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In a small town

A única coisa útil numa cidade pequena, é que sabes que a odeias e que tens de deixá-la. Assim o disseram Lou Reed e John Cale em “Smalltown”, música que em 2003 o primeiro haveria de cantar por muitas e muitas pequenas cidades pelo mundo fora durante a NYC Man Tour. Com toda uma carreira feita à base de 3 acordes e (como na maior parte das coisas da vida) um pequeno salto no fim, a vida de Lou Reed deu há 3 dias também este pequeno salto, desta vez para chegar mesmo ao final da música. Porque a memória nos interessa enquanto exercício e registo informativo, recordamos hoje o concerto de Lou Reed no Jardim da Sereia, a 5 de Julho de 2003.

Nessa noite quente de Verão, Lewis Allan “Lou” Reed juntou cerca de 3.000 pessoas num jardim de uma “Smalltown” (e talvez outras tantas na Praça da República…) para quem tocou velhos êxitos e novos temas, ajudado em palco por, entre outros, Antony Hegarty dos Antony and the Johnsons e pelo seu professor particular de tai-chi, Ren Guangyi. Pedimos a quem lá esteve que nos contasse como foi, e aqui ficam alguns testemunhos dessa noite memorável. A setlist foi esta e podem ouvir uma gravação completa do concerto em Los Angeles aqui.

Ricardo Jerónimo (Birds are Indie)
“Estava cheio, e lembro-me que foi na tour do The Raven. É um disco conceptual baseado em poemas do Poe e que por essa mistura entre poesia e música, num resultado bastante negro, nos agradou bastante. Além disso tocou uma série de clássicos seus e dos Velvet (Candy Says, Perfect Day, Sweet Jane, …). Antes de tocar esta última explicou até que a música tinha não 3 acordes, mas 5. Achei aquilo precioso. Um humor áspero, uma postura contida mas desafiante. À Reed. É um tipo duro, fechado, ácido. Também teria a sua doçura, certamente. Também me lembro do Antony, claro, na altura um quase desconhecido e que apareceu ali um bocado como uma carta fora do baralho, uma personagem, sentado num cadeirão. E aquela voz… “O que é aquilo?” perguntava-se… Foi um concerto algo teatral, pela própria matriz literária do álbum. Os Velvet são uma das nossas bandas de eleição (um pouco mais eu do que a Joana, ainda assim) e foi um prazer ver, em concerto, o seu principal mentor… Quando soube da morte dele veio-me logo à cabeça foi uma coisa muito simples e que o ouvi tantas vezes dizer/cantar, de uma maneira ou de outra, nas suas canções: “It’s all right”.“

Nuno Ávila (Santos da Casa, RUC e dono do bilhete publicado)
“Foi um concerto cheio de emoções. O Lou Reed era um artista que eu já admirava desde os tempos dos Velvet Underground. Depois o espaço do nosso Jardim da Sereia foi mágnifico para acolher o talento do artista. E a cereja no topo do bolo foi a participação do Antony (dos Antony and the Johnsons). Ouvir na minha cidade, um artista deste calibre a tocar canções como Perfect Day, deixa qualquer um emocionado. E de facto aquele foi um dia perfeito.”

Bruno Pedro Simões (Preguiça Magazine Coimbra)
“Em 2003, no tão falado concerto duplo de Lou Reed no Jardim da Sereia, eu e o meu amigo Liminha, sem dinheiro como era hábito, saltámos o muro junto à Biblioteca Municipal. Caímos num monte de lixo e começámos a caminhar em direcção à vedação improvisada que vedava o recinto. Chegados ali ensaiávamos a melhor maneira de passar para o outro lado quando dois cães gigantes começam a ladrar e a correr na nossa direcção. Num rasgo de sobrevivência um de nós mete a mão por baixo da rede e passamos os dois, de costas tipo rangers do choupal, para o lado de lá. Sacudidos daquele susto encaminhámo-nos para o recinto, quando para nosso espanto nos apercebemos que estávamos no backstage. Ficámos um pouco baralhados a tentar sair dali quando fomos interpelados por um segurança. O Liminha, na sua característica destreza oral, disse ao segurança que éramos da Rádio Universidade de Coimbra e tínhamos ido ali entrevistar o Lou Reed. O segurança, meio desconfiado, lá nos encaminhou para o recinto, ficando nós sentados mesmo em frente ao palco, a olhar para aquela barriga metida numa t-shirt preta, olhos e ouvidos vidrados pela magia de muita da nossa infância estar a desfilar à nossa frente. Hoje, cito o senhor com mau feitio e arrogância enervante: “Acho que a vida é muito curta para nos concentramos no passado. Prefiro olhar para o futuro.” Lou Reed

Francisco Amaral (ESEC TV)
“Lembro-me de estar uma noite muito quente. Do jogo da pela, no Jardim da Sereia, estar cheio de gente de várias gerações. O Lou Reed passou por diversos temas da sua carreira e julgo que era disso que o público estava à espera. Fixei bem o “Sweet Jane”, porque estava a acompanhar as primeiras reportagens da ESEC TV, que dirijo, e fomos autorizados a gravar esse tema. Lou Reed veio acompanhado de um mestre em Artes Marciais, que aliás esteve em palco. Na época, aparentemente, Lou acreditava nesse tipo de exercício. Actuou de t-shirt escura, como aliás quase toda a banda de acompanhamento. Era o início do tour europeu e de Coimbra foram para o Mónaco, se bem me lembro. Havia dois gigantescos camiões negros que faziam o suporte do concerto e que estavam parados do lado da Rua Lourenço Almeida Azevedo. Lou Reed cumpriu o que se esperava, com grande profissionalismo, e sem postura alguma de vedeta, que era, um dos grande nomes da música popular desde os anos 60 do século XX.”

Ricardo Matos
“O concerto calhou no meu dia de anos. Foi em 2003, por isso estava a fazer 28 anos. Pelo bilhete reparei que foi no dia 5. Eu faço anos no dia 3… mas devo ter feito a comemoração no Sábado seguinte. Nada melhor para comemorar. Antes do concerto, um jantar com a família. Lá fomos, à Taberna. No bolso, os bilhetes para o concerto que se seguia. O restaurante não era muito grande. Na mesa ao nosso lado estava um pequeno grupo (se não me engano, o único). Quando nos apercebemos que era o Lou fiquei entusiasmado. Afinal estava a jantar com um Senhor do Rock, logo no meu dia de anos. Sou tímido e muito menos dado a molestar estrelas em busca de um rabisco. Mas naquela altura, apesar de muita hesitação, não resistir a abordá-lo e pedir-lhe um autógrafo no bilhete. Ele foi simpático e acedeu sem problemas, embora naturalmente reservado. Depois disso, o concerto foi memorável… no cenário natural do Jardim da Sereia, embora reconheça que merecesse melhores condições.”

Maria João Guerreiro
“Foi de facto um privilégio. O concerto foi intimista, o Jardim não estava cheio e o Lou……. estava de forma simples e sóbria a dar-nos um pouco de si. Despretensioso. Não conhecia o Antony por quem me apaixonei de imediato. O concerto nesse dia foi sóbrio, muito bonito, simples e sofisticado. Esteticamente muito bem pensado para mostrar outra coisa que não aquilo que teriam sido outrora os seus tempos de Wild Rocker com os Velvet e amigos. Um homem maduro de guitarra ao ombro que se apresenta acompanhado à esquerda de um anjo branco com voz de eunuco a entoar consigo algumas das canções de forma a torná-las ainda mais doces e melancólicas, e à direita de um mestre de tai-chi a confirmar que a turbulência do rock&roll teria dado origem a algo mais eterno, mas sóbrio onde o equilíbrio impera. Lou Reed passou o concerto todo com a guitarra ao peito. Estes dois elementos alternavam a sua presença em palco conforme se impunha. Fui gostando mais e mais daquelas versões que nos trazia um Lou Reed agora adulto. Sério e sóbrio. Terminei o concerto completa. Verdadeiramente preenchida e agradecida. Ele tinha de facto conseguido transformar em equilíbrio e harmonia aquilo que outrora nunca encontrei na irreverencia com que ouvia os Velvet Underground e a vida excêntrica que imaginava terem levado. O homem é um monstro! (lembro-me de suspirar)  E lembro-me de ter sorrido quando só no final do concerto ele retira a guitarra da sua frente e, (ao contrário do resto do seu corpo que aparentava uma excelente forma física) apresenta uma barriga descomunal.  Durante um segundo pensei: Mas… O homem está grávido?… Sorri e logo abandonei este pensamento para continuar a levitar sobre o que ali se tinha passado.”

Nuno Freitas, médico e o organizador do concerto recorda-o como “um homem simples e humilde”, que gostou muito de “passear livremente pela cidade” e que tentou comprar uma máquina fotográfica para fotografar a cidade. A fotografia, uma das suas grandes paixões, partilhou–a pessoalmente durante muitos anos com Albano da Silva Pereira, Director do Centro de Artes Visuais de Coimbra, que assim lhe prestou homenagem:

“………Soube às 3…um telefonema de um amigo comum!…”How nice is to disappear…Vanishing Act”…A ultima vez que estive com ele…teve a gentileza de me convidar para jantar com amigos…onde declamou Allan Poe…(uma das últimas paixões…) Quando me encontrou…olhou-me…e provocador…but sweet…disse: “Hi…baby!…Não falava muito!…Gentil…e agressivo…não perdia tempo com “supercialidades”…a não ser com as luzes da noite de NY…e,com as amêijoas com spaghetti! Era monstruosamente “humano” e sonhador! Um performer do Rock e da Vida…dele!…A meio do concerto de Olbia…quando o filmava…parou por um segundo…olhou para mim…e,disse:”Cut”…Um “MONSTRO” da VERDADE…e da POESIA!…da CRIAÇÃO…e,da LIBERDADE…choro lágrimas de prazer… Abraco,amigo!”

3 acordes (Ré – Lá – Sol), com um pequeno salto no fim.

Texto de Bruno Pires

(Publicado a 31 de Outubro de 2013)