• Photobucket

Home / Música / Coimbra: Capital do Rock? (PT1)

Coimbra: Capital do Rock? (PT1)

BPI_9555“Porque desde Ceira até ao Ingote, Coimbra era a capital do rock”.

É um assunto bolorento, para muitos causa de urticária. “Coimbra, cidade do rock” ou “Coimbra, capital do rock” são rótulos criados não se sabe bem por quem, quando e em que circunstâncias. Mas este rótulo existiu e continua a habitar a cabeça de muitas pessoas, principalmente do público que não é de Coimbra e não conhece a realidade musical e cultural da cidade.

Quisemos falar com alguns dos músicos e pessoas com actividades relevantes para o assunto em questão, sobre esta frase redutora e simplista da música feita na cidade de Coimbra. Saber o porquê desta frase continuar a pulsar na cabeça das pessoas, se tem sentido, se já teve algum, saber o porquê do “Coimbra, Cidade, Capital do Rock”.

Não fomos à procura de respostas ou verdades absolutas, apenas saber opiniões, compilar palavras que nos ajudem a perceber este fenómeno social e mediático. Porque Coimbra, assim como todas as cidades do país, sempre teve “outras músicas”: do jazz à folk, do experimentalismo à pop, do rock à electrónica. Agarrar num rótulo e colá-lo a uma cidade que nada tem de rock na sua estrutura é no mínimo subversivo e até assustador.

Fica apenas uma certeza: Os Tédio-Boys e todas as bandas que da sua extinção saltaram, esse pequeno grupo de pessoas, marcaram a história da música da cidade de Coimbra. A visibilidade nacional e internacional que conquistaram no início do século deixou Coimbra colada a esse rótulo de cidade do rock. Com rótulos ou sem eles, a história continua a ser escrita.

BPI_9345_BlueVICTOR TORPEDO (Objectos Perdidos, Subway Riders, Tédio-Boys, 77, Tiguana Bibles, Blood Safari, The Parkinsons)

Vou tentar ser curto nesta pequena viagem da ideia de Coimbra como cidade do Rock e na ainda mais intrigante ideia de ser considerada por alguns como a Capital do Rock em Portugal. Primeiro que tudo nunca me imaginei a debater este assunto, acima de tudo porque não é do meu interesse prioritário tal debate, não só pela minha reação negativa e quase normal a uso de rótulos e nomes sonantes. Coimbra é e foi só mais uma cena rock (que já foi de uma enorme amplitude) no nosso pequeno e perdido Portugal.

E essa maior amplitude teve o seu boom nos finais da década de 80 e por todos os noventas. Sem dúvida que Coimbra foi um ecossistema fundamental na história do Rock Português nesse período de tempo e isso deve-se, não só ao ambiente perfeito da cidade – com a sua velha universidade e a sua situação perfeita junto às margem do Mondego e nos confins de uma Europa – que nos cumprimentava pela primeira vez com alunos de todas as partes do país e amigos da Europa.

Uma cidade barata para os estudantes e muitos bares abertos até tarde, mas não são esses que vão fazer a história da música em Coimbra. Quem irá fazer história serão os nativos que de certa parte estão excluídos deste mundo, os estudantes serão só o background desta grande festa. Nunca me preocupei com rótulos e lamentos, e ainda bem que a história foi assim e que tenhamos perdido o trono, pois só assim poderemos fazer história outra vez.

Chateia-me os lamentos de certas pessoas envolvidas em toda a “cena” a falar da falta de apoio da cidade, etc. O rock e a cultura são caminhos marginais e superiores a qualquer território físico e assim é que deve permanecer. Só assim é que sobrevive. Alimenta-se de juventude e dos seus movimentos, e é essa a razão da energia cultural da cidade vivida há duas décadas (pois foi assim pelo resto do planeta).

Os tempos mudam com urgência e os novos tornam-se velhos e agora com o passar do tempo e fácil romantizar outros tempos e celebrar com hipérboles os nossos tempos de juventude. Eu não estou nesse patamar nem nunca estive. Acredito na juventude e na criatividade e assim sendo, estarei sempre na capital do rock. Que neste caso não é Coimbra. A capital do Rock é uma capital de jovens. Um sítio sem nome nem pátria. Rock é energia, o Rock é juventude e Coimbra matou os seus filhos.

Só resta, a nós os Bastardos e os emigrantes empobrecidos, injetar alguma coisa nesta Sé Velha esquecida.

 BPI_9331_Blue ANTOINE PIMENTEL (Lordose, Belle Chase Hotel)

Pelo fim dos anos oitenta, princípio dos noventa, tive a minha primeira experiência “de banda”. Fizemos um concerto. Eram os “Olhólhólha tem pirâmides lá dentro”, com o Paulo Furtado, o Afonso Macedo e o Paulo Anjos. Éramos “suí generis”…

Certa noite, fomos ver um concerto dos “É mas foice”. Não os conhecia. Foi um choque absoluto. Nunca tinha visto nada assim: a competência técnica dos músicos, associada à postura ultra enérgica em palco, ao repertório, de espírito libertário, feito de colagens inusitadas, foi uma demonstração cabal de banda à séria e de espectáculo muito eficaz, sempre com uma forte aposta no carácter festivo.
Os “Olhólhólha” dissolveram-se naturalmente nessa noite.

Pouco depois, o Paulo Furtado formou, inicialmente com o Vitinho e com o Toni, os “Tédio Boys” e, desde o início dessa união, se sentiu uma grande convicção na vivência daquele projecto. Pela mão dos “Tédio”, iniciou-se em Coimbra um verdadeiro fenómeno associado à estética “Rock-a-Billy” e “Psycho-Billy”. Posteriormente, esta corrente também passou por diversas expressões do “Punk”. Havia imensas bandas e o público ia crescendo com as “novas” gerações que, todos os anos, convergiam no convívio da Praça da República.

Começou a existir na cidade uma verdadeira cultura “de banda” que abrangia diversas estéticas. Havia entre elas porém, um denominador comum: a ausência de complexos em associar-se a culturas internacionais. Ao contrário dos “É mas foice” que se expressavam (em coerência com a construção da sua identidade) em português, as muitas bandas que foram surgindo não se depararam de forma limitativa com a questão da língua ou com a questão da origem das estéticas que as influenciavam. Muitos dos músicos eram autodidactas, e estavam libertos dessa consciência casta. Cada um fazia o que lhe apetecia fazer, absorvia as influências externas, alheios a esses (pseudo) dilemas morais que geraram suposta controvérsia há uns anos: pode-se cantar em inglês?… Pode-se tocar música “estrangeira”?…

É certo que, nos últimos vinte anos, Coimbra contribuiu em larga medida para o aparecimento de uma série de “amadores”, emissores e receptores de música popular, frequentemente de tradição anglo-saxónica. Gente que foi no enlace desta liberdade criativa, acessível a todos. Seja no Rock, seja no Pop, ou seja onde for, para além das catalogações, o notável das convivências deste período, entre cumplicidades, diferenças e respeito, foi a ambiência de diversidade que se instalou, pois estimulou toda a gente, e para muitos, “a banda” transformou-se num modo de vida.

Mas, como é sabido, o fenómeno das bandas não aconteceu só Coimbra: passou-se em Braga, no Porto, em Lisboa, e um pouco por todo o lado. Enfim, tudo isto para dizer que o epíteto de “Capital do Rock”, em si (e a mim), não me diz nada. Porquê? Porque considero que isso não é relevante para a caracterização de um fenómeno enriquecido pela sua diversidade. Porque nunca constituiu uma motivação para se fazerem as coisas. Porque nem sei se alguém concorreu a essa medalha.

BPI_9418_BlueRITA ALCAIRE (Antropóloga, escritora do livro Filhos do Tédio, que questiona o estereótipo de Coimbra “fado, estudantes e guitarradas” a partir da banda Tédio Boys, co-realizou com Rodrigo Lacerda os documentários Filhos do Tédio (2006) e Breve História do Rock de Coimbra (2010).

Tornou-se corrente chamar a Coimbra ‘cidade do rock’ porque algumas bandas formadas na cidade se destacaram a nível nacional e até internacional. É o caso de Tédio Boys, Belle Chase Hotel e The Legendary Tiger Man, só para nomear três dos casos mais conhecidos. Embora para quem cá more essa designação pareça abusiva, acredito também se tenha generalizado como uma certa reactividade aos habituais epítetos ‘cidade dos estudantes’, ‘cidade-museu’, ‘cidade do conhecimento’. É uma forma de mostrar que há várias Coimbras e que aqui se faz muita coisa que não está directamente ligada à Universidade.

Para mim, a designação encerra muito mais do que isso e foi o que me motivou a fazer três trabalhos de perspectivas diferentes sobre essa realidade: na minha tese de licenciatura em antropologia questionei a identidade estereotipada de Coimbra – fado, estudantes e guitarradas – através de indivíduos que construíam a sua identidade de uma forma diferente, e aí já falei muito sobre o rock em Coimbra; logo de seguida, em conjunto com o Rodrigo Lacerda, realizei o documentário Filhos do Tédio a banda conimbricense Tédio Boys, os primeiros do género com visibilidade alargada, e mais recentemente, realizámos novamente em conjunto Breve História do Rock de Coimbra, uma curta que relata a produção musical rock na cidade de Coimbra assim como os espaços associados a esta nas décadas de 1980 e 1990.

Pessoalmente, como nativa de Coimbra em primeiro lugar, mas também sob o ponto de vista de uma tímida cientista social, a designação remete-me para os anos 1990 em Coimbra e para um período da adolescência que eu vivi intensamente. Estou a falar de um momento na cidade em que havia um campo fértil de produções culturais e artísticas, muito associadas a espaços como o Bairro de Celas, a Cave das Químicas, o States e outros locais, e que construíram vivências, socialidades, fortes partilhas, sempre com uma determinada atitude e irreverência. Tudo isto foi comum a um grupo alargado de pessoas e, na minha opinião, determinante para a estrutura social da cidade. A influência sente-se ainda hoje naqueles que se lhes seguiram e nesse sentido, estou também a falar da criação de uma memória colectiva que, em certa medida, ajudou a construir parte do presente.

BPI_0483TÓ RUI (Batwingz, Tu Metes Nojo, Garbage Catz, d3o)

Se me perguntassem isso há 15 anos, diria que sim, agora a resposta é negativa.

Na altura, e vivendo o fenómeno por dentro, o sentimento era de que a cidade fervilhava de música apelidada de Rock, muitos concertos, muitas bandas, muita gente que se divertia em torno do mesmo sentimento. Agora, e vendo esse cenário com mais distanciamento temporal e físico, creio que era um microcosmo criado nas nossas cabeças de adolescentes no meio de um universo há muito instituído. Era a forma rebelde de afirmação perante uma cidade que vivia (e ainda vive) agarrada ao passado.

Uma coisa é certa: Coimbra tinha e continua a ter muitas pessoas com criatividade e vontade de fazer algo diferente dos canones profundamente instituídos da cidade, mas continuam a ser uma ínfima minoria. Mas é através das minorias que se fazem grandes revoluções.

BPI_9480_Blue_MediumNUNO ÁVILA (radialista, co-autor com Fausto da Silva do programa de música portuguesa “Santos da Casa” – Rádio Universidade de Coimbra)

Os anos 90 trouxeram a Coimbra o rótulo da cidade do rock. Olhando de fora para a cidade era fácil de perceber esta designação. A música em Coimbra gravitava em torno dos Tédio-Boys, que criaram um estilo de ser, de estar e de pensar, de pentear e trajar. Depois falava-se muito dos concertos na cave das químicas. Havia as míticas noites punk no mítico CPTC – Centro Popular de Trabalhadores de Celas. Tudo isto impulsionou o crescimento de inúmeras bandas que tinham nas guitarras – fossem elas mais punk ou mais billy – a sua fonte de inspiração.

Mesmo já nos finais dos ditos 90 com o fim dos Tédio-Boys, a expressão “capital do rock”, parecia continuar a fazer sentido. Cada elemento da mítica banda criou o seu próprio projecto: Wraygunn, The Legendary Tigerman, d3o e Bunnyranch. O rock continuava vivo. Só que a par de tudo isto iam surgindo outros projectos, que colocavam Coimbra no mapa, mostrando que a cidade tinha outras potencialidades. O caso mais flagrante foram os Belle Chase Hotel. E mesmo hoje quando artistas, como por exemplo os A Jigsaw, conquistam a Europa, Coimbra continua a ser olhada como a cidade das guitarras rock.

De facto, a cidade continua a ser vista de fora como a terra dos Tédio-Boys, se bem que terá sido começada a falar antes do seu nascimento, por causa de uns senhores de nome Émasfoi-se, que ao rock juntavam, uma enorme quantidade de outros estilos. Mas o facto de os Tédio-Boys terem “conquistado” a América chamou a atenção para o centro. E fez querer a muito jovem de Coimbra que era possível, a partir da cidade dos estudantes, vingar na música.

Texto de Bruno Simões
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 8 de Agosto de 2013)

6 comments

  • Peter, o artigo foi escrito por um sócio activo da RUC e um dos entrevistados é co-autor de um dos programas mais antigos da RUC. Mais ainda, não foi feito com o intuito de falar sobre agentes directos ligados ao rock em Coimbra e sua importância, mas tentar compilar opiniões sobre um emblema que foi atribuido à cidade.

  • Claro que houve, os Mini Pop, uma banda de covers dos Beatles, dos manos Barreiros do Porto (que pequeninos que eram…) fez a sua estreia num Festival de Rock no Antigo Estádio Municipal… Mais recentemente, logo nos primeiros anos dos eighties, foi o Festival Só Rock, promovido pela Rádio Comercial. Inesquecível. Um estrondo! Depois, bom depois foi o silêncio, um longo silêncio, até ao aparecimento dos projectos acima referidos e que projectaram Coimbra como Capital do Rock (seria bom que assim fosse..)

  • O Festival Só Rock Coimbra 81, não foi promovido pela Rádio Comercial, como erradamente se divulga. O Festival Só Rock Coimbra 81 foi organizado pela empresa de som FURACÃO, com o apoio da Rádio Comercial na divulgação, e da Câmara Municipal de Coimbra, na logística. Neste festival o objectivo eram as bandas e a música, boa se possível. Início em 2 de Maio, final em 4 de Julho, feriado municipal, com concerto no Estádio Municipal.
    No ano de 1982 estava agendada nova edição do festival, nos mesmos moldes e nos mesmos locais, mas aqui sim, a Rádio Comercial vendeu a Alma ao Diabo e o festival foi feito por ela em outros moldes, pago por uma empresa, e com entradas pagas em caricas de garrafas de sumo. Sem alma e sem espírito, ganharam muito dinheiro em 1982, e mataram o festival que nesse ano já não se chamou SÓ ROCK mas o nome do sumo que pagou.

Leave a Reply