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A escultura de D. João III

BPI_2368Conforme ao que prometemos durante a semana passada, trazemos hoje às folhas da nossa revista a segunda parte do roteiro dedicado à escultura monumental da cidade universitária coimbrã, escolhendo, para o efeito, a imagem de D. João III no seu Paço, ou Pátio das Escolas.

À volumosa destruição da velha Alta da cidade sobrou este Pátio que, ainda assim, viu o seu aro derribar-se para dar lugar a novas construções, como já assinalámos. O facto do Pátio das Escolas se constituir como Monumento Nacional, classificado em 1910 (Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 Junho 1910), não foi determinante para que este espaço tivesse sido relativamente poupado, na medida em que as obras de reformulação urbana e arquitectónica, pensadas a partir dos anos 30 de novecentos, não respeitaram várias zonas de protecção estipuladas nas primeiras décadas do século. Durante os anos quarenta do século XX, viviam-se anos de grande euforia reconstrutiva, construtiva, desobstrutiva e também demolidora. Ainda assim, o CAPOCUC (Comissão Administrativa do Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra) poupou o Pátio das Escolas, derribando o Observatório pombalino (1951) e reorganizando os espaços administrativos, facto que levou à transfiguração da ala do Colégio de S. Pedro, entre outros casos, sobre os quais não vamos delongar-nos.

O Pátio das Escolas situa-se no lugar do velho Paço Real de Coimbra que, por sua vez, substituíra a velha Alcáçova real, lugar emblemático e simbólico da cidade que ajudou a determinar a permanência da cidade universitária no lugar onde ainda hoje reside. Este Pátio resulta, afinal, do Paço das Escolas, ou seja, do primordial Palácio Real português que consubstancia a Escola, ou o espaço do Saber.

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Durante o tórrido ano de 1527, quando durava a peste em Lisboa e em Almeirim, muda-se a corte para Coimbra, passando a residir no Paço Real. A partir da vinda do Rei e da corte, vive Coimbra momentos áureos, especialmente a velha Alta que decaía há tanto tempo. Se a estadia anterior de D. Manuel trouxe a Coimbra um novo fôlego humano e construtivo, a estadia de D. João III permitiu reanimar a Almedina, então já em fase adiantada de ruína. Com D. João III chegaram a Coimbra alguns dos mais notáveis artistas e intelectuais de então, passando a cidade a fervilhar de ideias, reformando-se, modernizando-se e edificando-se. Entretanto tomam lugar as reformas (escolares) de Santa Cruz, constroem-se novos colégios, rasga-se a Rua da Sofia, estabelecem-se os estudos menores (pré-universitários, laicos e eclesiásticos), chegam a Coimbra mestres formados no exterior do país (Paris e Alcalá) e no ano de 1535 Coimbra encabeçava já o centro dos estudos preparatórios nacional. Não faltava muito para que a transferência da (definhante) Universidade lisboeta tivesse lugar.

Em Março de 1537 estava a Universidade a chegar a Coimbra, repartida, ainda assim, entre Santa Cruz e a casa do Reitor no Paço Real. Definidos depois os contornos da nova Universidade de Coimbra, e harmonizadas as forças e os interesses que dividiram a Coroa e Santa Cruz durante anos, estabelecem-se em Coimbra o ensino das Artes e o ensino universitário, este segundo instalado no Paço pela mão do Rei que, a partir de 1944, viria a representar-se nesse mesmo espaço.

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O contrato entre a CAPOCUC e o escultor Francisco Franco para a realização da escultura de D. João III data de 1944 e o seu lugar, na praça da universidade, tinha já sido escolhido. Não deviam restar dúvidas quanto à colocação da figura do Piedoso no Pátio das Escolas, representando-se voltado para o lugar que ele próprio cedera, em 1537, para acolher os estudos. E nenhum outro espaço, ou monarca, possuem um valor representativo tão elevado, facto que terá demarcado este contrato e execução durante as obras da cidade universitária dos anos quarenta do séc. XX.

Esta escultura emparceirava com a de D. Dinis, determinando que o fundador da universidade portuguesa e o refundador se projectariam, um para a entrada na cidade universitária, e ou outro para o seu coração, pela mão do mesmo escultor que definiu as personagens dando-lhes formas diferentes. Para a configuração de D. João III escolheu o escultor um novo retrato, baseado em várias fontes de inspiração das quais destacamos o retrato do Rei realizado por António Moro em 1552 (Madrid) e as tantas figurações de Henrique VIII materializadas a partir do risco de Hans Holbein (o Novo). Francisco Franco desenhou o Rei à maneira de um possante e pensativo homem de cultura do século XVI, que admira, com orgulho, o velho Paço transformado em Casa de Sabedoria. Tal como na figuração de Hans Holbein, D. João III empunha as luvas na mão direita, pendendo-lhe à cintura uma adaga. A diferença entre as poses das duas personagens reside no facto da mão esquerda do Rei português estar segura ao espesso bloco de pedra onde se encosta. Sobre o vestido simples do Rei colocou o escultor um colar com a cruz de Cristo portuguesa, e a forte capa de arminho que oferece volume e jactância à imagem.

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Tal como fez com a escultura de D. Dinis, Francisco Franco colocou D. João III sobre um pedestal, encostando o Rei ao volume que se adensa e sobe, por detrás, até à altura da cintura. Esta opção formal definiu uma personagem que se apoia no sólido de forma descontraída, de pose aligeirada, como se tivesse sido esculpido no momento em que se encostava a um qualquer objecto para conseguir estadear o olhar na sua obra com tempo. É este jogo com o tempo que esta obra explicita, tanto quanto a anterior, e é este olhar que se perde no sonho que nos prende ao homem que aqui se representa e que aqui vos queremos deixar.

E quando entramos no Pátio das Escolas podemos, a caminho do espaço que pertenceu ao Observatório, e que se constituía como o fundo desta escultura que agora assoma sozinha, parar para nos confrontarmos com a calma que D. João III nos transmite porque, na realidade, o que ele nos diz é que cumpriu o que tinha destinado, mesmo a partir de Lisboa, transferindo para Coimbra a Universidade que nunca mais de cá saiu.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 29 de Agosto de 2013)