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Coimbra: Capital do Rock? (PT2)

BPI_9555Dizem que Coimbra é a Capital do Rock. Dizem por ai, à boca cheia. É como aqueles emblemas que se cosem nas capas da cidade, cada um a querer criar uma identidade própria. Continua aqui o nosso processo de empilhar palavras, desconstruir a torre que se ergue sobre a cidade com o epíteto de Capital do Rock. Ficam aqui mais 5 dissertações sobre o slogan atribuído. Gerações diferentes, formas de pensar e estar. Porque não é necessário catalogar o que se sente perante a arte de fazer música. “Coimbra, Cidade do Rock”, apenas mais uma, entre todas as cidades do Mundo.

BPI_0491  TONI FORTUNA (É’Mas Foi-se, Tédio-Boys, d3o)

Eu não acho que Coimbra seja capital ou cidade do rock. A “cidade” nunca fez nada para ajudar, dinamizar ou promover as bandas que cá se formaram ou vão formando. Acho o termo bastante empolado e de “fácil” acesso para jornalistas e afins.

Acredito, sim, que as pessoas que se vão encontrando, juntando e conhecendo em Coimbra têm vontades e necessidades, e assim as bandas vão surgindo (tanto agora como há uns anos…), tocando e saindo da cidade à conquista do mundo.

Acho que o rock, as bandas e todos os projectos que surgem ou surgiram na cidade de Coimbra são fruto das pessoas, que na altura estavam ou estão cá, mas poderiam estar noutro sítio e desenvolver projectos semelhantes. Gosto da cidade (q.b.), mas não gosto da expressão, considero redutor para quem verdadeiramente quer fazer “coisas”!

BPI_9362_BluePEDRO CHAU (Garbage Catz, 77, Blood Safari, The Parkinsons)

Não estava a viver em Coimbra quando tomei conhecimento desse rótulo que a imprensa musical portuguesa tinha atribuído à cidade pelo facto de algumas bandas, ligadas a diferentes formas de rock, terem conseguido captar um determinado público e atenção por parte dos média.

Estávamos no início da década passada e tudo parecia ser aquilo que nunca foi. Ou seja, foi uma oportunidade que não foi explorada por quem governa a cidade. Em Coimbra, a cultura da música Rock é marginalizada pelas instituições que sempre governaram, pelo facto de nunca terem apoiado devidamente os seus criadores, nem proporcionado a existência de pequenos festivais ou mesmo aqueles concursos de musica moderna como havia nos anos 80, e que funcionavam como uma forma dos jovens mostrarem as suas ideias, a sua arte e aquilo em que acreditavam.

Para mim, chamarem Coimbra de capital do rock é algo embaraçoso. Só espero que as pessoas tomem consciência que não faz mais sentido nem é importante pensar a música nesses termos. É possível que o mito continue a viver na imaginação de pessoas que não são da cidade. Quem vem para cá, com certeza se vai desiludir com o que vai encontrar. Penso que esse rótulo é negativo porque criou expectativas nas pessoas que nunca se puderam realizar. Existe uma falta de carácter urbano e industrial na cidade para que estilos como o rock’n’roll ou o hip hop possam explodir, mas isso não impede de haver uma pequena cena musical onde alguns grupos e Djs se possam afirmar, mas quase sempre sem apoios.

BPI_1102 RAQUEL RALHA (Belle Chase Hotel, WrayGunn)

Este assunto tem-se tornado motivo de tanta discussão ao longo de tanto tempo, que se está a tornar numa neverending story

Coimbra, Porto, Braga, Lisboa, … são alguns dos exemplos de locais onde o rock se materializou como resultado da coexistência de determinados factores, fossem eles a necessidade de expressão, o mero aborrecimento, o “sangue na guelra”, as influências da música que vinha de fora trazida por amigos, ou apenas as idiossincrasias das pessoas que começaram a mexer-se dentro desse género musical.

Houve muitas bandas em Coimbra numa determinada altura a fazê-lo, é verdade.
Mas houve muitas outras bandas na mesma altura a fazê-lo noutros pontos do país. E, ao contrário de outras cidades, Coimbra até nem tinha quase sítios para as bandas tocarem ao vivo…

Para mim não faz sentido essa compartimentação. O rock está dentro das pessoas que o fazem de modo genuíno. Essa é a questão mais importante. Desde que essa premissa seja uma realidade… Há é que celebrar a diversidade e a universalidade musicais, acima de tudo.

BPI_9411RICARDO “LIBELINHA” MARTINS (Fitacola, A Velha Mecânica, Full Damage e Fight Today) 

Quem é mesmo de Coimbra, ou por alguma razão nela criou raízes, certamente que já tomou contacto com essa reputação quase internacional que Coimbra é a capital portuguesa do Rock. Mas que história é esta? Afinal de onde vem tal fama? Para irmos à fonte deste epíteto, temos de recuar até aos últimos anos da década de oitenta. Para percebermos o rótulo, temos de perceber a cidade e o contexto social em que se inseria. A cidade encontrava-se num processo de divisão entre os seus nativos e a vida académica onde a praxe voltava em força hostilizando em certa medida os jovens não estudantes da cidade, criando nestes um sentimento de que a cidade não mais era deles e que havia sido tomada pela multidão crescentemente embriagada de morcegos. Os jovens da cidade tinham de a viver, tinham de se divertir, tinham de a reinventar e encontrar o seu espaço. Espaço físico e cultural. Aos poucos, a circundância de cafés da praça passou a ser o ponto de encontro destes filhos rejeitados da cidade. Primeiro o Mozambique, depois o Académico, o Luna e o Tropical. Aqui não se vivia nem o fado nem as tunas. Aliás, a mensagem aqui era bem oposta a essa. Era o tempo em que o passatempo era matar o tempo. A coca-cola era billy e para os estudantes não ia nada, nada, nada… acreditem. A filosofia era a deste niilismo rejeitado.

Quando o Estado Novo quis à força impor a cada cidade e região um folclore distinto, coube a Coimbra ser a cidade dos estudantes. Ser cidade madrasta. Nessa altura, ser madrasta significava ser como uma mãe voluntária que dava amor aos que a si vinham para estudar e os adotava como filhos. O problema é que esta madrasta tão compenetrada na sua missão, se foi esquecendo dos seus filhos biológicos e os foi abandonando. A reação foi simples. Frequentaram-se espaços alternativos, criou-se uma cultura alternativa. Fotografia alternativa, pintura alternativa, cinema alternativo e música alternativa. É principalmente na música e na estética visual que a ilustra que a capital do rock surgiu. O rock é ele também um movimento social resultante da rejeição de uma sociedade injusta e elitista. Era a fórmula que assentava na perfeição em Coimbra. As bandas iam aparecendo e formando esta identidade, deixando o seu legado. Os concertos eram celebrações desta forma de viver a cidade, a música.

Em boa verdade, sendo realistas, a coisa nunca foi um fenómeno social. A “cena” era praticamente composta pelas bandas, os amigos, os colegas e os fãs. Sempre fomos uma minoria absoluta. Então o que explica a disseminação do “rótulo”? Em primeiro, o passa-palavra, o boca-a-boca, os relatos vivos dos concertos, as fotos, os cartazes, as cassetes que passavam de mão em mão. Em segundo, as próprias bandas foram criando fama própria e iam conseguindo chegar a outras cidades. Os músicos na altura se calhar não eram brilhantes nem os mais virtuosos, mas a cena vinha do coração. Era pura, intensa e honesta. Cada banda era um estandarte vivo da cidade. Tantas bandas da cidade a tocar aquele som, com aquela atitude, deixavam no imaginário de quem os via e com eles ia travando amizade, a ideia de que em Coimbra era tudo assim e sempre assim. Em certa medida até era, mas a dimensão era bem mais pequena do que o que se podia imaginar.

Na verdade, a reputação que criamos deriva do amor que pusemos ao serviço da música que fizemos, da postura como que agarrávamos nos instrumentos, na paixão que apesar de tudo temos pela cidade que não nos amou. Não há banda que surja nesta cidade que não sinta o peso da herança histórica de ser uma banda de Coimbra. Mesmo até das bandas de estudantes de fora que se constituem aqui.

Percebo bem o entusiasmo das bandas do circuito alternativo em vir tocar a Coimbra. Não deixo de me sentir frustrado e de partilhar a desilusão destas quando se confrontam com a realidade dos concertos pouco participados. Mas é assim… a capital do rock não existe na prática. Existe apenas nos nossos corações. É um fruto do nosso amor. É algo que nos liga …e somos tão poucos. Afinal, “isto já não é o que nunca foi”, mas eu gosto assim. Seremos sempre orgulhosos filhos do tédio.

BPI_0711 JOÃO RUI (A Jigsaw)

Do que me recordo, a primeira vez que ouvi este termo foi num artigo do Blitz, quando ainda era um jornal. Aliás, quando era um jornal semanal. Era um texto acerca das bandas de Coimbra da altura e julgo que foi aqui que foi cunhado o termo. Na altura desse artigo que naturalmente se centrava nos Tédio Boys (e julgo que também nos Belle Chase Hotel), os Tédio já tinham feito as suas incursões em território estrangeiro sem que os jornais falassem deles, portanto foi algo que veio já depois de terem conquistado terreno lá fora. E assim lembraram-se que afinal valia a pena centrar as atenções na cidade de Coimbra. Talvez tenha sido uma espécie de apologia da falta de atenção. Há que recordar que antes desse reconhecimento do que se passava na cidade, existiam dois polos onde os média se centravam no que dizia respeito à música, que eram Lisboa e Porto, portanto isto muito agradou às bandas de Coimbra que de imediato arrecadaram esse termo como uma espécie de estandarte.

Claro que fazia sentido a expressão, na medida em que aqui tínhamos exemplos de bandas que sem o apoio de Editoras de grande porte ou sequer dos média estavam a conseguir deixar marcas indeléveis na história da música Portuguesa. E se tivermos em mente o termo Rock como o da sua génese de rebeldia ou em extremo quase de anti-sistema, então nada mais correcto.

Contudo se hoje se pode continuar a manter a expressão? Não vejo porque não, pois a quantidade de excelentes projectos oriundos de Coimbra continua a atestar a veracidade da mesma. Exemplos como os Wray Gunn, Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders, Tiguana Bibles, BunnyRanch, D3O, Subway Riders, Birds Are Indie, Casino Royal, e outras tantas são prova disso. Pena é que quem “manda” e “gere” a “nossa” cidade, não tente tirar partido deste estatuto de “Capital do Rock”.

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Fica o documento, o registo das 10 pessoas que colaboraram nesta tentativa de arquivar este rótulo pequenino que muitos teimam em manter. Músicos activos da cidade, pessoas ligadas à arte e à paixão da música. Reflexões críticas. Vale o que vale, como tudo na vida.  Mesmo no final, um breve texto de Álvaro Costa (radialista, apresentador) – apaixonado pela comunicação em geral – sobre o assunto em questão. Quase que nos apetece embrulhar a cidade noutra epígrafe. Que se derreta a Taça.

“Em tempos houve uma competiçáo europeia : A  Taça das Cidades com Feira, nome bizarro para a ex futura Taça Uefa, agora Liga Europa.
Imaginei uma versão musical: A Taça das Cidades banhadas por Rio que juntasse Memphis, Paris, Londres, Nova Iorque,Coimbra…
Tenho uma teoria que as cidades fluviais produzem musica intensa, revolta, imprevisível como as formas que os caudais das suas estradas aquáticas podem tomar.
Coimbra, Mississipi, ou Bazofias City West, “escondida” algures, numa imaginária Interstate 1, capaz de produzir a melhor Porkabilly Psychosis do planeta, uma especialidade dos Tédio Boys, o chamado Tipping Point de Malcom Gladwell, o ponto sem retorno da cultura pop.
Coimbra é uma cidade com Gravitas. Peso. Memória. O rock and roll faz parte da herança da Lusa Atenas.”Álvaro Costa.

Texto de Bruno Simões
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 22 de Agosto de 2013)