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Olhar o TCSB

BPI_9623_SmallDesta vez, a nossa maratona pelas salas da cidade teve paragem no Teatro da Cerca de São Bernardo (TCSB). Falámos com Pedro Rodrigues, vice-presidente d’A Escola da Noite e assistente de programação do TCSB, e ficámos a conhecer melhor como este Teatro se vê no panorama cultural da cidade, bem como o que podemos esperar desta nova temporada.

Na vossa perspectiva, qual o papel do Teatro da Cerca de São Bernardo no estado da cultura da cidade?
Em primeiro lugar, temos muito orgulho em encarar este Teatro como um equipamento municipal. Temos a responsabilidade de o gerir e programar e nunca nos esquecemos disso. Coimbra parece-nos, e é, uma cidade particular no que diz respeito a equipamentos municipais, porque não tem tido um teatro municipal, como a maior parte das cidades portuguesas desta dimensão tem. Tem um conjunto de equipamentos que acabam por cumprir essa missão de serviço público, que se justifica que uma cidade de média dimensão como Coimbra, com as tradições culturais que tem, deve assegurar. Tem dois equipamentos municipais de média escala, este Teatro e a Oficina Municipal do Teatro (OMT) e o Teatro Académico de Gil Vicente que não é municipal, pertence à Universidade, mas que durante muitos anos foi a única sala de espectáculos da cidade e tem assumido, de diferentes formas, essa função. Portanto, olhamos para o TCSB como uma das peças deste conjunto de equipamentos que prestam essa função de serviço público na cidade e é assim que a encaramos. É igualmente a casa onde somos Companhia residente, A Escola da Noite, e onde criamos e apresentamos os nossos espectáculos. Para além disso, tem a função especial de ser um espaço aberto a outros artistas, a outras formas de expressão artística e articular-se com os outros equipamentos da cidade para fazer parte dessa oferta cultural diversificada.

Em que se distingue concretamente o TCSB de outros equipamentos?
Desde logo distingue-se pela companhia residente, A Escola da Noite. Nós defendemos este modelo de Teatro com companhias residentes como algo de positivo, precisamente porque isso ajuda a dar identidade artística aos espaços. A OMT e o TCSB, tendo modelos de funcionamento semelhantes, são distintos desde logo porque são distintas as companhias que os habitam e os gerem. Entendemos isso como uma mais-valia dos dois espaços, porque são dois projectos que não se opõem, nem concorrem, antes se complementam e enriquecem a oferta cultural da cidade. Essa é portanto uma primeira marca identitária que é o próprio trabalho artístico que A Escola da Noite aqui desenvolve. Depois, e precisamente por ser a casa de uma Companhia, de uma estrutura de criação artística, procuramos que toda a programação externa à Escola da Noite seja uma programação que valorize o acto da criação artística e o espírito colectivo. Temos procurado fazer com que isso se note nas escolhas de programação que fazemos. O exemplo mais claro disso são as residências artísticas que organizamos com companhias ou artistas na área do teatro e da dança contemporânea. São convidados a vir a Coimbra, não apenas para apresentar um espectáculo e ir embora, mas poderem estar neste Teatro e na cidade, associando a isso actividades de formação, exposições, conversas com o público, de maneira a que possam efectivamente partilhar com o público da cidade os seus percursos artísticos. Já convidámos nomes incontornáveis das artes em Portugal nessa perspectiva. Gostamos que a nossa programação tenha essa marca, de valorização do acto de criação artística, onde se cria e se reflecte sobre a criação artística e que não seja apenas uma estrutura de acolhimento.

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Quem é o público do TCSB?
É muito difícil responder a essa pergunta. A resposta é um lugar-comum, mas de facto são públicos muito distintos. Para mim é mais fácil dizer que a comunidade universitária, entre alunos e professores, tinha muito mais peso nos públicos da companhia há dez anos atrás do que tem hoje. Há certamente muitas explicações para isso e também sabemos que não é um fenómeno que se passa só connosco, passa-se noutras cidades e noutras estruturas desta cidade. Portanto, o que é que isso quer dizer? Isso quer dizer que o nosso público é um pouco mais velho hoje do que há dez anos atrás, essa é uma primeira conclusão. Diria que o nosso público não está muito longe daquilo que sabemos ser um público de espectáculos de teatro, de dança, no resto do país. Vamos sempre dar ao mesmo: são os quadros médios e superiores, uma faixa etária entre os 30 e os 50 anos. São as profissões com os mais altos níveis de escolaridade. É ainda muito esse o público do teatro e da dança em Portugal. Não gostamos da palavra fiel, mas gostamos que o público acompanhe a programação e gostamos de cruzar públicos. Aliás, as nossas estratégias quer de programação, quer de divulgação, procuram precisamente fomentar isso. Ou seja, que o público da Companhia se sinta motivado a vir ver as propostas doutros grupos e quando trazemos outros artistas que trazem outros públicos, conseguir sensibilizá-los para que num próximo espectáculo d’A Escola da Noite possam voltar.

Em relação à programação, o que podemos esperar desta nova temporada?
A próxima temporada não está fechada. Estamos com dificuldades em definir a programação da nova temporada. Por um lado por questões financeiras, pois não sabemos exactamente quais os meios de que podemos dispor. Por outro lado, por uma razão formal. O nosso contrato de gestão e programação do Teatro termina em 31 de Dezembro deste ano. Sendo assim, até ao final do ano temos como ponto alto da programação a estreia do espectáculo “As Orações de Mansata”. Esta é uma grande cooperação internacional entre a Escola da Noite e a Cena Lusófona, duas estruturas aqui de Coimbra, a Companhia de Teatro de Braga e o Teatro de Vila Velha de São Salvador da Baía. Resulta de um estágio internacional de actores, com texto de um autor guineense chamado Abdulai Sila e com elenco de treze actores oriundos de seis países de língua portuguesa: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Brasil e Portugal. É um projecto de grande dimensão e este foi o espaço escolhido por todos os parceiros como o espaço ideal para se terminarem os ensaios e estrear o espectáculo. Vai estar em cena de 17 a 27 de Outubro e a seguir vai circular por várias cidades portuguesas e também pelo Brasil, por Angola, Guiné e Galiza. Logo a seguir a esta temporada entra um outro projecto que é uma mostra de teatro galego. Quatro companhias de teatro galegas vêm a Coimbra fazer quatro espectáculos, em quatro dias seguidos. Resulta também de um projecto de intercâmbio em que A Escola da Noite está envolvida com mais três companhias portuguesas, a Companhia de Teatro de Braga, a Seiva Trupe do Porto e o Centro Dramático de Évora, e quatro companhias da Galiza. Esta mostra de teatro galego vai acontecer ao longo de duas semanas pelas quatro cidades portuguesas envolvidas, e aqui em Coimbra acontece entre 28 de Outubro e 2 de Novembro. Estes são os destaques mas vamos ter também alguns acolhimentos de outros grupos e retomámos uma iniciativa que fazemos no primeiro Sábado de cada mês para crianças, as “Flores de Livro”. Foi a nossa primeira iniciativa especificamente para crianças e tem funcionado muito bem, com cada vez mais pessoas a aderir. Ainda em Outubro vamos organizar uma oficina sobre dramaturgia brasileira contemporânea, dirigida por uma professora e dramaturgista brasileira da Universidade de São Paulo. Para além disto, já estamos a trabalhar na primeira produção d’A Escola da Noite de 2014.

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Pode explicar-nos melhor essa questão do contrato acabar no fim deste ano?
É um contrato que temos com a Câmara e o contrato não foi renovado até agora. É uma das primeiras coisas que vamos ter de discutir com os novos responsáveis. Trabalhámos para ter a programação feita até ao final do ano, temos vários projectos que gostávamos de concretizar em 2014 e até em 2015, mas ainda não temos certezas quanto a isso, esperamos saber o mais breve possível. De facto é estranho e tentámos que isto não acontecesse. Independentemente das eleições, parece-nos um pouco perigoso que uma Câmara que é responsável por este equipamento deixe que cheguemos a três meses do fim de um contrato e não se saiba o que vai acontecer com o espaço, que é municipal. Há duas hipóteses: ou vamos ser nós, chegamos a acordo e renovamos o contrato por mais uns anos; ou não vamos ser nós e isto vai ser gerido e programado de outra maneira qualquer. Objectivamente, não há tempo para preparar as coisas. Já nem falo do ponto de vista da Companhia, pois seria muito grave se por qualquer razão não pudéssemos estar aqui em Janeiro. Temos de acreditar que vamos continuar em Janeiro. De facto, devíamos estar a trabalhar com outros prazos e outros calendários, mas não foi possível.

Qual a vossa relação com os outros agentes culturais da cidade?
Ao contrário do que se diz, não sinto que haja falta de comunicação, pelo contrário. Até fico um pouco cansado que exista esse rumor e ele existe pelas piores razões. Penso que as estruturas dialogam o que têm de dialogar e acho que têm dado provas de que são capazes de falarem umas com as outras e até de desenvolverem projectos em conjunto. Falamos com toda a gente, colaboramos com toda a gente e sentimos que isso acontece de forma geral. Pontualmente pode haver problemas, mas não sinto que seja um problema da cidade. Sinto sim que essa ideia tem sido várias vezes utilizada pelo poder político, para tentar dividir os agentes e com isso justificar uma ou outra atitude menos simpática para algum deles ou para os agentes como um todo. Falo em concreto de más experiências ao nível da gestão autárquica nos últimos anos. No terreno temos exemplo de várias parcerias feitas com outros agentes, desde estreias ou temporadas de grupos de Coimbra que acolhemos aqui, a iniciativas que temos organizado em conjunto com outras instituições. De facto, as pessoas sabem trabalhar em conjunto e falar umas com as outras. Desminto esse rumor. O que também não sinto falta, e não sei se alguém sente, é que exista uma estrutura ou um nome formal para juntar estes agentes. Nem me parece que seja viável. Por vezes fala-se que os teatros deviam acertar ao pormenor a programação para que não haja repetições ou coisas a acontecer no mesmo dia. Isso é impraticável. E Coimbra, apesar de tudo, tem uma dimensão suficiente para aguentar algumas sobreposições e ainda bem que assim é. Coimbra quer-se uma cidade com uma oferta diversificada.

O TCSB pratica preços caros?
Os nossos preços têm-se mantido inalterados desde que entrámos aqui em 2008. Variam entre os 5€ e os 10€. Às vezes há espectáculos que justificam entradas mais baratas ou um preço único, mas a regra é essa. Temos vários descontos e várias campanhas que fazem com que quase toda a gente tenha uma redução de uma maneira ou de outra. Sentimos que não há condições para que o preço suba. As pessoas queixam-se, estão sem dinheiro e é difícil que possam pagar mais. A bilheteira é importante para nós mas não conseguimos sobreviver com a bilheteira, nem mesmo com espectáculos de casa cheia. Precisamos sempre de outros tipos de financiamento.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 10 de Outubro de 2013)