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Anders Blickmann

BPI_4722 Anders Blickmann é André Tejo (um dos muitos heterónimos do músico), melómano devoto às tendências do novo milénio, um pé no futuro, uma mão no passado e outra no presente. “Brincadeira” iniciada com a ajuda de um computador em 2007, a Rádio Universidade de Coimbra (RUC) como pano de fundo.

A curiosidade pela produção surgiu naturalmente no meio de toda a música ouvida e partilhada nesse grande laboratório que é a RUC: “Dei por mim, muitas vezes, a desconstruir determinadas músicas ou a pensar em compor isto ou aquilo. Na altura tinha um velhinho PC caseiro, com um disco diminuto, um processador preguiçoso e uma RAM capaz de irritar a Madre Teresa de Calcutá”.

Foi precisamente com este PC que André Tejo começou a dar os primeiros passos, transformando ideias em ruídos. A diversão destas incursões é o seu principal catalisador. Foi no meio da partilha, do prazer e do gozo que o fazer música proporciona, que a Preguiça conversou com André Tejo, perdão, Anders Blickmann.

Esta é uma entrevista a Anders Blickmann, mas podia ser a outro dos teus heterónimos. Foco-me no Blickmann talvez por ser o teu alter-ego mais activo. Como nasce este Anders Blickmann?
O alter-ego surgiu com um duplo intuito. Funcionou como máscara e como forma de diferenciar o “André Tejo – jornalista & radialista” do “André Tejo – produtor”. O nome surgiu de uma forma algo inusitada. As primeiras composições que partilhei com o mundo surgiram num myspace. E, na altura, confesso que tinha alguma vergonha em mostrar o que fazia às pessoas. Logo, durante algumas semanas o meu perfil tinha apenas o nome Anders e uma foto de um olho a piscar. A minha localização (de perfil) variava entre locais como Aarhus, Malmö ou Amager. O que fez com que muitos dos meus amigos fossem nórdicos. Num dos comentários, uma dinamarquesa perguntava-me qualquer coisa sobre o facto de ter uma foto com o olho a piscar e, no meio de tanto vocábulo desconhecido, saltou-me à vista a palavra “Blinke” – a tradução dinamarquesa para “piscar”. Achei piada e adaptei a coisa a Blickmann. E também fiquei com vontade de aprender dinamarquês…

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(risos) Dinamarquês soa-me bem! Para além do Blickmann tens mais uns quantos alter-egos. Como descreves cada um deles?
A minha expressão artística não se sacia apenas com techno e house. São tantas e tão distintas as influências que consumimos hoje em dia… E, como tal, desde sempre manifestei vontade de compor sons mais experimentais, mais dub ou até, a espaços, mais pop. Perante sonoridades tão distintas, e como sou um tipo organizado, senti necessidade de criar várias personas para assinar os meus trabalhos. Anders Blickmann é o meu alias mais virado para o techno e para a house, o que não significa que produza sempre música a pensar na pista. Raramente o faço, confesso… Latin People With Breathing Problems é um projecto que surgiu com um conceito muito específico: sonorizar as sensações que o ser humano tem perante problemas respiratórios. São temas densos, claustrofóbicos e quase clínicos, carregados de subgraves e “ruidismo”. Berea é o meu alter-ego virado para as influências do dub nas electrónicas da actualidade. Tanto posso produzir algo mais tradicional, como me posso movimentar numa linha de baixo mais ácida com um beat meio trip-hop em fundo. A linha condutora é sempre a experiência de graves… O projecto Rephrase foi pensado para a família MPD (Música Pop Desempregada) e a premissa era simples: compor temas com recurso a sintetizadores da Korg.

Não achas que existiu da tua parte uma certa “arrogância” comercial na escolha do nome, tendo em consideração a nova vaga de techno berlinense, o Berghain e todos as centenas de 12” que saem da Alemanha todos os meses?
Nunca pensei no meu projecto musical como algo com potencial comercial. Se assim fosse, teria pegado numa viola, sentava-me na cama e escrevia uns poemas pueris e medíocres sobre amor e aviões ou algo do género. O nome surgiu como forma de separar o jornalista do produtor e não tenho a intenção de passar por alemão, dinamarquês ou chinês. Um gajo não é um melhor produtor por morar em Kreuzberg ou no Mitte e, com a democratização da música nos últimos tempos, um garoto pode estar mais por dentro da cena dubstep a morar em Antanhol do que se estiver no centro de Bristol. As festas são um bocadinho melhores em Bristol, mas não subestimem o potencial de Antanhol. Ou da Cidreira.

Já fui a grandes festas no Cabouco, não sei se conheces? (risos) Dentro desta nova vaga de techno minimal e house, a tua música é muito “downtempo” sempre muito tensa. De onde vem toda esta contenção, esta música que nunca nos deixa explodir?
Sempre gostei muito de dançar com a mente. Um set, por exemplo, tem de ser uma viagem com momentos de tensão, explosão e introspecção. Tem de caber tudo para que a experiência seja total. Como referi anteriormente, raramente penso numa pista de dança convencional quando produzo. Creio que há um momento para tudo na música: umas vezes transpira-se, outras vezes respira-se e há que saber fazê-lo na dose certa.

Ainda nesta lógica, o porquê de recriar um clássico tão grande como é o “wicked game” do Chris Isaak?
(risos) Sempre gostei muito do tema. Desde miúdo. E, há uns tempos, tinha comentado com uma amiga, que um dia destes ainda faria qualquer coisa com a “wicked game“. Resolvi arriscar e, depois de muitas experiências, até fiquei satisfeito com a cover.

https://soundcloud.com/andersblickmann/chris-isaak-wicked-game-cover

O que te dá mais gosto/gozo, ou são coisas que se complementam: criares a tua música, remisturas ou versões?
Tudo me diverte tremendamente. De formas distintas, claro. Adoro remisturar porque me obriga a trabalhar a partir de um ambiente condicionado. Há uma obra a priori para ser respeitada/desrespeitada e eu adoro esticar a corda nesse campo. Com as versões é quase a mesma coisa. Compor originais é absolutamente libertador. Não há um limite e isso é igualmente tentador. Em suma, e como disseste, são dois m.o. que se complementam perfeitamente.

Falando a nível nacional e local, qual é a realidade actual quanto ao techno minimal e a esta nova vaga de bass & house? Existe mercado e um local na história da música nacional para este género de música?
Há muita gente com talento a produzir em Portugal actualmente. É um fenómeno global, por isso, é natural que surjam talentos em Coimbra, no Porto ou em Mértola. Há um mercado, mas, como quase todos os mercados em Portugal, estamos a falar de uma realidade pequena, muito assente numa lógica de quid pro quo. Uma boa parte dos clubs está virada para a música de cariz mais comercial, de consumo fácil e rápido e, neste campeonato, a coisa vai-se aguentando muito bem. Contudo, se estivermos a falar de techno, o caso é um tanto diferente. Há menos escolha, mas, em regra, as pessoas responsáveis pela programação destes espaços são competentes e fazem com que tenhamos umas quantas mini-mecas em Portugal. Quanto ao lugar na história, isso não me parece importante. Interessam-me mais os temas que vou ouvindo agora de gajos como os Sabre, o Calapez, os Umbra ou o João (Elite Athlete) do que saber se está alguém a anotar aquilo que vamos fazendo.

Globalmente e pessoalmente ao mesmo tempo, acho toda esta revolução digital bastante “underground”, virada para umas horas de dança e facilmente descartável a nível emocional, concordas?
Há de tudo. Vai sempre existir malta que usa a música de forma mais ou menos descartável. Cada um se envolve com a música de acordo com a dimensão da sua paixão. Por exemplo, há gente que só se imagina a ouvir techno em ambiente de club, mas nessas três ou quatro horas, “desaparece da face da terra” e entrega-se à pista. Quando sai do club não quer saber quem era o dj, nem os autores das músicas que ouviu. Mas, no final de contas, divertiu-se, dançou e bebeu uns copos com os amigos. Para muita gente, este envolvimento emocional chega. Para mim e para ti, por exemplo, sabe a pouco. Vai sempre existir uma cisão motivacional entre públicos em ambientes nocturnos: há aqueles que saem para ter uma noite de copos e/ou engatar miúdas e há aqueles que saem porque querem ouvir música num bom P.A. Sem esta dicotomia, creio que a noite não tinha tanta piada.

Tocando num ponto em comum, a Rádio Universidade de Coimbra teve alguma importância no teu desenvolvimento, na tua vontade de querer fazer música?
Sim, claro. A RUC é uma fonte inesgotável de conhecimento. Aquilo é um antro de gente extraordinária, com quem estamos sempre a aprender. A constante partilha de experiências, pancas e ideais faz com que estejamos constantemente numa convulsão criativa. Muitas das pessoas que conheci na RUC são grandes inspirações em tudo o que faço e a música não é excepção, obviamente.

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Tens actuado com alguma regularidade aqui em Coimbra enquanto DJ. Para quando um Anders Blickmann ao vivo, com maquinaria em tempo real, manipulação de sons e a assumir-se como um artista de “live-acts” a nível nacional?
Falta-me maquinaria e conhecimento para dar esse passo. Só me imagino a dar esse “pulo” quando tiver a certeza que vou oferecer algo com muita qualidade ao público. Por enquanto, vou tocando aqui e acolá em formato dj set, uma arte onde me sinto muito à vontade e da qual retiro um gozo dos diabos. E o público tem-me dito coisas bonitas, o que ajuda a querer fazer mais e melhor.

Falei-te a nível nacional mas tenho a certeza que gostarias de poder actuar fora de Portugal. Achas possível conseguir dar este salto? Está nos teus planos ou não pensas muito nisso?
Sim. Ir tocar lá fora é algo que me motiva. É o aliar de duas paixões: passar discos e viajar. É um win-win. Acredito que posso dar esse salto e gostaria muito de experimentar novos públicos, novos clubs, comida, etc.

Num nível mais técnico e de composição, qual o software que usas? Tens muita maquinaria analógica ou trabalhas em exclusivo “dentro da caixa”?
Sou completamente digital. A principal razão? Sou um pobretanas e nunca me sobra dinheiro para investir em hardware. Mas é algo que quero fazer num futuro próximo. Sempre tive a ideia de aliar a tecnologia digital ao analógico… Neste momento trabalho com o Ableton Live, que é uma belíssima ferramenta. Durante muitos anos trabalhei com o Fruity Loops no meu velhinho PC caseiro, mas cheguei a uma altura em que me estava a sentir algo limitado no campo tecnológico. O Ableton Live veio colmatar essa limitação.

Qual é o teu sintetizador virtual favorito do momento e o teu “plug-in” de eleição?
É difícil eleger um só VST… Contudo, sou grande fã do Aalto, da Madrona Labs. É óptimo para desenhar padrões ruidosos. E há um sintetizador que me enche as medidas e que me acompanha há vários anos: o Predator da Rob Papen.

Tu e o João de Almeida (através do seu Elite Athlete) podem considerar-se a referência de maior expressão enquanto compositores deste género musical na cidade de Coimbra? E em Portugal, quem destacarias dentro desta electrónica mais especifica?
(risos!) Não. De todo. Não me considero uma referência em nada em particular, muito menos no panorama musical de Coimbra. Tanto eu como o João somos grandes amigos há anos e gostamos de fazer música e passar uns discos. Acho que até somos bons no que fazemos, mas daí a considerarmo-nos referências, nem pensar. Se há que mencionar referências no panorama musical conimbricense, terei que apontar os nomes de Tiago Eiras, David Rodrigues e Afonso Macedo. Mais do que três djs, estes gajos são verdadeiros educadores e assentam que nem uma luva no epíteto de referências. Em termos nacionais já referi alguns nomes há pouco. Tenho gostado muito de ouvir Sabre, o Ludovic e o Lukkas (Umbra), o Manel Calapez, o Trikk, o IVVVO…

Quase a terminar, melhor concerto que já viste até hoje e aquele disco que está na poltrona do rei para sempre?
O melhor concerto que já vi em formato banda foi LCD Soundsystem, em 2007. Foi uma experiência transcendente. No formato live, a primeira vez que os Extrawelt vieram a Coimbra ficou-me gravada na memória para sempre. Foi tudo incrível. A dinâmica do duo, a maquinaria, a música, o público… Quanto ao disco, vou fazer batota novamente e apontar dois. O Rest (2000) do Isolée, pela sua intemporalidade e por ser um dos discos que mais rodou no meu hi-fi e o álbum homónimo de Efdemin (2007), porque é absolutamente perfeito e anda, há seis anos, na minha mala de discos.

Qual o teu prato favorito?
Ui! Como é que se responde só com um prato a esta pergunta? É impossível! Ainda no outro dia comentava que não percebia como é que alguém pode dizer que tem (apenas) um filme, um disco ou uma música favorita. O mesmo se aplica à comida. Ainda para mais, quem me conhece sabe que eu sou um lambão de primeira, que adora comer. Olha, agora posso dizer cabrito no forno, com batatas e grelos. Mas amanhã é capaz de me apetecer bacalhau assado com batatas a murro. Já está. Um prato de carne e um prato de peixe.

(risos!) Pensava que ias dizer Technics MK5 1200 ou Rega RP6/Exact (risos!) Para terminar a entrevista, aquela “outra” pergunta clássica: Qual é o plano de André Tejo para Anders Blickmann? Que futuro prevês para esta tua personagem musical?
Estou em conversações com algumas editoras para editar umas quantas produções que mantive na gaveta durante bastante tempo. Espero ter novidades para breve. Como sou um péssimo agente de mim próprio, não faço ideia do que me irá acontecer num futuro próximo, mas espero continuar a produzir e a passar música um pouco por todo o país. Até ao fim do ano irão sair três remisturas minhas para o Élansson, um amigo chileno que vai editar uma compilação de covers, reworks e remixes para o Articulata, o seu mais recente álbum. Também gostaria muito de editar um par de maxis em breve e tenho um álbum prontinho a editar, sob o disfarce de Latin People With Breathing Problems. Vamos lá ver se conseguimos fazer chegar este(s) barco(s) a bom porto…

https://soundcloud.com/andersblickmann

Entrevista de Bruno Pedro Simões
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 7 de Novembro de 2013)