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Ruze, Soldado Zeru

BPI_3746MC Ruze, figura central da cena hip-hop coimbrã. Com uma história que remonta a meados dos anos 90, o líder dos movimentos 239 ou Sbt2 tem em “1440 Minuto a Minuto” um disco que “retrata um pouco da sua vida, apelando simultaneamente às pessoas para aproveitarem o dia ao máximo”. Gravado no estúdio da Konpasso, este é por enquanto o seu único álbum, constantemente marcado pelo humor e pela crítica. “1440 Minuto a Minuto” é a primeira edição da nova editora Mizikon Records.

Mc Ruze é o mano! Humano verdadeiro, criador do movimento 239, expressão máxima do hip-hop em Coimbra. A Preguiça esteve à conversa com Ruze, Rui de nome católico, animista da batida, senhor da guerra, convertido às palavras. Entre roupas largas, mansões de 7 quartas, grutas e piscinas que não existem, tudo em Ruze é real. Sem mais palavras, aqui ficam as palavras, brutas, como quem as quer comprar.

Para começar, consideras-te a referência maior do hip-hop de Coimbra e da Região Centro?
Não me considero a maior referência do Hip Hop da zona Centro, apenas resisti a um tempo em que ainda era mais difícil ser músico ou compositor. Muito mais difícil foi explicar o que era rap e fazer acreditar as pessoas que era isto que queria para a minha vida. Fui persistente e hoje ainda continuo activo e com vontade de continuar a evoluir naquilo que mais gosto de fazer. Será que isso faz de mim uma referência?

E o porquê do Mc Ruze não ter expressão a nível nacional? Parece que existe uma rivalidade nada saudável, uma competição desenfreada dentro do hip-hop nacional. Certo? Qual é a razão deste domínio das bandas e MC’s de Lisboa e Porto?
Não concordo muito com essa ideia da rivalidade que parece haver a nível nacional. Acho que há “grupos” de grupos e MC’s que vão fazendo as coisas na sua zona e isso é normal. Mesmo nas cidades grandes há grupos rivais, isso faz parte. Agora, fico chateado quando vejo sempre os mesmos nos mesmos sítios. Não me vou queixar  se não me convidam para ir ao “sítio da moda” fazer o meu concerto, até porque tenho a certeza que eles é que perdem um bom momento de entretenimento.

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Como nasce o movimento 239? Quem são as pessoas envolvidas e qual a ideia original do movimento?
Um dia num café, estávamos alguns amigos a falar sobre um nome para uma “crew” (devia ser para o estilo). Na altura era fixe ter um nome fixe. Um dos rapazes disse “239 movimento” (o indicativo telefónico regional de Coimbra) e assim ficou. O Bomberline, o Sassi, o dj Ls (a trabalhar com Mac nos dias de hoje) foram os que participaram e estiveram mais activos. Fizemos concertos, mix tapes, grafittis e também fizemos coisas menos boas, mas aprendemos com cada uma delas. Construímos um movimento em cima da amizade que existia entre nós e acima de tudo ligado à música, à dança, à pintura, que era o que nos movia. E ainda hoje continua a  mover o MOVIMENTO239!

As tuas letras são muito terra-a-terra, muito pessoais. É assim que vês o hip-hop, ou seja, tem de ser real? Ou há lugar para as piscinas e os carros e todo o universo machista e muitas vezes fútil que o hip-hop invoca?
Eu não sou de blá blá blá e não tenho tempo para brincar aos rapper´s. Para quem grava no microfone do computador em casa, tenho uma coisa a dizer: meus amigos isso é muito giro, mas alguns de vocês (e devido à facilidade das coisas) só dizem merda. O tempo de estúdio é caro, a mistura é cara e a masterização nem se fala. Sou real comigo próprio. Em relação aos carros e piscinas, gostava muito de também ter, mas tenho contas para pagar e o resto é para o estúdio, para ter qualidade no meu trabalho.

Pegando neste ultimo ponto, como analisas toda a exploração da mulher no universo do hip-hop (e na indústria da música em geral): os vídeos e as letras de grandes rappers mundiais que instrumentalizam totalmente as mulheres?
Acho que as mulheres se devem dar ao respeito.

E qual é o teu universo? Quais as preocupações do Mc Ruze com as palavras, o que queres transmitir a quem te ouve?
Eu vivo num sítio bem pacato. Quando há assaltos são a máquinas de tabaco. O que escrevo é o reflexo do meu dia-a-dia a 100%. Não tenho a vida facilitada mas não me falta comida na mesa, nem educação ao meu filho. Sou feliz desta maneira e o que me preocupa é a máscara que as pessoas são obrigadas a usar no seu dia-a-dia, é ver as pessoas chateadas com o mundo, é olhar em volta e ver o negro do dia-a-dia das pessoas. Quero fazê-las entender, com a minha música, que ser feliz não é nada difícil. Uma fábrica obriga-te a precisar do que ela vende, não vivas assim. Esquece essas coisas lindas que dão nos spots publicitários. Se o carro do teu vizinho é melhor que o teu e tu queres um melhor, não invejes o homem, trabalha mais e compra um. Não passes a vida a reclamar da vida. Eu não uso máscara nem na rua, nem no estúdio, nem no palco. E nunca verás um sorriso meu forçado.

Tens preocupações a nível social? Em 2010 fizeste o projecto “União vs. Exclusão”. Fala-nos um pouco desse projecto e se tens planos de novas intervenções sociais?
Fui crescendo com miúdos que não tinham família ou, os que tinham, não queriam saber dos filhos. Fui crescendo e experienciando outras realidades e isso acompanha-me até hoje. Não consigo ficar indiferente. O projecto “União vs Exclusão” foi pensado e direcionado aos miúdos do Bairro da Rosa e do Bairro do Ingote com a intenção de “quebrar o muro”, que ainda não deixou de existir, entre o bairro e a cidade. Em breve estarei com o meu soldado Cosmos a participar num evento em que se vão dar alimentos às famílias mais carenciadas. Em breve vão saber mais coisas em relação a este assunto.

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O teu último disco enquanto Mc Ruze é de 2007 – “1440, Minuto a Minuto”. Sabemos que estás em estúdio com trabalho novo na calha. Porquê tanto tempo entre discos?
Após o “1440” ter sido editado, foram feitos os respectivos concertos. Produzi o EP “União vs. Exclusão” em que convidei alguns músicos que me foram acompanhando ao longo do percurso e criámos umas músicas. Promovemos o álbum em Fnacs e pelo nosso Portugal. Fui convidado também pela Zed Filmes para fazer algumas músicas para curtas-metragens ou filmes. Fiz pequenos showcases em escolas, para partilhar um pouco o meu trabalho e para mostrar que toda a gente é capaz de fazer acontecer. Não houve nenhuma razão em especial, aconteceu assim.

E podes falar-nos um pouco deste novo trabalho que irá sair para o ano? Quais as novidades que já podes desvendar? Nome do disco, pessoas envolvidas e colaborações, sonoridade…
O projeto em que estou envolvido neste momento chama-se “CMD” e é constituído por mim, pelo Somatico (produtor e Mc) e pelo Francisco (produtor e dj). Eu e o Somatico começámos por trabalhar num projecto que não teve pernas para andar e depois começámos a criar (há mais de um ano) as músicas que poderão ter oportunidade de ouvir em breve. “Sonho e Realidade” vai estar recheado de músicas bonitas e muito amor depositado em todo o trabalho desenvolvido. Estamos na última fase e esperamos editar ainda este ano.

Quais os projectos dentro do hip-hop português que mais admiras e porquê?
Ouço regularmente projectos novos que vão saindo. Gosto de saber o que se vai fazendo. Há grupos e MC´s mesmo bons, há outros menos bons e há aqueles que nem sabem quem foi o General D mas acham que sabem tudo sobre o hip-hop. Não gosto de falar em nomes, mas há muito bons trabalhos por aí.

Dia 29 de Novembro vai acontecer o JUVENTUDE FALA FEST. Sabemos que és um dos organizadores. Que acontecimento é este? O que é que podemos esperar/encontrar neste festival?
JUVENTUDE FALA FEST será a festa do ano! (risos). Apenas pensei que podíamos juntar esforços e fazer um evento dedicado aos jovens dos 8 aos 80 anos. É isso que está a acontecer e mais uma vez agradeço a quem tem apoiado este projecto. Visitem e apoiem: https://www.facebook.com/juventudefalafest?fref=ts

Quase a terminar, vamos da-ter 5 nomes (bandas ou artistas) e queremos que nos dês um breve comentário sobre cada um.
Kanye West: Óptimo produtor.
Public Enemy: Ontem, hoje e amanhã.
Dead Kennedys: Não é a minha cena, mas respeito imenso.
Erykah Badu: Uma das melhores vozes femininas do Universo.
Tyler, The Creator: Não conheço. Vou pesquisar na net.

Que projectos novos e com pouca projecção gostarias de destacar, em Coimbra e a nível nacional também?
“Resistência”, “Belarmino” e mais alguns de Coimbra que vão ter oportunidade de ouvir em breve com mais atenção. Gostava de poder ter um estúdio e tempo para ajudar novos talentos do rap conimbricense. Quem sabe um dia…

Se pudesses mudar uma, e apenas uma coisa na cidade de Coimbra, o que mudarias?
Gostava que os governantes desta cidade dessem mais atenção à juventude. Só com ideias novas e criativas é que esta cidade avança.

Entrevista de Bruno Pedro Simões
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 31 de Outubro de 2013)