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A vitória do glamour

BPI_8608  Descobriu o burlesco em 2005, graças a um teledisco de Marilyn Manson em que surgia uma mulher bela a banhar-se numa taça. Era Dita von Teese, em “Mobscene”. A semente estava lançada, mas só deu frutos em 2011, quando Manuela Rocha, de 29 anos, decidiu vestir a pele de Manu de la Roche, performer de burlesco e fetiche.

Há cerca de um ano, Manuela deixou de dar aulas de Expressão Dramática a crianças para se dedicar por completo aos especáculos de burlesco e fetiche, em que se mostra provocante, nas suas vestes reduzidas e maquilhagem cuidada, pronta a desfazer preconceitos – sobretudo sexuais – e a descentralizar aquele tipo de actuação, mais comum em Lisboa.

Decidiu trabalhar sozinha, por isso se diz uma lutadora. Trata do guarda-roupa, da escolha das músicas, da divulgação, além do número em si, que leva meses a ser criado. “Sinto que consegui remar contra a maré. Estou a conseguir fazer as coisas de forma a não ter de sair do país”, conta.

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Surge diante de nós com os lábios e as unhas pintados de vermelho, eyeliner preto e sombra amarela nos olhos, roupa negra, tatuagens visíveis. O que a separa da personagem que construiu? “São a mesma pessoa, têm as mesmas ambições e gosto pelo espectáculo. Só que uma expõe-se mais do que a outra”.

Longe do brejeiro

O burlesco remete para o glamour dos anos 30 e 40, para as estrelas de Hollywood, para o erotismo. “A intenção, com o número de striptease, é provocar as pessoas transmitindo alguma mensagem de sátira, de brincadeira, e nunca, de modo algum, mostrar o que é brejeiro”, explica Manuela, sublinhando que nunca fica nua.

Já o fetiche é mais agressivo, visualmente, devido à predominância do vestuário preto e em pele, e ao uso de chicotes.

Entre as suas grandes referências estão figuras como Dita von Teese (a maior), Bettie Page, Gypsy Rose Lee ou Madonna. Surpreendemo-nos com a alusão a esta última, e ela desafia-nos a ver o teledisco “Open your heart”.

O guarda-roupa provém de fontes diversas. Tanto compra peças em lojas convencionais, para depois as adaptar, como em feiras de antiguidades, que adora, ou em sex shops, ou pela Internet. Quando não mete, ela mesma, mãos à obra: “Sei costurar mais ou menos. Quando vejo que não consigo, mando fazer ao Armando Gabriel. Ele trabalhou em Paris com Mr. Pearl, que faz os corpetes da Dita von Teese”.

“Sinto que as pessoas respeitam”

Manuela Rocha nasceu em Oiã e viveu na Praia da Barra, em Aveiro, até há dez anos, quando se mudou para Coimbra, para estudar Teatro na Escola Superior de Educação. No terceiro ano, fez um estágio artístico com a companhia Camaleão e, no último, começou a dar aulas. Pelo meio, fez teatro, cinema e performance.

Entretanto, decidiu que queria criar algo só seu. Virou-se para o burlesco depois de ter tido formação com o Cais do Sodré Cabaret!, em Lisboa, e deixou de ser professora. “Gostava de dar aulas, mas não sentia que fosse a minha vocação”.

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A família apoia-a, tem essa “sorte”, conta, adiantando conhecer performers que sofrem com os ciúmes dos companheiros. A haver algum assédio, no que lhe diz respeito, ele é feito, unicamente, pelas redes sociais.

Não tem experiências desagradáveis a relatar, envolvendo o público. “Sinto que as pessoas respeitam. Vão com uma ideia preconcebida, mas, como vêem uma coisa diferente, já me abordam de outra forma. Nunca tive ninguém a mandar-me bocas”.

Diz que qualquer mulher pode fazer burlesco, independentemente das suas medidas (ao contrário do que acontece na moda), mas, para já, não pensa ensiná-lo. “Só quando tiver 70 anos, cheia de plásticas”, graceja.

Texto de Carina Fonseca
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 10 de Outubro de 2013)

(A Preguiça e Manu de La Roche agradecem à Quinta das Lágrimas pela cedência das suas instalações para a realização desta sessão fotográfica)