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Exposição Coimbra Medieva: Fragmentos de Memória

  BPI_2446Os formandos do Curso Técnico de Museografia e Gestão do Património do Centro de Formação Profissional de Artesanato CEARTE juntaram-se às comemorações dos 100 Anos do Museu Nacional de Machado de Castro e concretizaram uma parceria, da qual emerge um conjunto de eventos que arrancou no passado dia 11 para terminar mais tarde, a 24 de Novembro.

A Exposição Coimbra Medieva | Fragmentos de Memória integra-se neste projecto de envolvimento com o MNMC e nasce pelas mãos dos formandos e formadores do supra-referido curso, e resulta de uma actividade (teórico-prática) de formação conhecida como Actividade Integradora. E como este nome nos indica, tudo quanto à exposição Fragmentos de Memória diz respeito ficou a dever-se ao trabalho desenvolvido por este conjunto de pessoas, formandos e técnicos do Museu: a selecção das obras, o processo de limpeza e conservação das obras, a realização dos dispositivos e equipamentos relativos à montagem, etc. Trata-se, efectivamente, da aplicação das competências adquiridas ao longo do Curso, facto que permite aos formandos estabelecer os elos essenciais com o mundo do trabalho para o qual têm vindo a preparar-se.

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A Exposição intenta promover uma viagem à Coimbra entre os séculos VIII e XII através de alguns dos vestígios materiais que pertencem ao MNMC, mas provenientes de vários lugares da cidade, como por exemplo do Beco das Condeixeiras, da igreja de São João de Almedina, de São Pedro, da Sé, de Santa Cruz e da igreja de São Tiago. A mostra conta com vários fragmentos de cerâmica datada de entre os séculos IX-X, com vestígios decorativos em pedra com a mesma idade e do século XII, com lápides funerárias do século XII, com uma fotografia da epígrafe árabe da Sé Velha, com a cópia da gravura de Coimbra quinhentista de G. Braun e F. Hogenberg (que ilustra a cidade e serve de pano de fundo à exposição), com uma gravura da desaparecida igreja coimbrã de S. Cristóvão, dois desenhos de capitéis da Sé Velha realizados por António Augusto Gonçalves (que liga a mostra ao centenário do Museu).

Do conjunto de peças escolhidas destacamos, entre outras possibilidades, o capitel dos leões afrontados, proveniente da já desaparecida igreja de S. Pedro. Algum do espólio medieval desta igreja, destruída no decurso das obras da cidade universitária de Coimbra nos anos 40, ficou à guarda do Museu Machado de Castro que lhe evita a desmemória. Para além deste capitel que na exposição se dá a conhecer pela primeira vez, faz parte do mesmo espólio proveniente de São Pedro o mais falado capitel dos Leões Justiceiros (MNMC. n.º E339).

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A reconstrução do tempo, ou da memória, faz-se recorrendo a várias fontes. Desse conjunto alargadíssimo de fontes, das quais se servem todos quantos trabalham com as ciências do património, ressurge agora o fragmento, como entidade que enforma um corpo global que importa reconstruir, salvaguardar e revalorizar. No caso dos estudos em património devem encarar-se as partes como elementos de um todo que se quer fazer reerguer das malhas do tempo. Esse tempo-fragmento que, combinado com o espaço-fragmento enforma todas as pesquisas que à história do homem dizem respeito.

O estudo da obra de arte e do artefacto ausentes, fragmentários ou destruídos, através de mecanismos claros de recuperação desses objectos desaparecidos, inexistentes, ou mortos, e que se reconhecem, por vezes, apenas pelo fragmento ou pelo indício, constitui-se como uma metodologia de trabalho válida e, na actualidade, em franco desenvolvimento, e que nos ajuda a estabelecer novos diálogos com a história e, consequentemente, com o homem que a história pretende alcançar. E este conjunto de fragmentos reunidos através desta pequena exposição que o CEARTE e o Museu realizaram é testemunha disso mesmo.

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Revisitar Coimbra medieval através de alguns dos seus vestígios fragmentários ilustra o caminho que o técnico do património (bem como o historiador) deve percorrer, pesquisando e dando a conhecer os indícios, os resíduos, os dados marginais que ajudam a diagnosticar e a revelar o todo.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 17 de Outubro de 2013)