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Em busca do Cinema Paraíso

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Com o filme “Cinema Paraíso” a preencher todo o nosso imaginário, fomos ter com um dos últimos projecionistas no activo na cidade. Chama-se João Silva e trabalha no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) há mais de 30 anos.

Entramos na sala de projecção e é mesmo aquilo que esperamos. Centenas de caixas, bobines, rolos, fitas e claro, as máquinas apontadas para aquelas janelinhas pequenas por onde sai a luz que se transforma em imagem no grande ecrã.

Tal como Alfredo, no filme, João tem uma história para contar. “Comecei a trabalhar no Teatro Sousa Bastos com 12 anos. Fazia várias coisas: publicidade, bilheteira e ia buscar e levar os filmes à estação”. A sua permanência neste Teatro foi de seis meses, até ter um convite que mudou a sua vida. “O Sr. Emílio, que trabalhava aqui no TAGV, via-me a passar com 12 anos todo atarefado e um dia convidou-me para vir trabalhar com ele. Assim foi. Vim para cá em 1978, com 13 anos, e por aqui fiquei”. Numa altura complicada, pós 25 de Abril, João confessa que “esse convite foi a melhor coisa que me aconteceu.”

No entanto, ainda não foi nessa altura que João ficou definitivamente por Coimbra. “Era muito difícil ficar nos quadros da Universidade. Entretanto fui para a tropa, onde tirei o curso de projecionista e onde trabalhei como tal”. Mas o destino quis que fosse João a dar-nos cinema e acaba por voltar à cidade, ao TAGV e a ficar efectivo.

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E o que faz um projecionista? Ou melhor, como se constrói todo o processo de projecção de um filme? A resposta não é simples, pelo menos para quem não estiver minimamente dentro do assunto. São várias as etapas envolvidas: “Primeiro temos de montar o filme. O filme vem em caixas, entre cinco a oito. Começamos com a primeira bobine, e vemos se ela está no princípio ou no fim. Se estiver no princípio [rebobinada], começa-se do princípio, se estiver no fim, começa-se do fim. Temos então de fazer as várias colagens entre as várias bobines. Se estiver no princípio, viro a bobine 1 para o rolo, depois viro a 2 em cima da 1, depois a 3 e coloco um pedaço de filme que anuncia o intervalo. Automaticamente fico com as 3 partes já arranjadas e assim sucessivamente”. Contudo, outras tarefas existem. “Passo a fita toda à mão, para sentir se há algum corte ou alguma colagem grossa que possa partir na máquina”.

Todo o processo de montagem acontece antes da hora de projectar o filme e demora, para João, “de 45 minutos a 1 hora porque já tenho bastante prática”. Após o filme começar, o trabalho continua. “Quando começa temos de ver se está desfocado e se estiver, focar. E depois temos de estar sempre atentos durante a projecção porque a fita pode saltar e desenquadrar”. Ora assim se percebe que a atenção dada ao filme nem sempre é a melhor. “Consigo ver o filme mas a concentração está na máquina. E com o tempo, vamos percebendo os truques desta profissão. Pelo barulho da máquina a trabalhar, por exemplo. Percebo logo quando se passa algo de errado”.

Arriscámos perguntar a João se este é um trabalho solitário. E a resposta foi afirmativa. Antes, João não estava sozinho, mas agora está, exceptuando “os festivais de cinema em que tenho uma pessoa a ajudar-me porque senão teria de estar aqui todo o dia”. Fala-nos ainda de uma outra vertente sua, a de ensinar. “Já ensinei, e ainda ensino, muita gente a trabalhar com esta máquina”. Para além disso, dá alguns workshops no Centro de Estudos Cinematográficos da Universidade de Coimbra.

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Mas é ao mesmo tempo um João triste que se sente quando se fala em ensinar. “Acho que já não devo ensinar mais ninguém, esta profissão está em risco de acabar”. Hoje em dia, a maioria das projecções é feita de forma digital e claro, “a qualidade e a imagem não são as mesmas, nada como uma máquina de projectar”, desabafa.

João é um consumidor de cinema. “Mesmo em casa fico muitas vezes colado à televisão a ver filmes”. Para além do clássico Cinema Paraíso, um filme que o toca especialmente, gosta um pouco de todos os géneros. “Amo a minha profissão e só tenho mesmo é pena que o filme em fita esteja a acabar, prevejo isso mais dia, menos dia”.

Quanto a nós, resta-nos agradecer a experiência enquanto esse fim anunciado não se revelar.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 3 de Outubro de 2013)