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Só Deus perdoa

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Se a violência não é uma temática que o atraia, se cenas de tortura impiedosa mexem com as suas entranhas, “Só Deus Perdoa” não é o filme indicado para ver.

Construído sobre o clássico conceito das histórias de vingança, em que violência gera mais violência, “Only God Forgives” do realizador (e aqui também argumentista) Nicolas Winding Refn (Drive, 2011; Bronson, 2008), é uma obra visceral, daquelas em que se sai da sala do cinema perplexo, no bom ou no mau sentido.

A acção decorre em Banguecoque e conta-nos a história de Julian (interpretado por Ryan Gosling, que já trabalhou com o realizador em Drive) um jovem que fugiu da América e que possui um clube de boxe na cidade tailandesa, na verdade uma fachada para um negócio de tráfico de droga. Quando Billy (interpretado por Tom Burke), o irmão de Julian, é assassinado, este procura o responsável pelo brutal acto, tendo com ele uma atitude de perdão. No entanto, quando a sua mãe Cystal (interpretada por Kristin Scott Thomas) chega à cidade, impele Julian a exercer a vingança da família, colocando-os no caminho de Chang (interpretado Vithaya Pansringarm), o polícia local.

Numa Banguecoque nocturna e por vezes fantasmagórica, movem-se todas estas personagens frias e pouco faladoras. Todas têm um lado manifesto e um lado encoberto, pronto a ser destapado e adivinhado pelo espectador, através das pistas que o realizador nos dá. Todas são dúbias, com um lado positivo e outro negativo, que nos faz ser julgadores impiedosos ao mesmo tempo que tentamos desculpar e perceber as suas acções. Uma mãe manipuladora e criminosa, mas que no fundo ama os seus filhos e quer proteger a família. Um jovem violento e enigmático, que percebemos ser afinal submisso e com alguma bondade no coração, ficando situado entre herói e mártir, vilão e vítima. Um polícia corrupto e assustador, que na verdade só quer que os maus sejam julgados. Este polícia é aliás, a personagem que mais ‘comichão’ tende a causar. Apelidado de “o anjo da vingança”, pode ser visto algures entre um Deus e um Demónio, que não olha a meios para atingir os seus fins.

Argumentos à parte, este filme proporciona uma experiência visualmente deslumbrante. A fotografia de Larry Smith (“Eyes Wide Shut” de Stanley Kubrick), mostra-nos planos psicadélicos e hipnotizantes em tons de azul, amarelo e vermelho, colocando-nos a espreitar entre portas, corredores e ruas. Tudo se tornando mais marcante com a forte banda sonora a cargo de Cliff Martinez (que também já trabalhou com o realizador em Drive).

Recebido com assobios no Festival de Cannes, este é um filme que esconde nas entrelinhas a sua verdadeira natureza. E nisso, Nicolas Winding Refn é sublime. Vários são os assuntos que leve e lentamente se erguem, deixando-nos nas mãos a vontade, ou não, de os dissecar. E tudo salpicado pela grande verdade de que todos os actos têm consequências. A justiça e o perdão pertencem a quem?

Título: Only God Forgives
Realizador: Nicolas Windin Refn
Actores: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm
Ano: 2013

Texto de Carina Correia

(Publicado a 15 de Agosto de 2013)