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As camisas atómicas

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É em exemplos como este que a expressão “do it yourself” faz todo o sentido. Zé André faz camisas à mão e tem a sua própria marca: a Z’tomic ShirtsThe Best Shirts in Town.

A história é simples de contar. “Eu costumava mandar vir roupa de fora, até que um dia tive uma grande decepção com uma camisa que mandei vir. Perante o dinheiro que gastava, e o que gastei particularmente dessa vez, pensei: ‘porque não tentar fazer as minhas próprias camisas?’”, conta ainda com a lembrança evidente no rosto. E assim foi. O fio começou a desenrolar-se.

O ponto de partida de Zé André foi um redondo zero. Não tinha experiência alguma em aplicar a arte: “não sabia coser, não sabia pegar num molde, nem trabalhar com uma máquina de costura”.  O processo de aprendizagem foi demorado. Contudo, nada que com uma grande força de vontade e um grande trabalho de pesquisa, não se conseguisse. “Existem vários sites na internet que ensinam a fazer medidas de moldes, isso não foi o mais difícil. Mas depois de passares para o papel, o complicado é fazer”, confessa. Desde juntar as peças, a cortar o tecido, a fazer todos os pormenores de costura, o percurso complica-se. “Lembro-me que demorei meses a descobrir como é que se cosia apenas uma gola”. E adiantamos desde já que a sua avó também foi dando algumas dicas.

A verdade é que foi melhorando e aprendeu. E no espaço de um ano e meio, passou de fazer camisas só para si a vendê-las também. Os amigos foram importantes para dar este salto. “Muita gente amiga olhava para as minhas camisas e questionava se tinha sido mesmo eu a fazer, que estavam impecáveis”, diz entre (largos) risos. Refere nomeadamente a sua namorada e um amigo que o incentivou a fazer algo mais sério.

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A partir daqui, criou um nome e trabalhou a parte do design da marca, também com a ajuda de uma amiga designer. As camisas baseiam-se no conceito dos anos 40 e 50 e dum estilo que nasceu nessa época chamado Atomic Shirts ou Two Tone Shirts. “Pegando nesse conceito e juntando o Z de Zé dá Ztomic”.

Inicialmente, as camisas eram vendidas em Portugal, entre amigos e conhecidos, entre Coimbra e Lisboa. Até que um certo dia, “e sem perceber muito bem o porquê”, começou a vender para França e Bélgica. E, mais recentemente, foi contactado por um norueguês proprietário de uma loja, a ‘Angel’s Speed Equipment’, que viu fotos das suas camisas, perguntou quantas tinha disponíveis e comprou-as todas. Foi nesse preciso momento que Zé percebeu, sem grandes dúvidas, que “existe um mercado a explorar”.

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A forma como trabalha, não lhe facilita a vida. Além de fazer as camisas, escolhe e compra os tecidos, faz trabalho de venda e entra em contacto com as lojas. “Faço tudo sozinho”, diz sem queixume. E já que falamos em tecido, convém continuar a falar, porque para Zé a diferença das suas camisas reside precisamente na qualidade dos tecidos. “Como diziam os antigos, o tecido é que veste. E é o cair do tecido que faz toda a diferença”, informa-nos. “Vejo muita malta, mesmo fora do país que tem camisas dessa época mas com tecidos que na altura ainda nem se usavam”. E é também por isso que “passo horas em armazéns a escolher os tecidos que quero, a sua qualidade”. Aliás, os preços das camisas variam consoante o tecido usado. Como fez questão de acrescentar “compro tecidos que são caros, o meu lucro é mínimo, nem conto a mão-de-obra”.

Alguém faz ideia de quanto tempo demora a fazer uma camisa assim, desta forma? Nós também não sabíamos. “Neste momento, por dia, com oito horas de trabalho consigo fazer duas camisas. Mas não foi fácil chegar lá. Agora já tenho as coisas rentabilizadas e pensadas de forma a que isso aconteça”. E isto tudo trabalhando unicamente com uma máquina de costura, daquelas antigas, as Oliva. “A ideia será em breve conseguir ter duas ou três máquinas industriais para, mesmo sozinho, optimizar a produção. Ando a pesquisar o mercado das máquinas”.

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Para criar as suas camisas, Zé André inspira-se no conhecimento que adquiriu ao longo da vida sobre este estilo de época e que é o seu próprio: “não foi algo em que caí de para-quedas, já o vivo há muitos anos e é um verdadeiro gosto meu”. Obviamente que lá surge uma ideia vinda de uma revista ou de algo que lhe chama a atenção.

As camisas são para homens, não haja dúvidas. Entre tamanhos M, L ou XL, os senhores podem adquirir uma camisa a rigor. E as senhoras? Bom, as senhoras remetem para uma questão que Zé ainda não tem definida e que faz, possivelmente, parte de futuros planos. “Fazendo camisas dos anos 40 e 50, às vezes 30, estou a entrar num segmento de mercado muito restrito. A partir do momento que entro na roupa de senhora, e falo em vestidos, abro o leque e todas podem usar. O vintage até está na moda”. Portanto, não é uma questão que descarte, só que ainda levará algum tempo. Na verdade, percebemos depois, a questão essencial mesmo é que “fazer vestidos exige um conhecimento técnico que ainda não domino, mas já estou a trabalhar nisso”. As senhoras agradecem.

Entre tesouras, fitas métricas, alfinetes, marcadores de alfaiate e afins, Zé André gostaria mesmo era de um dia “criar uma empresa e contribuir para o crescimento do país”. Tendo a certeza no entanto que nunca venderia algo que “não soubesse fazer à mão”. É o sonho que comanda a vida, certo?

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 5 de Setembro de 2013)