• Photobucket

Home / Música / The Grau⁰: “13”

The Grau⁰: “13”

BPI_0740

Os The Grau⁰ são Hélder Santos e Paulo Santos. São ambos treinadores de natação, conhecem-se há mais de vinte anos e musicalmente não podia existir uma química maior. Podemos começar por dizer que o seu primeiro disco editado, “13”, será lançado no próximo dia 11 de Outubro, com um concerto na discoteca States.

Falar nos The Grau⁰ é acima de tudo falar em Grau, alter-ego de Hélder. No entanto, sabemos que Paulo é seu companheiro e cúmplice em todas as jornadas, as interiores e as exteriores. Neste projecto, Hélder domina com a sua voz e guitarra (bem como as letras) e Paulo na percussão (e alguma voz também).

Pode dizer-se que Grau é daqueles artistas multifacetados. O seu talento desdobra-se na música e na escrita. Na verdade, parece que se alimentam em simultâneo. Tudo começou em criança, quando os sonhos são sempre possíveis de alcançar. O dele era um dia vir a fazer música. “Tive sempre o sonho de um dia vir a fazer música. Já em miúdo tinha músicas na cabeça. Quando ia a andar para a escola, as músicas apareciam”, contou-nos. Começou então por ter aulas de música, mais precisamente aprender a tocar guitarra. “Tentei aprender mas não tinha jeito nenhum. O professor disse ao meu pai que eu não tinha muito talento, para me deixar ir para a natação”. E assim foi, até aos 16 anos. “A reviravolta deu-se quando eu tinha 16 anos. Meti um brinco, o meu pai não gostou e negociei com ele tirar o brinco e em troca ele ofereceu-me uma guitarra eléctrica”.

Já com a guitarra eléctrica nos braços, Grau começou a transpor as músicas da cabeça para as cordas. Simplesmente assim, sem saber nada de pautas, notas ou acordes. “Um amigo meu ouviu-me tocar, perguntou-me que nota era aquela e eu não sabia. Obrigou-me a aprender as posições. Mas só consigo tocar as minhas músicas”, confessa. “Por vezes até me sinto limitado e desmoralizado, principalmente quando vejo alguém a brincar com a viola”.

Passando por uma fase em que se refugiava no sótão de casa a tocar, Grau ganhou confiança e começou a tocar em casa de amigos e muitas garagens. Assim, começou a “melhorar as tintas”. E resultou. As pessoas ouviam e gostavam, apesar de algumas opiniões se dividirem. “Uns achavam que eu devia insistir em aprender e melhorar, mas outros, nomeadamente um professor de música do conservatório, achavam que aprender só iria estragar”.

BPI_0794

Desta forma se impôs. Até porque as músicas continuam a penetrar a sua mente e há que deixa-las ganhar vida própria. Contudo, o seu percurso nem sempre é pacífico. “Já tentei matar o artista. Queria tanto ser bom que uma altura achei que devia tocar todos os dias, várias horas. Acabei por deixar de gostar de tocar e fiquei cinco meses sem tocar na guitarra. Mas logo no dia em que a ia deitar fora, surgiu-me uma canção em andamento”. Impossível matar o artista. “Às vezes, quando pego numa guitarra para ensaiar músicas, porque tenho ensaios ou concertos, aparecem logo duas ou três músicas novas”. Tens alguma ideia de onde aparecem as músicas? “Já tentei perceber e ainda não sei. Aliás, já ia ficando maluco por causa disso”, desabafou.

Quanto às letras, ficamos a perceber que o processo é idêntico ao das melodias. “As letras aparecem-me também, mas normalmente vêm em pedaços”. Nalgumas tenta organizar as ideias, noutras deixa simplesmente o tempo passar para não forçar nada. “Se forço uma letra, nunca fica perfeita”. No entanto, ao vivo, as letras por vezes são improvisadas. “Existe a base da letra e depois consoante o contexto, emprego umas palavras mais fortes e outras mais fracas”.

De modo a percebermos melhor alguma da complexidade que este artista transpira, chega então a altura de vos informar que todo este projecto de vida musical assenta em quatro heterónimos por si criados. O Agreste, em que as músicas e as letras são mais fortes e nem sempre aconselhadas a pessoas sensíveis; o Romântico e o Poeta, em que os nomes dizem tudo e ainda o Palhaço, dedicado às crianças.

Para Grau as músicas e as letras são influenciadas “por tudo o que uma pessoa vive, vê ou até o que imagina”. Mas mesmo assim, admite que quer como músico ou como “poeta” existem influências específicas que se espalham depois pelos diversos heterónimos. Ena Pá 200, David Bowie, Bruce Springsteen, Frank Zappa, Bocage, Luíz Pacheco, António Nobre, Fernando Pessoa, Padre António Vieira, Herberto Hélder, são alguns dos (muitos) nomes referidos. E há também a grande influência paralela das suas musas. “Fui sempre inspirado por musas, muitas musas, com maior ou menor intensidade. Quando estava apaixonado criava álbuns inteiros e foi aí que surgiu o Romântico”.

TheGrauº_13_capacd

Focando-nos agora no seu recente álbum “13”, o primeiro trabalho “a sério”, Grau começou a dizer que tudo foi feito na “base da amizade e no acaso”. Muitos amigos se juntaram para a gravação ter acontecido, quer músicos, quer técnicos, quer um patrocinador. “Um amigo meu insistiu para que fosse para estúdio e patrocinou tudo. É o nosso mecenas”, revelou. O processo inicia-se e a Hélder e Paulo junta-se então um conjunto de pessoas (amigos) que une esforços e se disponibiliza a passar três dias em estúdio para gravar os dez temas do disco. “As músicas não são novas. Algumas até já tinham sido pré-gravadas em casa de um amigo e aqui só as enriquecemos”.

Quanto ao nome do álbum ser o suposto número do azar, Grau refere que “é um número que tem estado associado a ele em diversos momentos, desde miúdo. E pode ser um número de azar ou de sorte”. No entanto, há uma outra explicação por trás. “O conceito do nome é que, para além de estarmos em 2013, quero lançar treze álbuns, começando pelo número do último. Foi uma espécie de promessa feita a mim próprio”. Revelou-nos até que já tem mais dois álbuns encomendados pelo mesmo “mecenas” e que essa ordem numérica pode ser alterada.

Poderemos ver os The Grau⁰ numa sala perto de nós. Dia 11 de Outubro estarão na discoteca States, voltando a actuar na cidade no dia 30 no Salão Brazil, dia 2 de Novembro estarão no Armazém do Chá, no Porto e ainda estão datas por fechar em Lisboa, Aveiro e Viana do Castelo. Isto tudo acontece antes da digressão de Grau pela América do Sul.

O tipo de som que cria já foi apelidado de diversos nomes. Para uns é ‘fado pornográfico’, para outros, música romântica ou mesmo poética. E quando tentamos saber afinal o que é, Grau diz que “não consegue catalogar, prefiro que os outros a chamem”.

https://soundcloud.com/the-grau/1-amor-de-prata

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 10 de Outubro de 2013)