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Olhar a OMT/O Teatrão

  BPI_7555No intuito de continuar à procura do que as maiores salas de Coimbra têm para nos oferecer nesta nova temporada, e também o de perceber como se inserem no contexto cultural da cidade, fomos falar com Isabel Craveiro, directora artística da Oficina Municipal do Teatro(OMT)/O Teatrão.

Na sua perspectiva, qual o papel da OMT/O Teatrão no estado da cultura da cidade?
Quando viemos para aqui, em 2008, estávamos muito preocupados em afirmar o espaço como uma possibilidade de ter coisas que a cidade não tinha. Isso mudou entretanto, porque foram acontecendo muitas coisas e foi muito bom. Acho que o facto de termos começado a programar com muita intensidade, a abrir um espaço com uma programação eclética e a insistir em criar uma corrente de público para que as temporadas (e o investimento na criação de um espectáculo) possam depois ter uma temporada mais longa. O Teatrão normalmente nunca tem espectáculos com uma temporada inferior a cinco semanas. E isso é muito importante. Tivemos um grande fluxo de espectáculos, inventámos a possibilidade de o espaço ter duas salas, que é algo que não acontecia, inventámos a Tabacaria que é uma sala um pouco diferente, para espectáculos mais pequenos. De repente, sentimos que provocámos também a abertura de outros espaços e a transformação de outros sítios. Além do mais, a própria programação das salas de teatro alterou-se. O próprio Gil Vicente com a nova direcção que entretanto entrou, teve uma ideia de programação diferente e começou-se, na verdade, a tentar um diálogo entre as estruturas, que era algo muito difícil na cidade. Até chegarmos a este ponto em que agora, por exemplo, a nossa candidatura à DGArtes é um acordo entre nós, a Câmara Municipal, o Jazz ao Centro, o Círculo de Artes Plásticas e a Casa da Esquina. Se falasses nisto há quinze anos, deitava-se tudo ao ar. Ainda existem muitos problemas, mas pronto… Em relação a quando chegámos cá, o desafio é agora mais difícil, porque há sempre uma necessidade de modificar. As coisas estão sempre a mudar, surgem outros espaços, interesses diferentes de programação, surgem novos players na cidade. E isso é um trabalho que está sempre a evoluir, está sempre a mudar. Nós também sentimos que o ritmo que impusemos ao espaço é um ritmo alto, sempre com muita coisa a acontecer. E isto tem a ver com recursos, com equipa. O Teatrão tem uma equipa que, na situação actual do país, é uma equipa enorme. Não é enorme para o espaço nem para a programação que gostávamos de ter. Há algumas coisas em que gostávamos que o espaço se tornasse, nomeadamente que uma data de projectos que nós lançámos ganhassem uma espécie de autonomia. É quase como se O Teatrão fosse uma incubadora de projectos, ligados à comunidade ou apenas de âmbito mais artístico. Mas quer dizer, não esquecemos a nossa vocação que é sermos uma Companhia de Teatro e portanto, devemos fazer espectáculos. Esse é o primeiro objectivo. Quer dizer, focámo-nos muito quando a Oficina abriu nesta ideia do que é programar. Havia toda a experiência do Museu dos Transportes, mas agora precisamos que a própria comunidade tome um pouco conta também disso, que se responsabilize também por isso. Temos a maior abertura para que as pessoas venham e proponham.

E esse sentido de responsabilidade passa para a comunidade?
Acho que passa. Para as pessoas que costumam vir aqui, passa. Primeiro, porque acho que as pessoas se sentem confortáveis, não é um espaço formal, nós tentamos sempre combater isso. Depois, quer com o Fórum d’O Teatrão, quer com o Condomínio Vale das Flores, tentamos que as pessoas façam este exercício de participação, esse trabalho tem sido construído. Temos tido a ajuda do Observatório para a Participação do CES. É um projeto global., como eu acho que um Teatro devia ser. Claro que poderia ser muito melhor, mas há uma data de questões. E não só por causa do dinheiro. As ideias não custam dinheiro.

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Em termos de programação, o que podemos esperar na nova temporada?
O maior desafio foi criar uma coerência entre aquilo que pode ser discutido ao longo da programação. O que custa mais fazer ao Teatrão é estar sempre a começar projectos do zero, porque do ponto de vista criativo é algo complicado. Parece que não fazes uma viagem com as pessoas nas discussões e é difícil criar essa coerência. Acho que a programação deste trimestre não tem a quantidade de coisas que achávamos que fazem falta, mas consegue ter uma coerência do ponto de vista daquilo que é o foco da Companhia neste momento, porque vai numa discussão que tem a ver com o país real. As últimas criações d’O Teatrão têm a ver com a ruína do país, a ruína material e imaterial, a ruína pessoal de cada um de nós. O jogo e o desafio era também pegar nos espaços em ruínas e perceber como é que isso se relaciona com o imaginário destas quatro décadas depois do 25 de Abril e como os sonhos se transformaram em ruínas. E nos quarenta anos do 25 de Abril, isso vai ser uma discussão que vamos fazer para várias faixas etárias. Continuamos a ter nos nossos genes a questão d’O Teatrão ter sido uma Companhia para a infância e nesse aspecto, gostamos de trabalhar transversalmente. Portanto, decidimos pegar numa coisa que nos interessa muito e que tem directamente a ver com as nossas preocupações. Neste caso, pensámos em conhecer o país através do imaginário dos avós e dos netos e que tem muito a ver com uma oficina que fizemos na última programação chamada os ‘Mapas da Cidade’. A próxima produção d’O Teatrão chama-se ‘Viagem a Casa dos Meus Avós’, começaram os ensaios agora, e é construída a partir não só de entrevistas, mas também do próprio material dos actores e de alguns grupos de trabalho que se vão criar aqui por conta do projecto pedagógico d’O Teatrão. Portanto, o grande destaque da programação é a nova produção d’O Teatrão que vai estrear em Novembro. Há o aparecimento dos Lusíadas, que é também uma reflexão sobre o que é hoje Portugal. É uma ideia do nosso amigo, colega e professor, António Fonseca, que consiste em dizer os Lusíadas todos, os 1883 versos. Temos ainda a estreia do exercício final do Bando à Parte, que é um projecto pedagógico muito específico aqui d’O Teatrão, é o segundo ciclo que vai finalizar. Estamos também sempre atentos a esta ideia de que há novos colectivos na cidade que podem apresentar-se aqui. Temos uma relação já criada com o Conservatório de Música e que queremos aprofundar. Destaco também os concertos e nomeadamente o JP Simões que vem cá ainda este mês.

Qual a vossa relação com os outros agentes culturais da cidade?
Venho agora de uma reunião com as Linhas Cruzadas, que são o nosso consórcio, onde estávamos a discutir pormenores do próximo programa, que aliás faz parte da programação, que é o Occupy. É um programa da Casa da Esquina e vamos receber aqui a projecção de um filme e nós próprios vamos ocupar o primeiro andar da Arte À Parte como a casa dos avós. Vai ser uma instalação vídeo fruto das entrevistas que estamos a fazer para a construção do espectáculo e a ideia é que nessa instalação haja também uma relação interactiva do público que vai ver e que deixe o seu testemunho sobre o país que conhece através dos avós. É uma ideia de que é possível. A parceria com os outros é muito trabalhosa, porque não pensamos todos da mesma maneira e é preciso discutir, às vezes dar o braço a torcer. Também são estruturas de tamanhos diferentes. Mas partilhamos todos a ideia de que Coimbra tem muitas possibilidades e potencialidades e portanto, temos de passar daquela parte de ficar a conversar sobre isso no café e fazer. Isso é mais difícil, mas está muito diferente. De uma maneira geral, temos tentado que O Teatrão seja parceiro de toda a gente.

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Quem é o público da OFM/O Teatrão?
São muitos públicos. Por exemplo, como plateia de teatro, é um público educado, não no sentido de se portar muito bem, mas um pouco ao contrário. Temos como público alunos, pais de alunos, pessoas que nos conhecem há mais tempo ou que nos descobriram agora. Mas são essencialmente pessoas que percebem que este é um espaço onde se tenta discutir o mundo de hoje. Tentamos discutir e perceber os problemas do mundo contemporâneo, pois o teatro tem sempre essa discussão implícita, é uma coisa activa, não é estar sentadinho a apanhar seca. Os acolhimentos são muito importantes, porque temos também o feedback dos criadores que se apresentam aqui. Por exemplo, temos uma relação com o São Palco e com muita gente de São Paulo, com companhias brasileiras, com quem trabalhamos muito. E eles dizem que a plateia é muito jovem e que está muito focada. Acho que é um trabalho de décadas e os casos de sucesso, na Europa, no mundo, no país, têm a ver com isso, com um trabalho continuado. E o pior que pode acontecer a um Teatro ou a um espaço cultural é trabalhares com uma política eventual, de eventos. Por isso, mesmo com uma contracção e o não sabermos se as pessoas vão continuar a gastar dinheiro no bilhete e termos medo disso (porque a bilheteira é muito importante para nós), sabemos que é importante que as pessoas continuem a ter uma programação regular. É um espaço municipal, é necessário.

A OMT/O Teatrão pratica preços caros?
Não. Nós praticamos os mesmos preços desde que abrimos. Temos um preço de grupo para espectáculos. A maioria dos espectáculos tem esta opção de as pessoas se organizarem em grupo e terem um preço muito mais barato. Temos os descontos específicos para estudantes, seniores e escolas. Há situações específicas em que precisamos de cobrar um pouco mais, mas isso é sempre conversado com as pessoas e é sempre divulgado.

É difícil conciliar a função de directora artística com a de actriz?
Eu sou a pessoa que trabalha há mais tempo n’O Teatrão. Não me considero assim a directora artística da Companhia. Considero que na direcção artística (que nós todos fazemos porque é uma coisa muito partilhada) há uma direcção que são três pessoas. Vamos tendo sempre responsabilidades diferentes mas é sempre uma estrutura muito partilhada onde as ideias são muito partilhadas entre todos. Na relação com o trabalho de interpretação é muito difícil, porque o que eu gosto mesmo de fazer é teatro e muitas vezes não faço. E não faço porque também tenho feitos alguns projectos do ponto de vista da encenação, onde começo a estudar e a tentar perceber algumas coisas que me interessam do ponto de vista da minha carreira mais pessoal, que se cruzam necessariamente com O Teatrão. Conseguimos ter uma discussão interna muito importante e também com pessoas externas, género conselho consultivo, que convidamos para nos criticarem. É difícil as pessoas criticarem o teu trabalho e isso é muito importante.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 19 de Setembro de 2013)