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Profissão: Ilustrador

BPI_2207 «Para mim, desenhar é a melhor forma de viajar…/com a folha em branco…/sem destino previsto…/deixo-me levar…/pelas linhas que vão surgindo…/e as histórias que elas querem contar…/observo…/reajo…/desfrutando da viagem…/até que ela termina…/e a próxima começa!».

Estas são palavras de André Caetano, 30 anos, ilustrador. Foram escritas e ilustradas por si para uma revista de banda desenhada cuja temática era “o desenho e eu”. Ficamos a perceber desde já, e de forma clara, o que representa o desenho na vida de André.

Se é verdade que o talento é genético, este é um dos exemplos. “A minha mãe pinta e o meu irmão faz música e teatro”, contou-nos. Desde sempre foi incentivado a desenhar: “em casa sempre juntámos o desenho ao contar histórias e de certa forma isso influenciou-me a gostar da ilustração”. E o gosto permaneceu.

Contudo, outro gosto foi marcante no seu percurso: o gosto pela banda desenhada. “Quando era mais novo lia os clássicos como o Asterix e o Lucky Lucke, mas depois no secundário descobri a revista Lanfeust de Troy, de que gostava muito, e percebi que queria fazer aquilo”. O tempo passou e a altura de escolher um curso impôs-se. André não sabia ainda o que era a ilustração ou o que era ser um ilustrador e foi só na Faculdade que descobriu. Entrou no curso de Design de Comunicação na Escola Universitária de Artes de Coimbra e confessa que foi lá que conheceu diversas áreas, autores e foi alargando os horizontes. Ao longo do curso, a vontade de fazer um projecto de banda desenhada não o abandonou e acabou mesmo por fazê-lo como trabalho final: “um livro de banda desenhada escrito por mim”. Curiosamente, acrescenta, “no início do curso não gostava de arte a computador e acabei a fazer um trabalho totalmente digital”, confessa-nos enquanto percorre a prateleira em busca do livro “Um Último Encontro”, para nos mostrar.

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Após ter terminado o curso, André esteve um ano a trabalhar no Instituto Pedro Nunes, com uma bolsa. “Fiz cartazes, logótipos, mas o que me deu mais gozo fazer foi, juntamente com um colega, um jogo em 3D. Tive de modelar e animar em 3D”. A meio desta bolsa, André conheceu a escritora Lurdes Breda, que o convidou a ilustrar o livro de sua autoria “O Abade João”. O processo de ilustração demorou perto de três anos, pois “fui investigar imenso sobre a época e o grafismo medievais, para transportar para o livro”. Aliás, “foi o livro com o qual mais aprendi, porque na verdade só tinha feito ilustração para a faculdade”. A partir daqui não mais parou.

Diversas ilustrações para livros se seguiram, outros tantos trabalhos de banda desenhada, mais umas quantas ilustrações para revistas e blogues e ainda trabalhos de design gráfico. Trabalhou com autores e editoras de referência, bem como para empresas. Ganhou prémios e distinções. Convidamos o leitor a dar uma vista de olhos ao seu vasto currículo na sua webpage, endereçada aqui.

Para todo o trabalho de ilustração, André empreende antes um trabalho de pesquisa. Por um lado, porque diz-se “bastante curioso e interessado em diversas áreas para além da arte” e por outro, porque “me ajuda a fazer um trabalho melhor”. Dá-nos até um exemplo recente: “ilustrei agora uma banda desenhada sobre células estaminais e para isso, tive de estudar bastante. Claro, aprendi imenso”.

André gosta igualmente do contacto com as pessoas e de não ficar só no seu atelier a desenhar. Várias são as experiências nesse sentido. Foi, com alguns dos seus trabalhos, a diversas escolas do país e “adorei esse contacto com as crianças e como eles vêem um ilustrador”. Mas o contacto com os autores também é algo a que se permite, “sempre fui a festivais de BD mostrar o meu trabalho e ter feedback dos autores, tendo já melhorado trabalhos por causa disso”.

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A técnica que utiliza é a tinta-da-china e pincel e ultimamente a cor é feita em computador. O seu traço é bem marcado, diríamos mesmo inconfundível. “A tinta-da-china e o pincel favorecem o meu traço. O pincel não faz atrito no papel e não parece que estou a desenhar, mas sim a deslizar”. Contudo, não se vê só a ilustrar, “também gosto muito do design gráfico, que é um exercício diferente e gosto de ir variando”.

Partilhamos, por fim, algo que André nos contou e que é uma grande marca da forma como trabalha. “As minhas ilustrações costumam começar sempre por uma lista de palavras: do que quero dizer, do que o texto diz, de algo que me dá uma ideia, e é a partir daí que começo a desenhar”. Psiu! Não contem a ninguém.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 22 de Agosto de 2013)