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Amestrados, mas pouco

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A animação e a comédia estão a bordo. Foi isso mesmo o que aconteceu ao conversarmos com Carlos Correia e Rafael Pinto, criadores e dinamizadores do estúdio Mula Russa. Vamos então tentar falar a sério sobre este projecto.

O início foi simples e não podia ter corrido de forma mais natural. “Tirámos o curso de design juntos (na Universidade de Aveiro) e um dia tivemos de fazer a apresentação de um trabalho e não queríamos ser nós a fazê-la. Decidimos criar uns desenhos animados para fazerem a apresentação por nós. Correu muito bem e foi aí que descobrimos que poderíamos fazer qualquer coisa nessa área”, explicaram-nos com verdadeiro ar de cumplicidade. “Somos muito amigos e sempre tivemos uma dinâmica excelente em termos de ideias”, acrescenta Carlos.

Após concluírem o curso, cada um seguiu o seu caminho, “mas sempre com a ideia de fazermos alguma coisa em desenhos animados”. E algures depois no tempo, a vida proporcionou-lhes a concretização dessa ideia. “A certa altura, estávamos os dois desempregados e pensámos que era o momento ideal para tentar”, relembram. Tentaram e nasceu assim o estúdio Mula Russa. “É uma iniciativa maior com o objectivo de fazer desenhos animados. Somos nós os dois e algumas pessoas com quem colaboramos”. De onde vem o nome não sabemos muito bem, mas Rafael fez questão de sublinhar: “é um nome muito sugestivo, estou orgulhoso”.

O trabalho começou e com ele algumas dificuldades ‘existenciais’ se desenharam também. “Fazer desenhos animados implica fazer tantas coisas que nem sequer sabíamos exactamente por onde começar”. Mas um raio de inspiração atingiu-os e “tivemos a ideia de pegar em conversas de outras pessoas e animar essas conversas. Foi daí que nasceu a ‘Mesa 3’”.

“Mesa 3” é então o primeiro projecto de desenhos animados criados por Carlos e Rafael. Episódios curtos, em que três mulheres ou três homens, sentados numa mesa com cafés e cervejas, falam sobre sexo. “O estilo da ‘Mesa 3’ é parecido com um que já conhecíamos que é o Ricky Gervais Show. Um podcast que era tão bom que depois foi aproveitado pela televisão em formato animado. Achámos que era um formato capaz de funcionar para o que queríamos fazer, visto que não sabíamos nem escrever, nem interpretar. E pensámos que o tema sexo podia ser algo interessante”.

O passo seguinte foi encontrar pessoas que quisessem conversar sobre sexo. “Fomos à procura de pessoas para gravar conversas. Chegámos a colocar o microfone à frente das pessoas e a dizer para falarem sobre sexo como entendessem. Mas muitas conversas não ficaram como queríamos”, conta detalhadamente Carlos. O desânimo não tomou conta destes dois amigos e a busca do elo perdido continuou. “Finalmente encontrámos três raparigas muito animadas aqui de Coimbra e que alinharam logo. As gravações correram muito bem e gravámos horas de conversa”. De seguida, e como “o processo de animação que seguimos é desenhar primeiro e animar depois”, editaram as gravações, começaram a criar os bonecos para elas (avatares, chamaram-lhes) e depois animaram-nos. No entanto, a certeza de que iria resultar não estava conquistada ainda. “Como era uma experiência nova, não acreditámos até ver os primeiros resultados”, adianta Rafael, mas agora já confiante. “Depois do Rafael ter animado os primeiros oito segundos, percebemos que até poderia sair dali qualquer coisa de engraçado”, diz Carlos. O mesmo processo aconteceu com os três rapazes protagonistas desta saga.

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Na ‘Mesa 3’, “existe um discurso muito próprio. Ao contrário da maioria dos desenhos animados normais, em que a acção está toda escrita e segmentada, aqui não. As pessoas têm inseguranças a falar, interrompem-se, falam umas por cima das outras e nós gostamos disso. Temos uma conversa improvisada que depois reescrevemos visualmente, através da animação. E podemos fazer interpretações mais literais ou mais metafóricas do que se está a passar”, explica Rafael.

O entusiasmo estava definitivamente instalado e surgiu a vontade de animar qualquer coisa em que também escrevessem e interpretassem. “Amestrados” é o resultado dessa vontade. “Os ‘Amestrados’ é a experiência de querer não só animar, como também escrever e interpretar. E nós interpretamos melhor que todas as pessoas que interpretam pior que nós”, diz Rafael com seriedade no rosto. “Sempre tivemos uma boa dinâmica a nível criativo. Brincamos com um tema e levamo-lo ao absurdo. As personagens dos ‘Amestrados’ nasceram um pouco para isso também, brincar com os temas e os discursos do quotidiano”.

Os ‘Amestrados’ são personagens de um circo que foi encerrado pela ASAE e que têm de entrar novamente no mercado de trabalho, sem saberem nada de nada, pois “trabalharam toda a vida com um conjunto muito específico de competências”. Um dos personagens é o Grande. Iilusionista e chico esperto, aquele que acha que sabe tudo e que no último momento tira todos os coelhos da cartola. Outra personagem é a Barbosa. Uma mulher barbuda, mas que na realidade é um transsexual. Muita feminina por dentro, muito certinha e organizada, é quem traz as outras personagens à realidade. E porque não há dois sem três, podemos acompanhar também o Coiso, porque ninguém sabe o nome dele. Fazia de tudo no circo, desde limpar os dejectos dos animais, a montar a tenda e a mudar as lâmpadas. O sonho dele era um dia ter o seu próprio número de circo. Existem também personagens secundárias e novas surgirão, mas não vale a pena estragar aqui as surpresas.

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Feitas as apresentações, resta dizer quanto ao projecto ‘Amestrados’ que este é uma “sátira à sociedade em que vivemos. Ao nosso mercado de trabalho, aos contratos precários e à situação dos freelancers”, explicam.

A inspiração destes dois artistas vem dos diversos desenhos animados que ambos consomem, com certeza, mas vem também “de coisas muito pequenas que vamos captando diariamente”. E para brincar com a triste realidade que por vezes nos rodeia, “é preciso criar um distanciamento emocional”, admitem.

Esta dupla criativa vai continuar. Os ‘Amestrados’ estão em curso e a ‘Mesa 3’ em vias de voltar. “Há muita gente a querer ouvir as miúdas e já temos muito material incriminatório para mostrar”. Quanto a novos projectos, ficou claro “que tudo aquilo que fazemos é em primeiro lugar para nós e depois para as outras pessoas. Estamos preocupados em fazer coisas boas e com piada. Como ninguém nos está a pedir nada e não sentimos que devemos alguma coisa a alguém, se começarmos a entediar-nos com uma animação, partimos para outra”. Portanto, está tudo em aberto para já.

Após algumas gargalhadas partilhadas, agradecemos ao Carlos e ao Rafael o auto-retrato que criaram exclusivamente para a Preguiça. Sabendo que rir é o melhor remédio, a Mula Russa dá uma ajuda em tempos difíceis como este.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 24 de Outubro de 2013)