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Um dia de sonhos

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O TEDxCoimbra veio para ficar. Acontece desde 2010 e no conjunto de todas as iniciativas desenvolvidas, contam-se já 38 eventos, 134 oradores e cerca de 3000 participantes. Este ano, irá realizar-se no próximo dia 19 de Outubro no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV). Ana Dinis e Frederico Dinis são dois dos seus organizadores e explicaram-nos tudo o que se passa nos bastidores.

Para os menos atentos, começamos por explicar o que é um evento TED. “O conceito é americano e apareceu em meados da década de 80 em Long Beach, Califórnia. O TED é um modelo de conferência, que pretende ser um espaço de partilha capaz de mudar o mundo e a sociedade actual. Os oradores são convidados a falar um pouco sobre as suas experiências profissionais e pessoais da forma que entenderem”, refere Frederico. “No entanto, eu olho mais para a capacidade de cada um dos participantes mudar o seu microcosmos. Captar a informação transmitida e depois processá-la e resolver fazer o que quiser com ela”, acrescenta. “TED quer dizer tecnologia, entretenimento e design. São os três pilares que o TED considera importantes e tentamos sempre que exista essa ligação. E, ao contrário do que se possa pensar, andam os três de mão dada”, diz Ana.

No ano de 2009 surgiu a possibilidade de qualquer pessoa, a nível mundial, obter uma licença e poder organizar um TEDx. “O ‘x’ quer dizer independentemente organizado. Ou seja, uma comunidade local que se organiza e tem a responsabilidade de, utilizando as mesmas regras e o mesmo modelo, implementar o TED de uma forma independente à casa mãe americana”. Como seria de esperar, a partir de 2010 deu-se um boom de TEDx a nível mundial e “nesta altura, estamos a falar de perto de 400/500 TEDx mensais a acontecer em todo o mundo”, informa Frederico. Para além do que os participantes levam consigo interiormente, o resultado dos TED são as ‘ted talks’ que depois são disponibilizadas gratuitamente online no canal TED do youtube, “onde qualquer pessoa pode aceder e ouvir o que quiser”.

Segundo estes dois dinamizadores, “o que oferecemos em Coimbra é um espaço de partilha, onde as pessoas convidadas contam a sua história na primeira pessoa. Têm um palco, um microfone e 18 minutos para partilharem essa história e inspirarem a plateia”.

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A ideia de seguirem por este caminho, nem sempre fácil, de organizar um TEDx surgiu numa conversa entre amigos. Ao todo, são quinze pessoas que de uma forma ou de outra estão ligadas à organização do evento. “Todos estávamos ligados às áreas de gestão e todos víamos as ‘ted talks’ mais conhecidas. Em 2009 surgiu a oportunidade, solicitámos a licença e a partir de 2010 começámos a trabalhar”. Em 2010 o TEDx realizou-se no Pólo III da Universidade de Coimbra, em 2011 no Conservatório de Música e em 2012 no TAGV. “Costumamos dizer que 2010 foi o ano -1. Como foi a primeira experiência a nível organizativo e não tínhamos consciência do trabalho que dá, foi uma grande experiência. Em quatro meses tivemos que montar o evento”, desabafa Frederico quase a transpirar com a lembrança. “Aquilo que é preciso ter para organizar um evento destes é acima de tudo muita força de vontade e acreditar que o que vamos fazer vai fazer alguma diferença. Essa é a grande nota do TEDxCoimbra. Depois, é a união das pessoas e dos amigos que constituem a equipa que faz continuar de ano para ano”, diz Ana quase emocionada.

Cabe aqui referir que existem diferentes eventos TEDxCoimbra. Existem os eventos anuais e os salon, ou tertúlias em português. Os anuais contam com vinte oradores, com 18 minutos cada um para exporem as suas ideias sobre um grande tema geral e o público não pode intervir nem colocar questões na sala. As tertúlias são mais intimistas e seguem o modelo de conferência formal. Têm quatro oradores que falam de um tema específico e o público pode fazer perguntas. “Em 2010 e 2011 só organizámos o evento anual e em 2012 para além do anual, organizámos uma tertúlia todos os meses em espaços como a FNAC, a livraria Almedina e a Galeria Santa Clara. Este ano, também houve tertúlias mas só no primeiro semestre”.

A gestão do tempo é algo essencial para que tudo corra bem. “Costumamos fechar o evento anual em Novembro e em Dezembro já estamos a trabalhar para o ano seguinte. A primeira parte do tempo é gasta a escolher o painel de oradores e performers, que fechamos em Junho, e depois o resto é para gerir as questões logísticas e de divulgação”.

A escolha dos oradores é feita pela equipa de organizadores e passa por escolher entre pessoas conhecidas e mediáticas e autênticos desconhecidos. Qualquer pessoa pode ser orador, pois o que interessa mesmo é ter uma boa história para contar. “Tentamos ter perfis completamente diferentes, em termos de percurso e de áreas de actividade. Não é tanto a pessoa que interessa, mas a mensagem que está a ser passada. Todos são tratados da mesma maneira”, explica Federico. “O TED tem sucesso se os oradores forem bons. E a escolha é nossa, para o bem e para o mal. Apesar dos oradores terem a responsabilidade do resultado final e não podermos fazer mais nada senão criar as condições para que façam um bom trabalho, a escolha é sempre nossa. E às vezes podemos não acertar”, admite Ana. A escolha de oradores desconhecidos surge de diferentes formas, mas normalmente é por um mero impulso de momento. Muitos nomes surgem de coisas inesperadas: reportagens na televisão, posts de blogues ou conversas de café. “Há quem brinque connosco e diga que somos caçadores de talentos”, brinca Ana também. “O espírito TEDx está em todo o lado”, acrescenta Frederico.

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Os temas de cada TEDx obedecem à mesma lógica. A escolha é feita de forma aleatória, muitas vezes em resposta a qualquer fonte de inspiração momentânea. “Os motes são escolhidos de forma abrangente, em que possamos reunir o máximo de heterogeneidade possível nas intervenções”. Este ano o mote é “pelo sonho é que vamos”.

Como espaço de partilha que é, no TEDx existem vários coffee breaks e um almoço prolongados, em que as pessoas podem, e devem, dirigir-se aos oradores e colocar questões. “O almoço é distribuído num saquinho e assim as pessoas podem ir para onde quiserem e falarem com quem quiserem. O espírito é esse”.

Importa referir que o TEDx não se esgota nos oradores. “O TED é também a parte de performance musical ou artística que existe entre os painéis. Aí, olhamos para os projectos que a região tem, que estão a começar e que têm um futuro promissor”. E quando perguntamos o que a região de Coimbra tem a ganhar com um evento destes, a resposta não podia ser mais clara. “O que queremos trazer para a cidade é mais uma referência. Há uma coisa que me incomoda muito que é sentir que esta cidade é catalogada como a cidade do conhecimento, mas que depois só vive em função dos estudantes. E há muitas pessoas interessantes e com coisas para mostrar. Este é só mais um motivo para conhecerem a cidade e verem o que há de bom”, diz Ana. “Eu olho muito para o TED no sentido de mostrar outras coisas que a cidade tem e que não são tão visíveis. Não queremos ser uma sombra do que já existe”, explica Frederico.

Este é um evento sem fins lucrativos, que vive de parcerias e onde todos trabalham de forma voluntária. “O valor da inscrição cobre despesas que têm de ser suportadas e para as quais não temos parcerias”. Se no final existir saldo ou algum tipo de bens materiais, são doados a instituições de solidariedade. Já ajudaram a OIKOS, o Banco Alimentar e a Cáritas. “Há histórias que não são vistas e que guardamos connosco. É um orgulho poder ajudar”.

Existe um limite de inscrições entre as 150 e as 200. “A partir das 200 pessoas já fica difícil conseguir a proximidade que o evento requer”. Mas para quem ficou interessado e não se inscreveu, ainda pode tentar a sua sorte. Porque como Ana e Frederico gostam de dizer, “as pessoas têm de sair do marasmo e é preciso agitar consciências e abalar corações. E é para isso que o TEDx existe”.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 17 de Outubro de 2013)

1 comment

  • Um trabalho magnífico. Um grupo fabuloso de voluntários. Uma mais valia para a cultura e a liberdade de opinião, em Coimbra. Assim se edifica um novo mundo, assim nascem e crescem ideias, sem preconceitos, sem máscaras, sem inibições. É com eventos culturais como o TED X Coimbra, que uma cidade, uma região e um povo, se tornam património de todos nós. Um imenso obrigado a todos os que, ao longo de todo um ano, erguem e dignificam este espaço de partilha de ideias.

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