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Olhar o TAGV

BPI_6510 No início da nova temporada que nos espera, decidimos conversar com o director do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), Fernando Matos Oliveira, e conhecer melhor o que aí vem. Tentámos também entender qual o papel deste Teatro na vida da cidade.

Na sua perspectiva, qual o papel do TAGV no estado da cultura da cidade?
Em termos do espaço que o TAGV ocupa na cidade, obviamente que é um espaço de bastante relevo e importância. Trata-se da maior sala de espectáculos da cidade. Foi durante muito tempo o espaço com mais capacidade de acolhimento e, apesar de algumas oscilações de programação, foi acolhendo neste período, que é o passado e a memória deste edifício, um conjunto de criadores, colectivos, grupos, formadores, de muitas áreas e daí ter construído esse lugar de referência. Os desafios hoje são um pouco diferentes. O panorama das artes, da programação e da cultura modificou-se. A cidade de Coimbra, apesar de tudo, também tem hoje uma oferta mais estruturada, mais profissionalizada, e, pese as dificuldades, também mais articulada com programas de financiamento, que garantem a continuidade de alguns projectos. Falo do aparecimento de companhias de teatro profissional; de espaços que produzem uma programação mais consistente e continuada; de algumas associações que são hoje entidades de dinamização cultural. E no seu todo fazem com que Coimbra, apesar do discurso das dificuldades e da crise, que é real para todos nós, seja uma cidade que tem uma oferta cultural boa e diversificada. A dificuldade de Coimbra passa neste momento por conseguir trazer espetáculos de referência nalgumas áreas, porque não são espectáculos sustentáveis sem um apoio forte. O TAGV hoje procura encontrar um lugar neste espaço, que é um espaço necessariamente de colaboração, de parceria e de partilha, mas é também um espaço que nós queremos que seja de afirmação positiva de um projecto de programação.

Quem é o público do TAGV?
Os números absolutos das pessoas que passam no TAGV são números de sucesso. Tivemos ao todo quase 80 000 espectadores na última temporada. Posto em perspectiva, é maior que noutros teatros do país e alguns até com orçamentos maiores. Às vezes nem é visível para a cidade, mas o Teatro desempenha um papel de serviço público e de diferenciação de programação na cidade muito importante. Há ainda quem pense que o TAGV é uma coisa antiga. É verdade que o Teatro tem uma fragilidade em termos de oscilação da programação ao longo do tempo, houve períodos de algum vazio por diversas razões e isso prejudica sempre qualquer entidade que faça programação e que viva de mecanismos de habituação e fidelização dos públicos. Independentemente disso, estamos com um programa de renovação do Teatro. Estamos a renovar o Café Teatro, vamos recuperar toda a fachada do Teatro, estamos com um programa de crowdfunding em curso para recuperar as cadeiras interiores do auditório e portanto, acreditamos que no prazo de mais ou menos um ano teremos um TAGV já renovado, limpo, bonito e mantendo este compromisso que estamos a fazer em termos de programação para que ele acrescente a cidade. Isso é muito importante.

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Numa entrevista sua de 2011, referiu que “programar é um acto criativo em si, é condicionar a percepção das artes”. O que podemos esperar desta temporada?
Esta temporada é muito específica porque por um lado a situação do país e das universidades se tornou bastante dramática para todos e portanto, o que estamos a assistir entre todos os nossos colaboradores e parceiros é uma enorme retracção para programar e produzir. O Teatro obviamente sofre com isso. Vou dar um exemplo. Os Caminhos do Cinema Português, que tinham o apoio do ICA, algum apoio da Câmara, da Universidade e também nosso, este ano não vai ocorrer, porque vários elementos desta cadeia não participaram. Mas mesmo assim estamos a manter algo essencial que é uma continuidade na programação de cinema de qualidade, uma continuidade com estes programas internacionais como a École des Maîtres, continuidade na recepção de extensões e festivais, a manutenção do programa do dramaturgo residente e depois a identificação de algumas produções nacionais na área do teatro e da dança, que possam trazer a Coimbra espectáculos e colectivos que não vinham de outra forma. Posso dizer que o nosso investimento crítico vai para aquelas áreas mais frágeis que não podem chegar a Coimbra de outra forma. Nós investimos os nossos pequenos recursos nas coisas que são mais preciosas. Por isso é que temos de fazer escolhas.

Quais os pontos altos?
Eu assinalava que nesta lógica de parceria, por exemplo, e uma vez que a biblioteca da Universidade está a assinalar os seus 500 anos, juntámo-nos para trazer um espectáculo de uma companhia espanhola, que traz um texto que Gil Vicente escreveu em espanhol que se chama o Auto da Sibila Cassandra, que vai ocorrer dia 26 de setembro e depois vai para Lisboa. Temos também a Ópera de Pequim que é uma parceria com o Observatório da China e que no dia 17 vamos acolher. É uma ocasião especial, pois é uma tradição, uma linguagem e uma forma cultural que não chega com muita frequência ao Ocidente. Temos prevista a Gala Internacional de Magia, que tem já 20 anos, que não ocorre apenas aqui no Teatro. Este evento mostra a tal questão da necessidade dos espaços se relacionarem com a sua memória. Se há um evento que tem um público e tem já um trajecto, nós devemos mantê-lo e alimentá-lo e fazer com que ele continue. É válido tanto para a Gala de Magia como para a Festa do Cinema Francês ou outros. Acho que o que interessa a uma cidade como Coimbra é, tendo em conta que é uma cidade com uma população muito específica e com dinâmicas populacionais muito próprias, permitir que esta população diferenciada possa ter uma oferta válida, rica e diversa. E acho que isso está a acontecer hoje em dia.

O TAGV é um Teatro que pratica preços caros?
Não. Temos falado com frequência e temos até feito acertos em programas de bilheteira. Já experimentámos algumas propostas de bilheteira que não funcionaram muito. Mas se compararmos a estrutura de preços do Teatro com a estrutura média nacional, nós estamos abaixo da média. Não acho que sejamos um Teatro caro, pelo contrário. Por aí, até desempenhamos um serviço público. Já houve momentos em que nós financiámos a bilheteira. E a bilheteira é importante! Mas percebemos que o nosso publico não tem capacidade para pagar alguns espectáculos.

Qual a sua opinião sobre o novo Café Teatro?
Achamos que este conceito é bom e é por aí que devemos ir. Não é um restaurante típico, nem vai ser, mas deve ser um espaço com uma oferta diferenciada. Queremos que o espaço seja um Café Teatro e que possa articular a nossa programação com eventos complementares. After parties, depois do teatro, depois do cinema, continuar a fazer pequenos debates, a possibilidade de jantar e depois ir ver um espectáculo, gostávamos que isso acontecesse. É um espaço muito bonito e interessante e teve algumas dificuldades durante algum tempo. O espaço está em construção, não terminou. Esta é a primeira fase de duas fases. E o que queremos é que as condições de convivência sejam as melhores.

Como vê a abertura do Convento de São Francisco?
Obviamente que para o Teatro a existência de um auditório com 1200 lugares do outro lado do rio é muito importante, porque na verdade aquele espaço vai obrigar a que o TAGV se reposicione e eventualmente, para nós isso é claro, haja alguma coordenação de programação. Não é possível numa cidade como esta existir um espaço com 750 lugares e outro com 1200 que não falem entre si. A cidade não aguenta se, por exemplo, se marcam dois eventos de grande escala no mesmo dia. Nós temos isso como experiência. Portanto, o que é claro para todos é que é preciso dialogar, coordenar programação de modo a que não haja atropelos e encontrar formas de parceria, porque por vezes há coisas que se calhar poderiam funcionar melhor no espaço do Convento de S. Francisco e outros, como o teatro e o cinema, têm aqui uma escala mais próxima daquilo que é a lógica destas duas artes hoje. Ninguém hoje, como sabemos, precisa de um auditório de 1200 lugares para projectar cinema. Depois há uma questão maior que essa, que tem que ver com a sustentabilidade do espaço do Convento de S. Francisco, uma vez que ele vai ser muito exigente para as finanças da Câmara e uma vez que muitas das entidades que em Coimbra fazem programação dependem desse financiamento também. No caso do Convento de S. Francisco era preciso construir uma rede de mecenas que seja a rede também da economia regional que possa fazer e adoptar aquele projecto como seu. Vejo por aí uma saída, um interface rentável para alimentar o financiamento. Uma das coisas que fica claro para quem visita aquele espaço é que a cidade vai ficar num lugar totalmente diferente quanto à capacidade de acolher exposições em artes plásticas e pode subir muitos degraus no contexto nacional. Seja qual for o caminho, a programação tem de ser dialogada e participada em termos de cidadania. Há uma tradição, em Portugal, sobretudo em equipamentos culturais de grande escala, de se construírem equipamentos que depois não têm projectos de programação e sustentação. Estes equipamentos geram encargos continuados, não são tendas que se montam e que depois são ocupadas de modo indiferenciado.

O director do TAGV vai aos espectáculos?
Pois, não vai a todos (risos). Nós fazemos programação muito diferenciada e também trabalhamos como uma equipa. A direcção do Teatro tem assim uma maior capacidade de resposta. Vamos dividindo, até consoante os nossos compromissos pessoais e profissionais.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 12 de Setembro de 2013)