• Photobucket

Home / Artes / Smell of Tiger and Things Still To Come

Smell of Tiger and Things Still To Come

BPI_2929

Está patente, no Centro de Artes Visuais (CAV) de Coimbra, a mostra Smell of Tiger and Things Still to Come, comissariada por Albano Silva Pereira. Esta exposição é, na realidade, a reunião de algumas obras dos projectos mais amplos de André Príncipe «Smell of Tiger precedes Tiger», e de José Pedro Cortes «Things Here and Things Still to Come», publicados ambos pela editora que estes dois fotógrafos criaram e detêm, a Pierre von Kleist Editions.

A mostra não está legendada e, por esse motivo, as imagens de um e de outro autor confundem-se, a menos que conheçamos as obras de cada um deles. Esta ausência de legendas e de orientação de leitura prende-se com a intenção da exposição, que ultrapassa a identificação dos seus autores, intentando dar a conhecer o motivo da viagem, enquanto força narrativa e interior, registada no diário visual que assim se expressa, através das escolhas feitas para integrar esta apresentação.

As viagens dos autores confundem-se, nesta exposição combinatória, embora uma trace os caminhos entre Lisboa e Tóquio (André Príncipe) e a outra retrate a vida de quatro jovens judias norte-americanas que viajaram para Tel Aviv no âmbito do cumprimento do serviço militar (José Pedro Cortes) e que por lá ficaram, deixando-se fotografar.

 BPI_2934

No primeiro caso («Smell of Tiger …»), a exibição fotográfica vive da fuga. Trata-se de um conjunto que representa a evasão, mas também o encontro com personagens, com lugares, com cenários e momentos que cruzam e enformam um livro de trajectos que o autor faz por dentro.

As imagens seleccionadas de André Príncipe fazem parte de um grupo maior que o autor caracteriza como o registo de uma viagem iniciática, viagem que o autor oferece à leitura, propondo ao leitor a percepção de um conjunto de emoções que ultrapassa a visualidade para integrar-se num horizonte mais secreto: o do próprio autor que se confessa psicanaliticamente como uma entidade inquiridora, inquieta, solitária e que ambiciona experienciar como forma primeira de conhecer o mundo, e que ambiciona o encontro, como forma de reconhecer-se no mundo.

BPI_2963

A peça que retrata a jovem mulher em grande plano e a três quartos de rosto, aquele retrato que nos olha nos olhos de forma despudorada, densamente maquilhada e desbotada da cor que lhe escorre no rosto, como que se chorasse, aquele olhar de jovem mulher que da vida já sabe o que lhe vale um semblante de solidão, ainda que firme no olhar que esmaga, esta mulher que enveste um boneco de criança que amarra no topo da cabeça, e que nos diz ser  ainda menina, mas que nos afronta como quem já viu a idade, é uma obra que destacamos deste conjunto de palavras que, embora ausentes, se nos apresentam interiormente.

As fotografias escolhidas de José Pedro Cortes («…Things Still to Come…») revelam outra expedição, feita durante os nove meses em que o autor esteve em Tel Aviv. Durante esse tempo de residência, José Pedro Cortes foi construindo a história que se expõe no livro que deu legenda à exposição, feita de figuras e de fundos, ou apenas dos fundos que dão vida a momentos que se fixam através de uma câmara que os capta e eterniza.

BPI_2946

Este conjunto de fotografias também nos diz do tempo presente e o tempo que passou, marcando-se nos objectos e nos espaços que se detêm, ou que se deixaram, através da vida de quatro jovens judias de origem norte americana nas ruas de Tel Aviv e na intimidade das suas casas. São imagens cheias de corpos contra seus panos de fundo, de olhares que penetram, de desencantos, de vida crua e sem maquilhagem, e são também imagens de marginalizações, de espaços que se perderam nos dias, de arestas de rua e costas de casas que se abatem com o tempo, cedendo-se ao tempo, como cede o ser humano.

Deste conjunto de vidas e de lugares por onde a vida ainda se derrama destacamos aquela imagem, muito pictórica, que fixa uma traseira de casario, olhada rente ao chão de onde nasce um verde que nos explode à observação, e que cruza a existência mundana através de um único ponto: a fiada mínima de roupa que se pendura no estendal, secando. O espaço não foi totalmente invadido pela natureza porque ainda há quem ali viva, misturando-se com o silêncio que a fotografia nos transmite.

O projecto fotográfico combinatório Smell of Tiger and Things Still to Come diz-nos, justamente, dos caminhos que estes dois fotógrafos fizeram, e anunciam os que a partir daqui certamente farão.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 24 de Outubro de 2013)