caminho estar ainda em fase de construção, o Clube dos Tipos conta já com vários contactos de pessoas interessadas em juntar-se à obra e com um projecto realizado. “Participámos na Experimenta Design 2013 (EXD’13) com uma exposição na Fábrica Features, dedicada a um dos temas. Construímos pequenos jogos tipográficos que brincassem com o espaço e foi muito importante para nos questionarmos e definirmos o que queremos fazer”.

Quanto ao nome dado a este projecto, pouco há a dizer. Surgiu de forma natural e agrada-lhes a duplicidade de sentido que a língua portuguesa permite criar. “Os tipos somos nós e são as letras”, explicam aos mais desatentos.

Bem-vindos ao clube!

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 21 de Novembro de 2013)