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Luís Filipe Torgal

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O investigador e professor de História, Luís Filipe Torgal, deixou mais cedo os seus alunos, apanhou a IP3 e veio directo de Oliveira do Hospital até ao Largo da Portagem. A sua cidade é Coimbra, onde existem demasiadas personalidades importantes da nossa História. Gosta de passear na Baixa, mas a Torre do Arnado é um ultraje.

Gosto de Coimbra porque…
É a minha alma mater, porquanto aí nasci e vivi, quase continuamente, os meus primeiros 25 anos, e, evidentemente, aí estudei.

Figura mais emblemática da cidade:
Pergunta de resposta impossível. A cidade foi centro político, durante a Idade Média e, desde 1308/1354 até 1911, por causa da Universidade, foi o maior ou mesmo o único grande centro académico do país. Por isso, são demasiadas as personalidades que em várias épocas passaram por Coimbra e fizeram a história de Portugal. Escolho uma menos conhecida: o republicano, socialista e laico José Tomás da Fonseca (1877-1968). Estudou no seminário diocesano de Coimbra e daí fugiu. Foi membro fundador da Universidade Livre de Coimbra, presidente do Conselho de Arte e Arqueologia de Coimbra e professor da Escola Normal desta cidade. Foi perseguido, preso, demitido, censurado, ultrajado e marginalizado no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo, porque não tinha medo de dizer o que pensava. E pensou e lutou, até ao fim da sua longa vida, por uma sociedade mais livre, democrática e igualitária. Valores, aliás, que os nossos apparatchiks inimputáveis do PSD, CDS e PS e a Europa do euro e do liberalismo selvagem há muito renegaram.

Em Coimbra, irrita-me…
Gosto de pensar que os conimbricenses não são como certos lisboetas, que pensam que Lisboa ainda é a capital do império e que a «província» (ou o «jardim zoológico») começa quando entram na A1 a caminho do norte ou atravessam o Tejo para a margem esquerda, rumo a leste ou ao sul. E também não são como certos portuenses, que desancam no centralismo de Lisboa, mas, depois, pensam e agem como novos-ricos fervorosamente bairristas, que julgam que em Portugal só eles trabalham e produzem e que a sua cidade e arredores são os mais belos locais do mundo.

Sítio preferido (em Coimbra):
Continuo a gostar muito de passear pelas ruas da Baixa, pela praça do Comércio e pela praça 8 de Maio. E também pelas ruas da Alta. Pena é que a maioria das casas destas belas e míticas zonas da cidade esteja tão abandonada e degradada. É urgente preservá-las, restaurá-las, requalificá-las, por dentro e por fora, e devolvê-las, em bom estado, aos estudantes e aos «futricas», aos habitantes da cidade e aos seus comerciantes.

Melhor esplanada (de Coimbra):
Eu gosto das esplanadas das «docas», no Parque Verde da cidade. Mas acho que é preciso fazer muito mais para lançar a cidade para o rio. Por exemplo, era interessante recuperar os velhos elétricos (vermelhos, a cor original, ou amarelos, cor que mais tarde foi adotada) e criar uma linha turística ao longo da margem esquerda do Mondego, que permitisse desfrutar da beleza desse clássico transporte público de Coimbra e fruir das excelentes vistas que daí se obtêm sobre a cidade.

Melhor sítio para comer (em Coimbra):
A crise e as boas políticas deste governo cada vez permitem menos que eu possa desfrutar dos restaurantes da cidade. Gosto, porém, do Zé Neto (Baixa), do Verde Moinho (para lá de Vale de Canas) e da Munique (rua do Brasil).

Melhor sítio para beber copos (em Coimbra):
Lamentavelmente, já não sei responder a essa questão, tão longe estou das tertúlias noturnas que outrora fazia na cidade, junto de velhos e bons amigos.

O que faz no dia do cortejo da Queima das Fitas?
Há demasiados anos que não vou à cidade nesse dia. Mas não tenho nada contra o cortejo e a semana da «Queima», pois quando era estudante fruí sempre das múltiplas atividades (boémias e culturais) que a agenda da Queima das Fitas proporcionava.

Onde costuma estacionar quando vai à Baixa? Dá moeda ao arrumador?
Quase sempre à beira rio, ao lado da Estação Nova. Por vezes, ainda que contrariado e por insistência da minha mulher, dou uma moeda ao «arrumador».

Onde é que não leva um amigo de visita à cidade?
Ao largo ou praça do Arnado, onde existe aquele lamentável «charuto negro», que é incontornável e, por isso, omnipresente em quase todas as vistas da cidade lobrigadas a partir da margem esquerda do rio. Também não o levava ao agónico Centro Comercial Avenida, o atual «elefante branco» que foi construído por cima do cadáver do histórico Teatro Avenida (inaugurado em 1893, com o nome de Teatro Circo do Príncipe Real), que seria hoje um espantoso ex-libris e privilegiado espaço cultural da cidade, se não tivesse sido destruído, no final dos anos 80 do século XX, com a conivência do executivo Municipal e perante a passividade das forças vivas da cidade. Afinal, como aconteceu com a velha Alta desaparecida, a qual foi demolida, nos anos 40, para dar lugar à cidade universitária do Estado Novo (mas aí vivia-se em ditadura…).

Se pudesse demolir alguma coisa em Coimbra, o que seria?
Por exemplo, a torre do Arnado, ou os prédios existentes no cimo da rua de Aveiro, ou um outro colosso com fachadas de tijoleira situado entre as ruas António José de Almeida e Nicolau Chanterenne. Todos eles são um ultraje ao bom senso e bom gosto de qualquer conimbricense ou turista, que aprecie uma ordenação urbanística minimamente coerente e deseje desfrutar das boas vistas sobre a cidade obtidas da margem esquerda do Mondego.

Um espaço desaproveitado (em Coimbra):
Quase toda a Baixa e a Alta estão subaproveitadas, como está desprezada toda a zona ribeirinha que vai da ponte de Santa Clara à margem do rio situada em frente do Choupal. Talvez agora, o estatuto de «património da humanidade» que a Universidade de Coimbra recebeu da Unesco motive os autarcas a repensar essas zonas da cidade.

Melhor concerto/espetáculo/exposição/outro que viu (em Coimbra):
Nunca esquecerei o concerto a que assisti do venerável Carlos Paredes, nos anos 80 do século passado, no Teatro Gil Vicente.

Último museu que visitou (em Coimbra):
O renovado Museu Nacional Machado de Castro e o Museu do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha (que, note-se, Tomás da Fonseca foi um dos primeiros a desejar resgatar da ruína e do esquecimento, ainda nos remotos anos 20 do século passado), que visitei recentemente, no mesmo dia e pela segunda vez.

Para relaxar/estar sozinho, (em Coimbra), vou/faço…
Raramente ou nunca estou sozinho em Coimbra. Mas, se estivesse, gosto de me imaginar a ler, tranquilamente, um livro ou um jornal, algures no Parque Verde da cidade.

Para me informar sobre o que acontece em Coimbra…
Leio, na diagonal, o Diário de Coimbra, que o meu pai assina. Por vezes, dou também uma vista de olhos ao Diário as Beiras, que, no distrito de Coimbra, é vendido com o semanário Expresso.

Estou a responder a este inquérito… [onde? Enquanto faz o quê?]
De Oliveira do Hospital, terra onde vivo e trabalho, pois sou aqui professor no seu Agrupamento de Escolas.

Questionário feito por Carina Correia

(Publicado a 19 de Setembro de 2013)