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Esculturas da Faculdade de Letras

BPI_3483_NIKDando continuidade à nossa viagem através da escultura monumental da Cidade Universitária de Coimbra, dediquemo-nos agora às peças que defrontam a entrada da Faculdade de Letras na Praça da Porta Férrea, sítio que se conhecia, antes da sua reformulação urbanística e arquitectónica, como a Alameda do Camões.

Esta Praça, de entre os demais espaços da Cidade Universitária, conheceu uma densa monumentalização durante os anos quarenta do séc. XX, com a construção dos edifícios do Arquivo (1943-48) e da Biblioteca Geral, que viria a ocupar o lugar que servira de Faculdade de Letras, e com a edificação da (nova) Faculdade de Letras, obras que foram realizadas segundo os desenhos de Alberto José Pessoa, segundo a estreita orientação de Cottinelli Telmo.

O obradouro da Faculdade de Letras começou em 1946, para terminar em 1950, altura em que se removeram os tapumes que o escondiam desde 1943. A inauguração do edifício data de 1951, ano em que tomam lugar as primeiras aulas naquele espaço. O desenho do edifício não recebeu aceitação pacífica, na medida em que o Conselho Superior de Obras Públicas entendeu que este prédio não fazia a necessária ponte estética com o espaço que o cercava, demonstrando interesse em harmonizar este projecto com a urbanidade e arquitectura envolvente, de cariz “tradicional”. Cottinelli Telmo, por sua vez, defendia a construção, servindo-se dos aspectos relacionados com a sua funcionalidade e eficiência, facto que viria a prevalecer contra a vontade do Conselho, nesta demanda pelo respeito e equilíbrio entre o que existe e o que viria a existir. O tom dos pareceres escritos pelo arquitecto e pelo Conselho viria a azedar, com fortes máculas de cinismo, facto que não contribuiu para uma solução consensual.

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Certo é que em 1951 se apresentava ao público a Faculdade de Letras que hoje conhecemos, já com as quatro esculturas que Salvador Garvão de Eça Barata Feyo (1902–1990) idealizou e que intentavam quebrar a densa monotonia da fachada principal, para além de cumprirem outras funções simbólicas, relacionadas com a iconografia de cada uma das esculturas que chama para a actividade pedagógica desenvolvida no interior da edificação, mas que também chama aos ideais do Estado Novo.

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A selecção do escultor para a realização das quatro esculturas fronteiras à fachada principal da Faculdade de Letras prendeu-se com a sua biografia. Licenciado em pintura, escultura e em arquitectura, este artista conviveu com alguns dos mais notáveis intelectuais da época, viajou a Itália como bolseiro do Instituto de Alta Cultura em 1933, participou na afamada Exposição do Mundo Português de 1940, foi conservador dos Museus e Palácios Nacionais, membro da Academia Nacional de Belas- Artes e Professor na Escola de Belas-Artes do Porto.

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As quatro esculturas que antecedem a entrada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra apresentam a Eloquência (na pessoa de Demóstenes), a Filosofia (na figuração de Aristóteles), a História (personificada por Tucídides) e a Poesia (representada através de Safo, facto que terá gerado alguma polémica na época). Trata-se de um conjunto de figuras alegóricas que nos conduz à Antiguidade Clássica, simbolizando a erudição universal que o Estado Novo intentava unir ao nacionalismo, centrando o discurso defronte das Letras na sua significação cultural e pedagógica. Barata Feyo não inaugurou na Faculdade de Letras o discurso alegórico, na medida em que tinha já relevado o Valor, a Lealdade e o Mérito para o Monumento alegórico ao Colégio Militar lisboeta em 1932. Ainda assim, estas peças não conseguem ombrear com outras obras do mesmo autor, particularmente com a figuração de Antero de Quental no Jardim da Estrela (Lisboa).

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Sabemos que o autor realizou trabalhos preparatórios (para além dos seus desenhos) em gesso, três deles guardados no Museu de Santa Maria de Lamas, na sala dos escultores, faltando a peça que representa a enigmática Safo, mas que acreditamos ter existido. As obras definitivas foram montadas em Coimbra antes da inauguração do edifício que lhe serve de pano de fundo, altura a partir da qual passam a guardar a entrada às humanidades.

Observando estas imagens em pedra que defrontam a Faculdade de Letras somos acometidos por sentimentos contraditórios. Aliás, não podemos olhar este grupo sem atendermos ao seu enquadramento, ou seja, não o podemos entender se não o integrarmos no espaço a que pertence. A dimensão das peças diz-nos isso mesmo, a sua figuração alteada remete para o fundo da fachada da Faculdade, a sobrelevação do grupo nos plintos, no topo da escadaria onde se encontram, ajuda a marcar as linhas verticais de todo o edifício.

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Se a altivez das representações as distanciam do olhar que as repele à primeira vista, estadeando junto a cada uma das obras sentimos que o seu silêncio traduz uma certa melancolia. O discurso propagandístico imposto ao autor, o facto de a escultura servir aqui como ponte entre os edifícios que esmagam e a ilustração simbólica à qual deve submeter-se como acessório que minimiza a frieza dos riscos arquitecturais, transformam a luz que estas peças deveriam emanar. E nem a Eloquência dissolve, através da sua gestualidade, porque indiferente e idealizada, esse poder de desarmar a primeira percepção que temos dela. Escapa a este conjunto cru a figuração de Safo com a sua lira, menos densa, ainda que corrompida pela sua própria atmosfera cinzenta e silenciosa, embora revele alguma generosidade no gesto e nas pregas do volume.

Para que possamos admirar este quadro onde as peças se encaixam, temos de rodar para um dos lados do edifício e é a partir dos cantos que a observação ganha corpo e que as imagens começam a querer dizer-nos coisas, aligeirando o tom das suas vozes e parecendo-nos menos presas à pedra. Escolhendo o lugar correcto para a observação desta fachada, com as suas quatro esculturas, sentimos que o escultor, escondido na roupagem da encomenda que o limitou no gesto, encontrou um caminho, seguro, firmado a partir do ponto de vista da observação, que seguramente não é o olhar a partir do centro de todo este cenário, para dar alma às humanidades que representou.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 19 de Setembro de 2013)