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Paulo Lima: “Origem e Ruína”

BPI_5062_Small Paulo Lima, nascido em Coimbra, “artista multifacetado” e actualmente funcionário público na Incubadora Cultural de Águeda (inCA), acaba de ver publicado o seu primeiro romance pela Chiado Editora. A Preguiça não quis perder a oportunidade de o conhecer melhor e foi ao seu encontro.

Fala-nos sobre a origem deste livro Origem e Ruína.
Este foi um livro que escrevi em 2005. Desde a minha adolescência que tinha o sonho de ser escritor. Sempre escrevinhei umas coisas, mas só por volta de 2001 o comecei a fazer profissionalmente. Fui aperfeiçoando o método à medida que os anos iam passando e agora cheguei finalmente à fase da publicação. Tenho já oito romances acabados, sendo que a ideia original era fazer uma colecção de dez livros. Apesar de não ter acabado os dez, decidi avançar com um deles depois de ter recebido uma proposta para publicar um dos oito livros. Neste caso, Origem e Ruína foi o quinto que escrevi. Para todos os livros que escrevo faço um trabalho de pesquisa bastante complexo e na altura (2005) a minha pesquisa para este romance começou por uma grande entrevista à minha mãe. Este livro fala sobre o relacionamento dos meus pais.

É um livro auto-biográfico?
Sim, é. Não está explícito, não falo em nome próprio, mas é. Há uma corrente literária que surgiu nos anos 60 com a qual me identifico muito, o ‘novo jornalismo’. Já vem da minha formação jornalística em que o meu trabalho final foi precisamente sobre a relação entre o jornalismo e a ficção. Portanto, a partir daí e das teorias de Tom Wolfe, sou daqueles que acha que a auto-biografia e a descrição da realidade como ela é, é a melhor matéria. Na realidade está a melhor ficção. E estes oito romances foram trabalhados muito nessa perspectiva. À medida que fui crescendo e tornando o processo de escrita mais complexo, comecei a entrar muito dentro da fantasia. Neste momento estou com um grande domínio na arte da escrita fantástica e especialmente ficção científica. O Origem e Ruína é uma mistura das duas coisas: 60% de novo jornalismo e 40% ficção científica pura e dura.

Com Origem e Ruína fazes uma espécie de catarse em relação a algo?
É a minha catarse em relação ao meu pai. A primeira condição da vida do meu pai que me afectou foi o facto de ter sido um pai ausente. Só o vi em quatro oportunidades na vida. Nunca o conheci profundamente, nem a parte angolana da minha família. O meu pai foi um angolano que emigrou para a Venezuela, onde esteve vinte anos, e acabou por morrer cá em Coimbra em 1996. Com o passar dos anos acabei por me aproximar da minha família angolana, mas até desse processo o meu pai esteve ausente. Até aos meus 30 anos sempre tive uma grande revolta que tenho vindo a resolver interiormente e muito através deste livro. O facto de eu próprio também já ser pai ajudou-me a fazer as pazes. No entanto, este livro é igualmente um processo de entendimento do porquê a minha mãe nunca ter desistido do casamento. Nesse sentido, é uma homenagem à minha mãe. E claro, um exercício de fantasia meu.

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A tua mãe já leu o livro?
Leu até meio, não quis acabar. O que lhe interessa mais é o filho estar a fazer as pazes com o pai e estar a assumir-se como escritor. É nisso que ela me está a apoiar. Na verdade, a matéria do livro em si puxa muito emocionalmente por ela.

O que pretendes alcançar com este livro?
Espero ser reconhecido como escritor. Já sou escritor para os meus amigos, mas oficialmente não podia ser considerado escritor sem publicar nada. Mas acho que a partir de agora sim.

O livro está a vender bem?
Já houve algumas vendas, mas creio que depois dos lançamentos oficiais vão aumentar. Há também uma série de instituições, públicas e privadas, que estão a organizar lançamentos do livro. Ainda estamos em fase de negociação, mas vão acontecer e isso vai ser muito bom.

Artisticamente fazes outras coisas também, não é? Tens um pé na música e outro na representação…
Bem… Eu não sou músico, sou actor de teatro. Mas realmente as duas coisas sempre se foram misturando. Pertenci aos ‘Tu Metes Nojo’, que acabaram em 2005, e desde aí nunca abandonei totalmente a música porque os meus amigos mais próximos de Coimbra são todos músicos. Tenho até uma ideia para uma banda de rock que se irá chamar Os Acidentalistas. Lançam um álbum e acabam a seguir. Estou a tratar de recolher os músicos para esse projecto. Quanto à minha carreira de actor, esta passou por Coimbra e pelo teatro universitário e em seguida fui para Lisboa tentar infiltrar-me no mundo artístico. Lá comecei por estagiar na rádio Renascença, na Vox e fiz algumas reportagens para o jornal Público como freelancer. Acabei por trabalhar com grandes actores, mas de facto não tinha o potencial assumido para mim. Foi uma grande aprendizagem, mas foi um erro ter ido para Lisboa tentar inserir-me nos projectos dos outros e ser actor à maneira dos outros. E só comecei a admitir esse erro quando comecei a trabalhar com o Ricardo Vaz Trindade, que é também de Coimbra. Criámos o projecto Esticalimógama, juntamente com a pianista Joana Gama, concorremos ao concurso de novos actores do Teatro São Luiz com a peça Benny Hall e fomos seleccionados. A peça foi um sucesso e depois percorremos o país com ela. Mesmo assim não dava para vivermos só de sermos actores. Entretanto a vida mudou e cada um seguiu outros caminhos. Mas foi a partir desse momento que disse que nunca mais trabalharia à maneira dos outros. Foi preciso ir alguém de Coimbra para Lisboa para me ensinar como devia ser eu próprio. Quero voltar a trabalhar com o Ricardo e até temos já uma peça em vista. Vamos ver o que acontece. O teatro depende muito do cosmos.

Acreditas em forças superiores a nós?
Claro. Há forças superiores a nós e que interferem na nossa vida. Pensamos que temos o controlo, mas não temos. O mundo é muito maior que nós e leva-nos para sítios que não esperamos.

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Consideras-te um artista?
Sim, um artista multifacetado. Acho que a arte por excelência é a literatura. Para mim, mais o romance do que a poesia até. A literatura é a minha faceta que compila as outras todas, que as resume e as revela.

És leitor? O que gostas de ler?
Sou um leitor muito ávido. Quando posso, leio cinco a seis horas por dia. Isto também vem do meu pai. A minha família angolana já me disse que venho de uma família com alguma tradição literária. O meu pai era um escritor falhado. Escrevia cartas de quinze em quinze dias para a minha mãe e por vezes para mim. Havia uma gaveta cheia de cartas grossas, com sete e oito páginas. A minha mãe deitou-as fora e na altura reagi muito mal a isso. Quanto ao que leio, tenho algumas obras de referência, às quais estou sempre a voltar, e a partir das quais tudo o resto se ramifica. As obras épicas de Homero, Hesíodo, Virgílio, Ovídio, John Milton, Goethe, Camões e Dante. Depois tens de fazer escolhas, não podes ler tudo. Gosto da literatura francesa clássica, alguma literatura inglesa e também a americana, coisas mais do novo jornalismo. Sou apaixonado por ficção científica e aqui destaco Isaac Asimov, Robert Heinlein, Ray Bradbury, Philip K. Dick e Kurt Vonnegut. Aliás, tinha acabado de ler o Matadouro 5 ou a Cruzada das Crianças de Vonnegut quando comecei o Origem e Ruína. Fui influenciado pela narrativa cíclica deste escritor. Todos os livros que escrevi têm um estilo narrativo completamente diferente uns dos outros.

E autores portugueses, quais são os teus preferidos?
O meu preferido de sempre e que adoro é o Aquilino Ribeiro. Gosto também do Eça, do Camilo, Camões, Vitorino Nemésio e Fernão Mendes Pinto. Não leio muito os autores da moda. Embora também goste de José Saramago e António Lobo Antunes. Mas o próximo livro que vou publicar irá chamar-se “Fernão Mendes Pinto tinha razão” e será baseado na minha experiência de 14 meses no Navio Escola Sagres. Fui para lá de propósito. Tinha a ideia de que se queria ser escritor teria de ser marinheiro, como tantos outros escritores foram.

O que dirias aos nossos leitores para os convenceres a ler Origem e Ruína?
Este é um livro que mistura a realidade, fantasia e ficção científica. A questão dos retornados é muito importante. Pode dizer-se que é um tema que está na moda, mas penso que é precisamente porque as pessoas já tiveram tempo de o digerir e agora está a vir ao de cima. O livro é também uma cosmogonia, onde apresento a minha versão sobre a história do universo. Recomendo que leiam e depois poderemos falar e dissecar o que quiserem.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 14 de Novembro de 2013)