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Olhar o Salão Brazil/JACC

BPI_8405Fomos a mais uma sala da cidade. O objectivo continua a ser o de saber o que a nova temporada promete, bem como se vêem no contexto da cidade. Desta vez, caminhámos até ao Salão Brazil/Jazz ao Centro Clube (JACC) e falámos com José Miguel Pereira, o porta-voz escolhido entre um grupo de sete pessoas que trabalham em conjunto.

Na sua perspectiva, qual o papel do Salão Brazil/JACC no estado da cultura da cidade?
Primordialmente, o Salão Brazil é um espaço de apresentação de concertos, embora não seja essa a sua única valência, enquanto edifício. Anteriormente, até há um ano e meio atrás, funcionava como restaurante e essa valência de cozinha/restaurante, com a possibilidade de servirmos refeições, ainda continua a ser uma possibilidade em que pensamos como uma forma de viabilizar o espaço. De qualquer maneira, a forma como vemos o Salão Brazil, e já o fazíamos antes de sermos os gestores e programadores, é como um espaço fundamental para a cidade, quer pela sua localização, no coração da Baixa de Coimbra, quer pelas condições que tem para apresentação de concertos de música ao vivo. Quando assumimos o espaço em Agosto de 2012, as primeiras conversas tiveram todas como ponto comum o desejo de fazer do Salão Brazil um espaço para a apresentação regular de concertos na cidade de Coimbra, que era algo que à partida sabíamos que estava em falta. Provavelmente todos identificamos essa como uma das principais carências na cidade. Rapidamente percebemos, e era também uma percepção que já tínhamos, de que o Salão Brazil só por si não muda a face da cidade, era preciso haver mais locais para isso. Somos confrontados todos os dias com gente a querer ensaiar, a querer apresentar o seu trabalho e portanto, a nossa ideia é que de facto o papel é fundamental, nesse sentido. Acho que se fôssemos analisar somente os números e víssemos o que aconteceu em 2012 em termos de concertos de música realizados em Coimbra e o que aconteceu em 2013, teríamos uma diferença brutal, com um aumento substancial. Para tentar responder numa frase à questão, eu diria que, na maneira como o JACC pensa o Salão Brazil, pode ser uma sala de concertos onde caibam uma pluralidade de músicas e onde as pessoas tenham realmente prazer em assistir a concertos. E tem sido um bocado esse trabalho que temos feito e essa a razão pela qual, por exemplo, apesar de sermos uma Associação cuja missão principal é promover e divulgar o jazz, abrimos a sala a todos os géneros.

Em que momento se deu essa junção entre o Salão Brazil e o JACC?
O Salão Brazil tem personalidade jurídica enquanto negócio, é um estabelecimento comercial. O JACC ficou com o trespasse do Salão Brazil em Agosto de 2012 e reinaugurou o espaço em 19 de Outubro de 2012. Foi uma surpresa completa. Para nós o processo foi complicado, porque desde o momento em que fomos alertados pelo anterior proprietário para a possibilidade de ficar com o Salão, até ao momento em que fechámos o negócio, passaram quinze dias. Como Associação Cultural sem fins lucrativos nós não tínhamos os meios necessários para fechar um negócio deste tipo. Portanto, o facto do Salão Brazil existir hoje em dia enquanto espaço de programação do JACC é altamente improvável, que só se explica percebendo o que é o JACC e também como é que ele sobreviveu durante dez anos. Nasceu com a Capital Nacional da Cultura e esse contexto muito próprio não indicava que ele pudesse ter sobrevivido, tal como aconteceu com outras coisas. Sobreviveu e bem, apesar de muitas dificuldades.

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Em termos de programação, o que podemos esperar na nova temporada?
A nova temporada apresenta basicamente uma linha de continuidade com o quem sido feito até agora. Abrirmos a sala a uma pluralidade de géneros e abordagens musicais, tendo somente como limite a essa orientação as condições que a sala tem e a qualidade artística, obviamente, dos projectos que aqui vêm. O nosso receio, mas que até agora tem parecido infundado, é que conduza a alguma confusão por parte das pessoas em relação ao que é que podem esperar do Salão. Mas se há esse perigo, há também o reverso da medalha. Temos sido confrontados com críticas muito positivas de pessoas a dizerem que na mesma semana podem vir cá e ver o Salão Brazil com salas completamente diferentes, a parecer que nem estão no mesmo sítio. Ou seja, podem ver um concerto de rock onde desaparecem as mesas e as cadeiras típicas do clube de jazz e no dia a seguir assistirem a um concerto de música contemporânea improvisada. Acreditamos que isso é uma mais-valia. Quanto à programação, o jazz tem uma fatia muito importante, é a fatia maioritária, mas haverá cada vez mais espaço para a música dos países lusófonos, onde assume particular importância o Brasil, mas também os países africanos de língua oficial portuguesa. A principal novidade é a vinda de nomes ligados ao fado de Lisboa. A canção de Coimbra também não vai ficar de fora da programação de 2014, estamos a preparar já alguns projectos. Gostava de fazer um parêntesis só para dizer que existem aqui duas realidades. Uma é como é que o Salão Brazil é visto pelo público da cidade, e não só, e a outra é como é que o Salão Brazil é visto pelos músicos. Nós recebemos uma quantidade verdadeiramente inacreditável de propostas. A partir do terceiro ou quarto mês de funcionamento, reparámos que essas propostas chegavam porque os artistas tinham o feedback de outros artistas de que este espaço era excelente para actuar. Esse aspecto não nos surpreendeu porque sabíamos que o Salão, já antes do JACC estar aqui, era um sítio que tinha uma mística e uma aura muito especial. Esse facto acaba por permitir que sejamos integrados num circuito que é informal, nós não agenciamos nem temos nenhuma ligação preferencial com agências promotoras, mas que é também nacional e internacional, onde cabem nomes desde pessoas que estejam a editar o seu primeiro EP, até músicos com carreiras completamente consolidadas. O que vai acontecer em 2013/2014, e já fechámos alguns nomes, é que vamos trazer nomes de topo que optam por vir tocar aqui por razões muito particulares, porque querem mesmo este tipo de contacto com o público. E isso deixa-nos muito contentes. E claro que vai ter reflexo na possibilidade do público de Coimbra, e esperamos não só de Coimbra, poder assistir a concertos que raramente por aqui passam e num ambiente muito diferente do que é uma sala de espectáculos convencional.

E em relação ao que dizia, de como as pessoas da cidade, e não só, vêem o espaço?
O JACC foi desde o início confrontado com uma realidade difícil de analisar e de responder. Apesar de ser uma reivindicação por parte de algumas pessoas da cidade, pois nos últimos vinte anos houve grupos informais de pessoas a querer um clube de jazz na cidade, isso só aconteceu em 2013, embora houvesse muitas outras pessoas a trabalhar ciclos de jazz e eventos ligados ao jazz. Mas quando surgiu foi com uma orientação estética e com uma perspectiva acerca do papel de um clube de jazz que afastou uma série de pessoas. A nossa realidade enquanto Associação Cultural que programa, que decide programar e escolhe umas coisas em detrimento de outras, teve algumas resistências, que são perfeitamente compreensíveis, por parte de pessoas da cidade que esperavam outras escolhas em termos de programação e outro tipo de oferta. Não mudando muito a orientação estética, mas tentando fazer um trabalho que se calhar devia ter sido feito desde o início, tentamos formar e criar públicos para um tipo de espaço destes. Acho que apesar de Coimbra ser uma cidade com uma oferta cultural excepcional para a sua dimensão, nunca em nenhum momento deixámos que a ideia típica de que não se passa nada em Coimbra se instalasse. O que de facto existe às vezes é uma dificuldade enorme de comunicar com as pessoas da cidade. É uma cidade muito particular, com o peso que os estudantes têm. O nosso desejo é que o Salão Brazil mude um pouco a forma como o JACC é percebido e que possa ser agregador de uma série de públicos, que ainda estão muito compartimentados. Depois de um ano podemos dizer que as pessoas que receberam melhor o Salão Brazil, as que foram o seu público mais fiel, foram pessoas que repetidamente nos disseram que não saíam de casa há anos. Pessoas de 50, 60 anos, e mais. O que não quer dizer que essas pessoas não possam estar no mesmo sítio com pessoas de 18. Se calhar pela carência de espaços que a cidade tem, o Salão assume esse papel. Efectivamente tem um público que vai desde os 18 aos 70. E isto é a realidade.

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Qual a vossa relação com os outros agentes culturais da cidade?
Boa. O Teatrão, a Casa da Esquina, o Círculo de Artes Plásticas e o JACC, fazem parte de um projecto que se chama Linhas Cruzadas e que tem por objectivo criar um espaço de partilha de recursos e também de experiências artísticas. Teve o seu início em 2013 e planeia-se que continue nos próximos anos e que tenha como resultado o cruzamento, a criação e formação de novos públicos, por parte destas quatro estruturas que trabalham teatro, performance, artes plásticas e música. Portanto, no interface destas quatro estruturas surgir algo de novo e esse algo novo chama-se Linhas Cruzadas. Não é uma estrutura nova por cima dessas quatro, é a tentativa de trabalhar em conjunto para ter uma dinâmica diferente na cidade. Isto é importante porque a cidade tem algumas particularidades e uma delas, que não está suficientemente estudada, é a razão pela qual se trabalha tão pouco em conjunto. Este projecto é muito importante por causa disso, porque pela primeira vez se unem quatro estruturas para, de uma forma planificada, estruturada e ao longo do tempo, desenharem um projecto cultural comum, que tem como parceira a Câmara Municipal de Coimbra e a tutela. É um projecto que tem uma enorme importância e daí deriva essa relação especial com essas estruturas. Com as outras estrutura a diferença é de facto não haver esse espaço de comunicação. O que não quer dizer que não tenhamos uma relação óptima com estruturas a quem repetidamente pedimos ou oferecemos apoio, como a Escola da Noite, a Máfia, com a Universidade através do TAGV. Mas faz uma diferença enorme o facto de se poder falar, de se trocar ideias. Não existindo essa facilidade de comunicação, as coisas continuam a ser difíceis em termos de ligação entre os vários programas que são desenhados por cada estrutura de forma autónoma. Não quer dizer que não deva ser assim, porque cada uma delas tem um projecto artístico, mas a ligação entre esses projectos devia existir, pelo menos ao nível da comunicação. Por exemplo, como é possível não haver uma agenda cultural da cidade? Parece à partida uma falha. Tem vindo a ser suprida por grupos, instituições e pessoas que supostamente não teriam esse papel, como são os magazines culturais, blogues, páginas do facebook. Mas deviam também ser as instituições, enquanto detentoras de um papel fundamental a esse respeito.

O Salão Brazil/JACC pratica preços caros?
Dos 2€ aos 5€. É impossível ter preços mais baixos, talvez até nem seja desejável do ponto de vista do envolvimento que se quer que o público tenha com os espectáculos. O Salão Brazil só existe graças a apoios por parte da tutela e da autarquia. Só existe enquanto estrutura que programa desta forma, que não está sujeita aos critérios do mercado. No final de um ano de actividade, o Salão Brazil é cada vez mais sustentável, como projecto cultural. Isto quer dizer que tem receitas que permitem fazer face a uma parte substancial das despesas. A possibilidade que temos hoje de fazer uma determinada programação, que encaramos como serviço público, só existe porque nós gozamos destes apoios e que são apoios aos quais concorremos, através de um programa artístico. Portanto, o Estado reconhece-nos esse papel. De certeza que se não tivéssemos esses apoios a existência do espaço estaria posta em causa, assim como ele existe. Existem determinados casos em que a vinda de um artista presume que o preço do bilhete seja mais elevado. Também facilitamos e temos a possibilidade de pré-compra, por exemplo, com algum tipo de desconto. Os casos em que o preço é para além dos 5€ são casos excepcionais e tem a ver com os custos de trazer os artistas. Cada concerto implica custos diferentes.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 26 de Setembro de 2013)