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Das viagens de Ricardo Kalash

BPI_4681 Esta semana fomos conversar com o actor e encenador Ricardo Kalash, ou com Henrique Silva, numa tarde de chuva miudinha e no final de uma das suas tantas actividades, desta vez desenvolvida no núcleo de autismo na Escola Martim de Freitas. E escolhemos esta semana a propósito da estreia da Ópera La Serva Patrona, uma produção da Ritornello, com a primeira temporada agendada para os dias 9 e 10 de Novembro no Conservatório de Música de Coimbra, onde Ricardo Kalash desempenha acção multíplice de encenação, actuação, figurinos e cenários. 

Ficámos a saber que Ricardo chegou a Coimbra em 1988 para estudar Física na Universidade de Coimbra mas, por afortunado sincronismo que só ao destino cumpre formalizar, apanhou a Bienal Universitária de Coimbra (BUC), na edição desse mesmo ano, decidindo participar. Nessa altura, estava ainda longe de saber o que era o TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra), que lidava de perto com a organização da Bienal mas, pouco tempo depois, estava já integrado no grupo e a trabalhar com artistas renomados, tais como João Grosso, Ricardo Pais, Rogério de Carvalho e Luís Madureira, entre tantos outros. Foram dez anos profícuos no TEUC que o fizeram abandonar a Física, que se esqueceu, para desenvolver novos empreendimentos, entre os anos noventa e o século XXI, também com a Escola da Noite, o Teatro do Morcego, o Teatro Anónimo (que dirigiu e onde encenou profissionalmente pela primeira vez), a Encerrado para Obras e o Teatrão… Chegado o ano da Expo 98, Ricardo Kalash estava já seleccionado, de entre tantos proponentes, para os espectáculos Olharapos e Peregrinação, sob a direcção artística de Cândido Ferreira e João Brites, encenações que, decerto, todos nos lembraremos bem.

Ninguém previa esta latência artística, que se descobre de forma inesperada e que operou uma ruptura profunda no destino do agora actor maduro que se mudou das ciências para a arte. Ainda assim, tanto a Física quanto a arte intentam lidar com o mundo de forma (concreta e) especial, explicando-o, dando-lhe norte e sentidos, confrontando o homem com o seu estatuto de ser para o todo do qual faz parte. As diferenças entre a Física e a arte residem na percepção do mundo, na linguagem, no sistema explicativo e conceptual em que se enraízam, mas os objectivos primeiros acabam por assemelhar-se.

O teatro profissional não cumpre o horário completo de Ricardo Kalash que, a par destes projectos já elencados, ainda trabalhou com a Casa de Teatro de Trancoso durante 7 anos inteiros. E enquanto leccionava no curso de animação sociocultural, dedicava-se aos grupos de teatro para crianças e para adultos, estabelecendo uma relação estreita entre a prática (o teatro) e as aulas teóricas com os seus formandos. Esteve dois anos com a Curral da Mula (Abrunheira, Montemor-o-Novo), onde encenou as peças A Face do caos II (teatro de rua) e A Sociedade, com um texto da sua autoria.

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Paralelamente a toda esta actividade artística, Ricardo Kalash ainda criou um grupo de Teatro no Museu Nacional de Machado de Castro, posteriormente integrado na Liga dos Amigos do Museu, que o actor define como uma «escola platónica-espartana de formação de teatro» com cursos intensivos e de formação anual para crianças, adolescentes e adultos. Em terrenos tão incertos como este das artes performativas, o trabalho de formação que Ricardo desenvolve merece que lhe prestemos atenção.  É que sem saber de que se trata o teatro falham os públicos e, por outro lado, sem formação teatral falham as possibilidades de desenvolvimento de discursos tão expressivos como este. Não há férias escolares em Coimbra sem um workshop de expressão dramática que termina com uma apresentação ao público do trabalho realizado pelas crianças que idealizaram, em conjunto com o professor, a criação dos textos e das cenas que decorrem com uma naturalidade intimidante.

Com a Liga dos Amigos do Museu, Ricardo cria várias peças para adolescentes e adultos, no âmbito da formação anual, tais como os Bimbos da Arte Monocromática, A Caverna (com texto publicado), ou a Arte de ser Português, para referir apenas alguns trabalhos. Mas o personagem perene de Kalash é o guarda-chaves do Museu. Desinserido, ou sem o acolhimento numa peça de teatro tradicional, esta figura do guarda-chaves resulta de um «processo de pesquisa que dura há muitos anos no MNMC, e que a nível técnico é o mesmo que uma performance», vista já por mais de 7000 pessoas, e que assume vários papéis, determinados para as várias ocasiões em que nos surge. Ricardo Kalash serve-se desta figura, que guarda as chaves do Museu, para acompanhar visitas que se transformam em ocasiões especiais, porque «as pessoas vão ver espectáculos», e esta personagem permite que «brinquemos com as poéticas», e permite o desenvolvimento da «função social do espectáculo». Intenta o actor colocar em prática o serviço formativo da arte, difundindo conteúdos através de uma linguagem especial que é a linguagem teatral e encenada, pronta a evoluir com os seus receptores.

Para Ricardo Kalash, a relação com os públicos é muito particular. Nas suas palavras: «vou entrar “no mundo deles” e fazer discurso político com um formato artístico, interagindo no mundo real através do teatro». Trata-se de uma experiência que se assemelha ao papel do Bobo Medieval, a quem poupam a cabeça mesmo que a sua elocução pudesse comprometê-lo. E o teatro é um terreno fértil de pesquisas em torno dos suportes discursivos e das formas, abrindo possibilidades de experimentação constante e de realização mediada.

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O actor e encenador mantém ainda outros projectos no MNMC, tais como Eu no Museu com Alzheimer e Demência, o Trissomia 21 e o Autismo (sujeitos a marcação), delineados para trabalhar estas condições através da expressão dramática, e que se constituem como oportunidades que dão forma às suas preocupações com a formação através da arte.

Recentemente, Ricardo Kalash foi convidado por António Ramos, Director Musical da Associação Cultural Ritornello, para encenar a Ópera (Buffa) La Serva Patrona, de Giovanni Battista Pergolesi. A Ritornello pretende «produzir ópera a partir de Coimbra e este é o início desse processo», na medida em que, depois desta primeira temporada, estão agendadas outras para o Alentejo, Figueira-da-Foz, Viseu, para referir algumas localidades de acolhimento. Para o actor, «trabalhar num espectáculo com este formato é uma questão de linguagem». Explica o actor que a partitura de Pergolesi é densamente gestual, facto que suporta muito naturalmente a linguagem teatral que se adivinha através da música e dos diálogos. Na Ópera que estreia dia 9 de Novembro em Coimbra, Ricardo Kalash também participará como actor mas, alerta-nos, «não se assuste o público porque não canto, farei de mudo.».

Nos projectos que se escondem por debaixo das suas mangas, Ricardo Kalash confessa apenas que, também para este mês, estreará a peça Trespassa-me, com o grupo de adultos da Liga do MNMC, que classifica como um «canto progressivo de intervenção e uma comédia de costumes do Portugal piolhoso dos anos 40. Tudo cabe nesta mesma peça de forma sonhada.».

Este encontro com Ricardo Kalash deixou-nos a pensar nesta sua forma de vida única e efervescente e, acima de tudo, deixou-nos a pensar que podemos viver dos sonhos, quando de facto os vivemos. Da Física ao Teatro percorre-se um caminho de decisões que, pela dificuldade que nos impõe a escolha, devemos fazer sem pensar. E se o que nos agarra ao mundo é mantermo-nos dialogantes (em sentido lato) e garantir a constante possibilidade do encontro (que se faz por dentro, que se faz com o Outro, que se promove entre pares, que arreiga a vida…), então devemos acreditar no poder da arte, enquanto fenómeno integrado e único, e que permite formar e que autoriza espessas partilhas. No teatro, diz-nos Ricardo Kalash, «estamos sempre a desbobinar».

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 7 de Novembro de 2013)