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O retábulo de São Miguel Arcanjo

UntitledEscolhemos para hoje uma obra de arte coimbrã que nos merece especial atenção. Trata-se do retábulo de São Miguel Arcanjo, atribuível ao escultor João de Ruão, que o terá realizado para o convento velho de Santa Clara em 1537. Esta peça retabular foi concebida para uma capela do convento, cujo lugar ainda desconhecemos, passando depois para a capela de São Miguel do coro alto do mosteiro novo.

Em 1961, o retábulo de S. Miguel passa a integrar as colecções do Museu Nacional Machado de Castro (n.º E 98), tendo ficado adossado a uma parede do Museu até às recentes obras de requalificação que vieram a dar maior destaque a esta obra magnífica que agora podemos visitar na grande sala de escultura do Museu.

Este retábulo está hoje bastante mitigado, faltando-lhe alguns elementos que se foram perdendo, tais como a mão direita do Anjo que deveria ostentar a perdida lança a deflagrar no diabo que agoniza a seus pés, bem como a balança, que o Arcanjo deveria usar na mão esquerda para pesar as almas.

Apesar de soberbo, este retábulo ainda não mereceu, por parte da nossa historiografia, a propagação que lhe cabe. Foram poucos os autores que se dedicaram a observar convenientemente esta peça que ilustra um caso de obra com caracteres assumidamente renascentistas. António Nogueira Gonçalves escreveu que esta foi uma das peças volumosas que as freiras de Santa Clara mandaram transportar da igreja velha para a nova. Acrescenta o autor que este retábulo é formado por uma larga placa que serve de fundo ao relevo principal onde predomina o Arcanjo a dominar o diabo.

Estendendo o olhar sobre esta figuração somos confrontados com um belíssimo Arcanjo de largas asas, em tudo semelhantes às de um cisne, ou como as asas dos anjos que o mesmo autor realizou para o mosteiro de Celas, ou para o retábulo da Misericórdia da igreja da Varziela.

No confronto com outras figurações da mesma época, podemos encontrar um conjunto vastíssimo de obras de arte que integram este retábulo no que de mais moderno se realizava um pouco por toda a Europa, e que ilustram a actualidade da opção seleccionada pela encomenda bem como pelo escultor que soube acudir à solicitação artística com grande valentia e oportunidade.

Se tivermos presentes algumas das representações do Arcanjo São Miguel, não nos sobram dúvidas de que a obra feita em Coimbra respira o coevo aroma formal europeu que se espraia entre a Flandres e a Itália.

Atendamos agora aos acabamentos laterais do retábulo de São Miguel Arcanjo de Coimbra, onde foram relevados templetes e baluartes em tudo idênticos aos da Porta Especiosa da Sé, bem como ao género de motivos ornamentais característicos desta fase dos trabalhos de João de Ruão e que nos permite atribuir-lhe a autoria desta peça. Deve ainda comparar-se esta representação de S. Miguel com aquela que depois se fez no retábulo de São Marcos da Igreja do Salvador de Coimbra (c. 1545).

Actualizando o conhecimento sobre esta peça uni-edicular que representa a cena do domínio do demónio pelo Arcanjo São Miguel, devemos ainda destacar que este retábulo, embora transpareça uma grande simplicidade formal, foi desenhado com grande rigor matemático, caso o observemos com atenção. Trata-se de um desenho clássico, de forças centrífugas que se expandem desde o centro da composição, onde reside um ponto de fuga imaginário que dá rumo à estrutura, desenvolvendo-a para o exterior e para os lados, em perspectiva.

Esta estruturação do quadro é genial, por ampliar a profundidade de toda a cena. Conjugado com esta abertura espacial, está ainda o facto de ter-se desenhado, no topo interior do painel, o arranque da abóbada de berço decorada com caixotões que ajuda a animar as forças centrífugas da descrição do cenário. E é ao centro da estrutura, reservando-se ao meio do quadro, que se projecta a composição escultórica, organizada segundo um esquema marcadamente triangular estabilizado, porém, pela horizontalidade dos panos do manto do jovem deflagrador, e pelos limites do cenário.

O Arcanjo São Miguel apresenta-se numa pose bastante teatral, equilibrada e harmónica e, apesar de ter-se retratado no momento em que desfere o golpe certeiro no ser monstruoso que espezinha, esta personagem exala uma serenidade imbatível.

Repousemos agora o nosso olhar no rosto deste feminil Arcanjo que em tudo é idêntico ao de Santa Inês, ou ao da Virgem de Vale de Todos, e ao da Virgem de Penela, para referir alguns exemplos mais chegados, e esculpidos pela mesma mão.

A matriz tipológica do retábulo de São Miguel inspirou-se, com as devidas diferenças, nos quadros relevados dos Passos da Paixão de Cristo que Nicolau Chanterene esculpiu para o claustro de Santa Cruz de Coimbra. E mesmo os seus remates laterais e superiores fazem uma clara alusão àquelas obras que se reservam, todavia, a um eruditismo relativamente superior, com claras alusões a gravados devidamente identificados.

Por todos estes motivos nos é tão cara esta obra, de singular importância no âmbito da história da arte coimbrã, e por todos estes motivos somos levados a revisitá-la ou, simplesmente, a rememorá-la, sempre que os dias nos pesam, sempre que nos sentimos descrentes, ou sempre que os olhos se nos fecham na fadiga dos dias que quase nada se demoram.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves

(Publicado a 15 de Agosto de 2013)