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Olhar a Casa da Esquina

BPI_9260No seguimento desta caminhada pelas salas e espaços culturais da cidade, fomos à Casa da Esquina. Falámos com os responsáveis Ricardo Correia e Filipa Alves e ficámos assim a conhecer um pouco melhor o que é e o que tem para nos oferecer este espaço. 

Na vossa perspectiva, qual o papel da Casa da Esquina no estado da cultura da cidade?
Ricardo Correia – Quando começámos foi por um acto de resistência. Havia uma série de instituições que já existiam e o nosso trabalho foi, e é, um pouco mais à margem. É um trabalho que é feito com nichos diferentes e portanto, foi um bocadinho rebelarmo-nos contra o sistema. Decidimos criar um espaço que fosse aquele que queremos fazer e onde pudéssemos convidar as pessoas que queríamos. Ao mesmo tempo a Casa da Esquina é um espaço de desejo, de acolher outras pessoas, mas também de construirmos o nosso caminho. É um espaço de resistência aqui no panorama de Coimbra e nacional também. A nossa programação está sempre assente em três eixos. Um eixo de criação, de produção de espectáculos, de exposições, muitas das quais somos nós que desenhamos e concretizamos. Há um eixo ligado à formação e às residências artísticas, em que temos trazido muita gente de fora, muitos artistas internacionais. Por fim, um eixo de acolhimento, onde fazemos coisas desde artes visuais, fotografia, teatro, serigrafia, arte urbana, ou seja, uma série de disciplinas que são muito variadas. Depois há espaços vazios onde cabem coisas que estão a acontecer no momento e as pessoas vão entrando, temos espaço para isso. A Casa é assim um bocado porosa. Há que dar espaço ao inesperado. Não conseguimos, nem queremos, ter tudo desenhado, é bom ter esta margem.

Filipa Alves – No fundo temos um espaço gravitacional, andamos em órbitra, à volta. Eu tenho muita dificuldade em explicar às pessoas o que é que nós somos. Na nossa cabeça é tudo muito claro, mas explicar às pessoas o que é exactamente a Casa da Esquina é um bocado complicado, porque nós realmente fazemos aquilo que nos dá vontade de fazer, aquilo que achamos que tem pertinência no momento. E não é só uma coisa. Não é só teatro ou só música, por exemplo. Normalmente os espaços são dedicados a coisas mais em concreto e depois há coisas que acabam por completar-se. Nós optámos por nos dedicar a todas as coisas que gostamos. Quando dizemos isto a alguém há alguma dificuldade, porque mesmo nós estamos habituados a compartimentar as coisas e aqui tentamos que seja o menos compartimentável possível.

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Há pouco falaram de que a Casa da Esquina está um pouco à margem, que existem nichos que vocês preenchem. Quem é esse público?
RC – Acho que são públicos que têm muitos interesses e todos diferentes. Muitas das vezes há públicos que vêm apenas para o café costura, há públicos que vêm para uma sessão de cinema. São nichos que não encontravam espaço noutras instituições para fazer o que queriam. Uma espécie de loja do cidadão da cultura. Por um lado nascemos à margem no sentido de fazermos da Casa aquilo que nós queremos mas por outro, também fomos atrás de apoio, de financiamento para muitas das actividades que fazemos e muitas vezes com umas consegues fazer outras. Neste momento estamos com esta parceria do projecto Linhas Cruzadas, que é uma parceria muito institucionalizada, quer dizer, com a DGArtes, com a Câmara, com os parceiros que são instituições muito antigas da cidade e que pode levar a cruzamento de públicos que normalmente não se comunicam. E em Coimbra sente-se muito isso, que existe um alheamento de quem faz em relação aos outros parceiros da cultura e também de quem vê e que vai às actividades, que muitas vezes se segmenta, não se cruza.

FA – Notamos muito, e agora com as redes sociais é fácil perceber o público que existe, que há imensa gente que vem para determinadas actividades e depois acaba por vir a outras coisas que também fazemos e acaba por gostar das outras coisas. Isso é o que traz as pessoas cá. O facto de poderem juntar vários interesses num só espaço.

Qual a vossa relação com os outros agentes culturais da cidade?
FA Bem, como até já fomos descritos quando fizeram a apresentação do projecto Linhas Cruzadas, nós somos a diversidade. Uns têm música, outros têm teatro, outros têm artes plásticas e nós? Nós somos a diversidade. Acaba por ser bom, porque conseguimos cruzar o teatro com as outras coisas e isso permite-nos ter flexibilidade para fazer projectos e integrar projectos. Se pensas nesse esquema da abrangência acaba por ser mais simples de concretizar. A ideia é criarmos redes. Acho que isso é importante na cultura e sobretudo aqui em Coimbra, é importante criar redes com outras instituições, porque muitas das vezes as pessoas nem conhecem todas as instituições, não as frequentam. Com esta criação de redes acabam por perceber que existem. É importante porque não é bom vivermos alheados uns dos outros. Haver esta troca de públicos e esta troca de saberes alerta as pessoas para os outros espaços e se tivemos essa cooperação facilita muito mais a mobilidade entre eles.

RC – Também somos consumidores, não é? Sempre que podemos somos consumidores de cultura em Coimbra e portanto, também conhecemos os espaços, vamos aos espaços. No meu caso, já passei por várias instituições, estou ligado ao teatro e acho que já passei por quase todas aqui em Coimbra. A ideia é criar ligações, tecer alguns contactos, acho que é isso. Não queremos esta imagem de outsiders.

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E no que diz respeito às outras instituições que não estão neste projecto Linhas Cruzadas?
RC – O mais difícil é encontrar um momento em que possamos estar juntos a pensar e a articular algum pensamento sobre o que vamos fazer. Só isso é tão difícil. E só por isso vale a pena reunirmos. Vim para Coimbra em 2002, mas senti sempre um afastamento muito grande, mesmo quando havia instituições que habitavam o mesmo edifício. Coimbra não é uma cidade grande e sinto que há muros que estão a separar as instituições, sejam ideológicos, sejam na forma de fazer. E esses muros são muito difíceis de derrubar. O projecto Linhas Cruzadas é um primeiro passo para isso, para começar a comunicar, pelo menos entre estas quatro instituições envolvidas. Penso também que há cada vez mais abertura das pessoas, estão menos fechadas nas suas torres de marfim.

Em relação à programação, o que podemos esperar desta nova temporada?
FA – Para além daquilo que temos sempre, como o Café Costura e o Mercado de Trocas, vamos estrear a nossa peça “Occupy” no dia 12 e vamos continuando a ter as nossas conversas.

RC – O “Occupy” que vai entrar é o projecto que foi desenhado para as Linhas Cruzadas e é aglutinador de várias actividades. A primeira já começou, o “Play/Pause”, que é uma mostra de vídeo e teatro contemporâneo. São vídeos provocadores que têm sido feitos e a ideia é criar debate em torno desses espectáculos e criar ligações com quem faz e quem vê. Depois vamos ter o espectáculo que vai estrear dia 12 de Outubro e vai estar até 9 de Novembro. É um espectáculo que parte de alguns textos que foram criados para um festival chamado ‘Teatro Sem Cortes’, com textos de Espanha, Chile, Grécia, Islândia. O ano passado traduzimos e fizemos uma leitura informal desses textos e agora decidimos trabalhar com eles. Foram textos escritos no momento e que falam sobre o colapso social europeu, sobre esta crise e este impasse que estamos a viver. São textos curtos e que vamos fazer como se uma assembleia se tratasse, é para trabalhar com o público e assim trabalhar a relação entre quem faz e quem vê. Teremos na semana de 4 a 9 de Novembro um espaço que cruza as entidades do projecto Linhas Cruzadas e que se chama “Ocupar em Nome de Quê” e em que cada uma das entidades propõe uma actividade em vários espaços da cidade. Vamos trazer também uma série de pessoas, vamos ter debates sobre economias improváveis, workshops e ainda estamos a fechar algumas coisas. Andamos um bocado à procura de actividades e acções que sejam de participação e cidadania, mas que sejam directas. Às vezes sentimos essa dificuldade quando se pensam as coisas com muita antecedência. Estamos à procura de algo que seja de interferência mais rápida, uma espécie de guerrilha pronta a actuar. E é um bocadinho essa a lógica do “Occupy”, criar um espaço de guerrilha, um acto de resistência que seja actual, aqui e agora. Estamos à procura duma acção directa, o que não invalida a reflexão. Muitas das actividades da Casa, na sua génese, foram actividades muito ligadas ao espaço público. E como foi uma coisa construída, fomos pensando sempre por fora, numa dinâmica que vem de fora para dentro.

A Casa da Esquina pratica preços caros?
FA – Não. São muito baratos. E temos imensas coisas de graça. O mercado de trocas é de graça, as economias improváveis são de graça, temos um espaço de consulta que é de graça, os encontros de crochet e tricot são de graça. Mesmo as actividades de formação são mais baratas que o normal dos outros sítios.

RC – A média dos preços é seis euros, mas temos sempre descontos para estudantes e desempregados, por exemplo. Em termos de bilhete é muito acessível. Mas não são assim tantas as actividades que são pagas.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 3 de Outubro de 2013)