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O grupo escultórico da Medicina

  BPI_6203_SmallO roteiro da escultura monumental da Cidade Universitária de Coimbra ainda não terminou. Depois do olhar sobre a representação de D. Dinis e de D. João III, das quatro esculturas fronteiras à Faculdade de Letras e dos grupos dos cunhais da Biblioteca Geral, ainda nos falta visitar os conjuntos escultóricos que fecham a Praça da Porta Férrea. Falamos das obras escultóricas situadas na fachada lateral da Faculdade de Medicina e na frente homóloga da Faculdade de Ciências e Tecnologia.

Esta semana cabe-nos observar a fachada lateral da Faculdade de Medicina, edifício que viria a habitar, grosso modo, no lugar deixado vago pela demolição, em 1942, dos dois grandes Colégios de São João Evangelista (ou dos Lóios) e o de S. Boaventura. Para além da ocupação destes espaços, a Faculdade e o Instituto de Medicina Legal estenderam-se aos aros de habitação e comércio (tabernas, farmácias, cafés, leitarias, encadernadores, padarias, etc.) até ao Largo da Feira, conforme se previa já desde 1943, altura em que Cottinelli Telmo informava o Ministro das Obras Públicas e Comunicações sobre o que estava por fazer na Cidade Universitária, afirmando que se estudavam os blocos, a construir de raiz, da Física, da Química, Medicina e Matemática, que viriam a ocupar os terrenos onde hoje se situam.

O risco da Faculdade de Medicina, bem como os dos três departamentos da Faculdade de Ciências e Tecnologia, ficaram a dever-se ao profícuo, mas discreto, Lucínio Guia da Cruz (sob o juízo de Cristino da Silva), o arquitecto que mais desenhou na Cidade Universitária coimbrã.

As obras de edificação da Faculdade de Medicina arrancaram em 1949 (fundações), poucos anos antes da inauguração oficial da Faculdade de Letras, terminando no mesmo ano em que se abria a Biblioteca Geral, em 1956. Durante o período que medeia os anos entre 1949 e 1966, o vogal-arquitecto da Comissão Administrativa do Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra (CAPOCUC) era o conhecido arquitecto Cristino da Silva, um homem que ideou grandes e (mais) expressas obras na Cidade Universitária, imaginando agigantar o plano de Cottinelli Telmo, construir o pórtico (já projectado) de união entre as faculdades de Ciências e Medicina para a entrada monumental na Rua Larga, a demolição dos Colégios de S. Jerónimo e das Artes, o grande derrube dos aros da colina universitária, a construção de uma Escola Superior de Farmácia inteiramente nova (para a qual via o derrubamento de uma importante massa construtiva entre as Rua José Falcão e a Couraça de Lisboa), entre outros planos que, felizmente, não chegariam a bom porto.

Interessa-nos agora o grupo escultórico do cunhal da Faculdade de Medicina, representando as Ciências Médicas, uma obra realizada pelo escultor lisboeta Leopoldo de Almeida (1898- 1975). A escolha do escultor para encerrar o discurso plástico da Praça da Porta Férrea não terá sido difícil, já que Leopoldo de Almeida se constituía como um dos mais significativos artistas plásticos do tempo – com obra pública muito considerável –, tinha já participado em trabalhos conjuntos com Cottinelli Telmo e Cristino da Silva, de quem era amigo pessoal, e era detentor de um currículo invejável.

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Leopoldo de Almeida foi um proeminente discípulo de Simões de Almeida (sobrinho) e achegado a artistas tais como Mário Eloy, António da Costa, Abel Manta, Sara Afonso, Cottinelli Telmo, Pardal Monteiro e Cristino da Silva que o trouxe a Coimbra. Bolseiro do Estado, o escultor viajou a Paris (1926) e a Roma (1926-29), onde intensificou a sua paixão pelo Quattrocento e pelo formulário clássico e renascentista de Donatello e de Miguel Ângelo. Já em Portugal, o autor passa a expor, a integrar importantes equipas de trabalho, ganhando vários concursos públicos e respondendo às mais variadas encomendas escultóricas. Em 1932 começa a leccionar, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, a disciplina de Modelação e Desenho de Ornato e Figuras. Em 1934 ingressa na ESBAL, como professor de Desenho de Figura do Antigo e do Modelo Vivo, onde faria uma longa carreira docente. De entre as tantas e emblemáticas obras deste escultor destacamos aquela que provavelmente todos conhecerão: o efémero Padrão dos Descobrimentos, em Belém (1939-1940), sobre o plano arquitectónico de Cottinelli Telmo, demolido em 1943 e reerguido em pedra em 1960.

O grupo escultórico da Medicina foi encomendado a Leopoldo de Almeida que o aceitou, desenhando-o várias vezes entre 1951 e 1952. No Centro de Artes das Caldas da Rainha, guardam-se vários desenhos que podem associar-se a este projecto (um deles muito complexo, com várias figuras alusivas ao conhecimento médico) bem como várias maquetes em gesso que espelham o processo criativo do artista, bem como as suas hesitações (nos modelos datados de 1954, com o n.º LA-0013 e LA-0014, a figura central era a representação de Atena-Minerva). No Museu José Malhoa (ESC 121), bem como no Museu da Cidade de Lisboa (ESC 213) conservam-se duas maquetes muito equivalentes ao trabalho final realizado em Coimbra.

Em 1956 era o conjunto escultórico passado à pedra, com o agrupado das personagens muito alterado relativamente aos projectos iniciais. Neste grupo figura a alegoria à Ciência Médica através da representação da grega Higeia (ou Hygieia, a deusa da saúde e da higiene, filha de Asclepius e Epione, também associada à farmácia) acompanhada, muito possivelmente, por Hipócrates e por Galeno.

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Podemos reconhecer Higeia na figura central do grupo já que ostenta o bastão de Asclepius (Asclépio) com a sua serpente (ou a Serpente de Epidauro, o mais significativo tempo dedicado a Asclepius, no Peloponeso, onde se sacrificavam cobras não venenosas em honra ao deus da cura). Por detrás da figura podemos ver as folhas e os frutos do loureiro, de onde foi retirado o bastão. Esta personagem, inspirada na Antiguidade, esculpiu-se numa pose vitoriosa, coberta, toda ela, por um denso vestido que mal deixa adivinhar-lhe os contornos de um corpo sólido.

As duas personagens que ladeiam a principal podem corresponder à representação de Hipócrates e de Galeno. Hipócrates (anterior a Galeno) ficou conhecido como um fundador da medicina científica, determinando a teoria dos humores, base teórica que vigorou durante séculos na Europa ocidental (embora no formato que Galeno mais tarde lhe viria a dar), e estabeleceu um conjunto de procedimentos, ou um código de ética, que ainda hoje serve a medicina. Galeno foi, como sabemos, um físico (cirurgião) romano, seguidor de Hipócrates nas suas matrizes essenciais, um grande fisiologista e anatomista que, para isso, dissecava animais vivos e mortos.

Leopoldo de Almeida desenhou estes dois corpos de forma esquemática e homogénea, quase simétricos, facto que determinou o aspecto cúbico que apresenta o grupo, denso na pedra e sem elementos que provoquem voos no olhar do observador que se fixa no centro da composição, triangular, para desviar-se depois ligeiramente para os lados, sem grandes inquirições.  A única questão que se coloca a quem observa este grupo é o que dirão as inscrições que os médicos ostentam nos seus monólitos, porque se entalham em língua portuguesa.

Das várias hipóteses para representar as Ciências Médicas, Leopoldo de Almeida (possivelmente em conjunto com o seu encomendador) seleccionou uma, aquela que hoje perdura voltada para a Praça da Porta Férrea, já sem mulheres em tronco nu, mas com corpos maciços escondidos por um forte e decoroso drapeado, para evitar o adensamento das respostas do público coimbrão.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 14 de Novembro de 2013)