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Arte partilhada

BPI_0940«(…) a arte continua a ser um repto eminentemente subjectivo, pouco passível de explicação, tal como acontece com o amor.»

            Raquel Henriques da Silva

No âmbito das comemorações do centenário do Museu Nacional Machado de Castro, o antigo Paço Episcopal de Coimbra, onde ainda habita o museu, recebe a exposição «arte partilhada millennium bcp – 100 anos de arte portuguesa». Trata-se de uma selecção de quarenta e uma obras (três delas não expostas) de pintura, realizadas entre os anos 1884 e 1992 por pintores portugueses, do espólio artístico do grupo Millennium, feita pelo curador Rui Paiva e sob o comissariado científico de Raquel Henriques da Silva.

Esta mostra colectiva itinerante de pintura surge no âmbito do programa de responsabilidade social do grupo Millennium e objectiva descerrar parte da colecção artística, de que é fiel depositário, à fruição pública. O nome da exposição surge, precisamente, no contexto desta intenção de partilha de uma herança que em boa hora se dá a conhecer à cidade de Coimbra. E melhor do que o Museu Machado de Castro para receber esta mostra deambulante de pintura não haveria, até porque a viagem das formas da exposição retrata a idade deste museu.

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A exposição reparte-se por duas salas. No primeiro espaço, também conhecido por Sala das Sapatas, podem ver-se obras do século XIX, tais como o óleo O Hóspede Inconsolável, do açoriano José Júlio de Sousa Pinto (1884), ou o Lugar da Penha, de António Silva Porto (1890-93). Já do século XX destaca-se a Volta da Feira, de José Malhoa (1905) que, não sendo das obras mais aplaudidas do autor, retrata uma cena cara ao seu repertório estético e artístico. Na mesma sala podemos ainda admirar a magnífica Paisagem de Lisboa, de Nikias Skapinakis (1972), um dos mais notáveis pintores da segunda metade do século XX português, que nesta vista nos oferece uma Lisboa transmudada em tratado de pintura contemporânea. Na mesma sala ainda se nos oferecem os trabalhos do inigualável Nadir Afonso, Luís Noronha da Costa, Dordio Gomes, Carlos Botelho e Manuel Amado.

Saímos para o pátio luminoso do Museu e, junto à sua loggia renascentista, entramos na Sala de Exposições Temporárias para a segunda parte da exposição. É logo à entrada da sala que vemos o óleo Mort de Rembrandt, de Eduardo Luiz (1985), uma obra encomiástica e cheia de referências que nos remete para uma importante reflexão historiográfica. Os trabalhos expostos nesta sala permitem-nos realizar uma viagem das formas pela mão de Columbano Bordalo Pinheiro, Eduardo Viana, Amadeu de Souza-Cardoso, Maria Helena Vieira da Silva, Almada Negreiros, Dacosta, Júlio Resende, António Charrua, Pomar, Carlos Calvet, Menez (cuja obra dá rosto ao cartaz do evento), Cargaleiro, João Vieira, José Escada, René Bertholo, Paula Rego, Eduardo Nery, António Palolo, José de Guimarães, Eduardo Batarda, Pedro Chorão, Jorge Pinheiro, João Hogan, Mário Cesariny, António Costa Pinheiro, Eduardo Viana, Armanda Passos, Júlio Resende e Graça Morais.

Seleccionar uma obra desta sala é um trabalho penoso, dada a expressa qualidade de todas as peças que pertencem à colecção e que agora se dão a conhecer a Coimbra. Ainda assim, e antes de fechar este pequeno artigo, escolho o óleo de Graça Morais, O Espírito do Amor Autêntico, datado de 1987, que trouxe comigo no olhar, talvez devido ao facto de tratar-se de uma obra densa e carregada de simbolismo. A pintora usa o ganso, com tudo quanto ele quer significar, e usa o sangue a unir as duas personagens que, embora lado a lado, acabam por enlaçar-se. A composição vive suportada por uma paleta fortíssima que dá corpo à atmosfera que se requer quando o assunto é o amor.

Esta partilha de 100 anos de arte portuguesa que assim se nos oferece ao olhar merece que nos permitamos à sua examinação que começa, como tudo na vida, com a disponibilidade dos sentidos.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 8 de Agosto de 2013)