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A escultura de D. Dinis

BPI_2366Decidimos iniciar, com este pequeno artigo sobre a escultura de D. Dinis, um breve roteiro dedicado à escultura pública e monumental da cidade universitária de Coimbra. Esta opção prende-se com muitos aspectos dos quais ressalvamos um que nos serve como objectivo: a divulgação de informação, ainda que limitada, sobre o conjunto escultórico que acompanha a obra de reconformação urbanística e arquitectónica ideada a partir dos anos trinta do século XX. Em boa verdade, todos passamos por estes espaços, e sabemos reconhecer a importância central que o seu grupo escultórico detém no contexto da cidade, conhecemos alguns nomes que fomos dando a determinadas esculturas mas, e ainda assim, nem sempre prestamos a devida atenção a este núcleo, talvez porque nos familiarizámos tanto com ele que o perdemos no nosso horizonte de memórias. Vamos, por isso, tentar parar por um instante nestas imagens que preenchem um espaço fulcral da nossa cidade, tentando descobrir o que elas nos dizem todos os dias.

A escultura que deu o nome ao largo de D. Dinis, na Universidade de Coimbra, é uma peça fundamental no imaginário local. Trata-se de uma obra que representa a figura do criador da Universidade portuguesa, na época nomeada como Estudo Geral. A assinatura do documento Scientiae thesaurus mirabilis, que deu origem ao nascimento do Estudo Geral Português, tal como a confirmação desse acordo, através da bula de Nicolau IV, De statu regni Portugaliae, datam de 1290. Nessa altura instituíram-se quatro faculdades: Artes, Cânones, Leis e Medicina. Data de 1308 a primeira transferência dos Estudos para Coimbra e, para acolher as lições, foram arrendadas algumas casas na alta da cidade, já na altura a ameaçar ruína . Depois disso foi construído, sob a égide do Rei, um edifício para o efeito, na vizinhança da alcáçova, onde agora se implanta a Biblioteca Geral. Um século depois já se conheciam as primeiras ideias sobre a necessidade de transferir-se o Estudo Geral para outro lugar mais amplo e desafogado, mas o período do reinado de D. Fernando não permitiu dar andamento à questão por falta de verbas para o efeito, passando os Estudos para Lisboa.

O Estudo Geral deambulou entre Lisboa e Coimbra para fixar-se definitivamente na cidade do Mondego em 1537 pela mão de D. João III, que também se fez representar no programa urbanístico novecentista da cidade universitária.

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Sabe-se que a encomenda da escultura representando D. Dinis foi realizada pela Comissão Administrativa do Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra (CAPOCUC) ao escultor Francisco Franco, para ocupar a praça onde ainda hoje reside, substituindo o obelisco que se planeou e regista numa das maquetes da cidade universitária datada de 1942. O acordo de encomenda da representação de D. Dinis data de 16 de Agosto de 1943 e nele se requeria a entrega do primeiro desenho da peça. O modelo final deveria outorgar-se em Março do ano seguinte.

A figuração de D. Dinis no espaço universitário coimbrão constitui-se como uma escolha essencial, na medida em que este foi o Rei que deu início ao caminho que culminaria com as manobras reedificatórias da cidade universitária dos anos 40 aos 70 do século XX. Esta encomenda inscreve-se, por isso, num programa mais vasto e que deu azo, entre outros, ao plano urbanístico e arquitectónico da cidade universitária da cidade de Coimbra que se delineava sob as ideias de um vasto conjunto de sujeitos, de entre os quais se destacaram Ângelo da Fonseca e Abel Urbano, os planos da primeira comissão de obras (1934-36), Salazar e, por fim, Duarte Pacheco e Cottinelli Telmo que deteve a maior importância neste assunto, encabeçando a CAPOCUC até 1948, altura em que entrou em cena Cristino da Silva.

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Ultrapassando as tantas questões presas a esta ideia que deu forma à nova cidade universitária, fazendo derribar-se um denso conjunto urbanístico característico da cidade, esquecendo agora as parangonas relativas à escolha do lugar que a cidade universitária viria a ocupar, ou ainda o facto do plano final ter fracassado, mantendo-se parcialmente, entendamos agora o que nos traz ao assunto da escultura monumental, inserida num programa no qual a arte se constitui como um emblema de poder, e como um discurso integrador, pedagógico e legitimador.

Na realidade, subjaz a este grandioso plano que transfigurou definitivamente a alta, construído sob os despojos do velho castelo, do relevante conjunto urbanístico (comercial e habitacional), de um sólido grupo de edifícios colegiais e de igrejas que se derribaram para o efeito, esta ideia de redefinição urbanística que viria a comprovar o desprezo ou a minimização da relevância das planimetrias e a arquitectura tradicionais. Sobraram à destruição o Paço das Escolas que, ainda assim, foi alvo de um rearranjo, os edifícios jesuíticos, o Museu Machado de Castro (com arranjos no aro fronteiro), os colégios das Artes e de S. Jerónimo, de S. Bento, Trindade, Grilos e parte da anterior reconformação pombalina que se manteve mais ou menos intacta até às fronteiras do Laboratório Químico. E como complementos deste novo discurso arquitectónico impunha-se a escultura, tanto quanto os relevos e a pintura, intentando garantir a assimilação da mensagem, e funcionando como elemento que oportunamente ofereceria aos conjuntos um aroma mais diversificado e humano.

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O enorme plano urbanístico que reconfigurou a cidade universitária contava com monumentos escultóricos de grande aparato volumétrico, incumbidos a determinados escultores que garantiriam as intenções dos seus encomendadores. O escultor Francisco Franco (1885-1955), ilustre discípulo de Simões de Almeida aquando da sua aprendizagem na Academia Real de Belas-Artes, encarnou o papel de um destes artistas então seleccionáveis, detentor de um vasto currículo (nacional e internacional) que deu forma a um ideário específico, mas que também se consubstanciou como um dos mais notáveis artistas plásticos da altura (no desenho, na gravação e na medalhística, para além da escultura) facto que se comprova através seu corpus de obra diversificado, plenamente moderno, e que integra o discurso nacionalista com elementos que estão para além da simples elocução de Estado. Excedendo a sua actividade como escultor, Francisco Franco encarnou o papel de um experimentador, ou de um investigador de vanguarda, facto que se comprova através dos trabalhos que realizou durante a sua estadia em França nos dois períodos dos anos vinte do século, ou ainda durante o seu período de trabalho em Itália na mesma década.

A imagem do criador do Estudo Geral em Coimbra assoma-nos à vista logo que acabamos de subir a extenuante escadaria monumental e é nela que nos depositamos antes de abarcar o conjunto da praça e antevemos a rua larga. Trata-se de uma peça fundamental no cenário da cidade universitária, porque é ela que nos convida a entrar no território definido para o efeito. A figuração de D. Dinis nesta praça de admissão possui um conjunto muito definido de objectivos, que passam pela quebra da monotonia imposta pelas fachadas planeadas (a fachada da direita, pertencente ao Colégio de São Jerónimo acabou por não sofrer as alterações previstas), bem como pelo larguíssimo pórtico que Cottinelli Telmo ideara para separar a praça da rua larga e que também não foi concebido, para firmar a importância da personagem representada e validar o discurso da continuidade do plano de restruturação, afirmando que D. Dinis iniciou um caminho que o Estado Novo prosseguiu sem esquecer a personagem central de todo este processo.

O escultor escolheu realizar uma figura pétrea monumental, acompanhando a escala e os volumes então projectados para a praça. Sobreelevou a representação do Rei através de um denso pedestal sob uma base para firmar-lhe a dimensão. Ambos os alicerces foram construídos em pedra, apesar da pintura a branco actual no primeiro soco. O Rei esculpiu-se coroado, empunhando o ceptro na mão direita (já quebrado) e segurando o cordão do manto com a esquerda. Comparando esta figuração com as imagens que lhe terão servido de fonte de inspiração, tais como o jacente do seu túmulo no mosteiro de Odivelas, ou o retrato de D. Dinis com Isabel de Aragão na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra (para referir as mais emblemáticas), entendemos que a escultura de Francisco Franco atribuiu ao Rei um porte magistral e as feições de um belo homem. E apesar da monumentalidade da imagem, não descobrimos nesta representação qualquer sabor a altivez, porque nos é sugerido um Rei que posa descontraidamente, segurando o manto para que ele não lhe caia enquanto firma o olhar no horizonte longínquo do tempo e do espaço que o afronta.

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Trata-se da representação de um homem belo, insigne mas benevolente, monumental e humano, empreendedor e sonhador, que traduz o passado mas que olha para o futuro como se o tempo desde sempre lhe pertencesse. O rosto de D. Dinis, idealizado por Francisco Franco, diz-nos que o tempo não parará, e que as reformas do tecido urbano da Universidade de Coimbra, que em 1943 tinham lugar, projectariam, de forma compassiva e promissora, e apesar da soberba com que se revestiam, este empreendimento que almejava durabilidade.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 22 de Agosto de 2013)