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Sociologia do Rock

Seria preciso escrever um livro ou um qualquer artigo académico para falar sobre o rock e toda a componente sociológica que o envolve. Não sendo o espaço adequado, não me proponho a fazê-lo. Pretendo falar do fascínio do rock, o seu significado na cultura de uma sociedade cada vez mais contemporânea e os valores culturais que daí reflectem. Apenas pequenas dissertações, episódios esporádicos, marcos emblemáticos, símbolos culturais que preservam ainda hoje uma identidade muito própria. Este é o primeiro.

O MACHISMO NO ROCK’N’ROLL (e na indústria da música em geral)

Tudo começa com a própria definição de rock’n’roll. Da subjetividade da resposta. Das múltiplas análises possíveis, uma sobressai: tudo reside na alma, na entrega ao poder da música e a forma de como se expressa. Então, se pegamos pela alma, rendição e veracidade do momento, como e onde identificamos a frase “isto é muito rock’n’roll!”? Como distinguimos um concerto de Michael Nyman ou do falecido Bernardo Sasseti dos Stooges ou dos Motorhead?

Para muitos a resposta está na fúria e agressividade, nos acordes que se usam, na velocidade das guitarras cheias e emblema sonoro do universo dito rock’n’roll. Mas se recuarmos no tempo lembramos o piano de Jerry Lee Lewis ou Screaming Jay Hawkins e sua simbologia. Mantemos a velocidade e a fúria, tiramos as guitarras. Concentremo-nos nos sentimentos e esqueçamos o conceito de rock’n’roll e seus acordes característicos, o seu nascimento, influência cultural e social até ao dia de hoje. Foquemo-nos no facto de que na indústria da música 95% dos artistas são masculinos. Identifiquemos qual o papel da mulher na indústria da música e o seu acesso à mesma.

Como nasce então este conceito de sexismo? Culpamos Elvis Presley ou os Rolling Stones? Ou o universo masculino criado em torno das pin-ups mais tarde reproduzido na forma de tatuagens? Onde começa o uso da mulher como apropriação sexual e sua exploração na indústria da música?

Letras ofensivas, a ideia de que as mulheres não podem dominar determinados instrumentos ou estilos musicais, o olhar superior do homem tem, com certeza, um contexto histórico. O patriarcado e sua ideologia de autoridade ou dominação masculina da sociedade são as grandes raízes do sexismo em geral. Peguemos nesta definição e demos como exemplo a autoridade e limitação no controle e protecção que o homem tem na produção de música, limitando a participação das mulheres.

Além disso, o sexismo existe mesmo na música que as mulheres realizam. Canções escritas por homens, canções que refletem ideias machistas sobre o que as mulheres querem e sentem, quase sempre com um acento num ideal romântico do amor que estimula a passividade das mulheres e da dependência dos homens.

Tendo em conta estes factores, não é surpreendente que encontremos o sexismo mais vincado em géneros musicais que exibem dominação masculina marcante: rock´n´roll, heavy metal e mais recentemente no Hip Hop, onde os vídeos musicais exploram a imagem da mulher de uma tal forma que quase fazem esquecer as letras ultra machistas dentro do género mais comercial: mulheres enquanto objetos de fantasia dos homens, desvinculadas de personalidade, usadas como acessórios.

Claro que os vídeos (e o poder da imagem) ampliam e amplificam as diferenças físicas entre os sexos que fundamentam as crenças sexistas sobre a inferioridade das mulheres aos homens, bem como poderosamente fortalecem a imagem das mulheres enquanto objetos sexuais, reforçando estereótipos e mantendo uma mentalidade totalmente ultrapassada.

Problema longe de estar resolvido ou ser ultrapassado, permite às mulheres sobreviverem e competirem neste mundo profundamente masculino de duas formas: com conformismo ou reproduzindo os mesmos estereótipos – aqueles que sabem que vão escandalizar -, ou ao encontro do universo económico dominado por homens.

Babes in Toyland, Courtney Love e o sexo das Riot Girrrls (Peaches, Le Tigre…..), todo esse movimento que agitou os anos 90 – e a tentativa de desconstrução do sexismo – caiu no ridículo. A mensagem através do sexo ficou nos anos 60. É gratuito e nada acrescenta a uma nova mensagem, a uma luta, a uma desconstrução de um ideal. Bem pelo contrário. Vai precisamente ao encontro do estilo agressivo do rock masculino e em nada choca ou desvirtua essa essência. Miley Cyrus, nesta sua versão híper-sexualizada, divide: Para uns uma mera prostituição reforçando a visão do corpo da mulher como mero objecto sexual. Do outro lado uma forma honesta de chocar o puritanismo cristão e social em relação ao sexo e nudez.

No extremo oposto temos as meninas – e acima de tudo meninos – angelicais, de beleza pura e casta, produto sonhador e na esmagadora maioria das vezes pensado em satisfazer os ideais românticos de uma educação cristã do amor.

Bons exemplos existem, obviamente. Não me cabe a mim apontar nomes. Aqui ficam duas artistas que realmente conseguem quebrar esta barreira, de uma forma honesta e realmente diferente.

Texto de Bruno Pedro Simões

(Publicado a 14 de Novembro de 2013)