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Com a poesia no coração

BPI_4501Coimbra tem uma nova editora de poesia. Chama-se Do lado esquerdo* e nasceu no início deste ano, pela mão de Maria Sousa e Nuno Abrantes. Só publicam obras de autores que os emocionem. E com tiragens únicas. Ele explica: “Não haver reedições é uma maneira de valorizar o livro e a poesia”.

A Do lado esquerdo tem três títulos publicados: “Mulher ilustrada”, assinado pela própria Maria Sousa, com uma tiragem única de 150 exemplares e já esgotado; “Uma pedra parecida”, de Hugo Milhanas Machado, com uma tiragem única de 100 exemplares; e “Todas as ruas do mundo”, da autoria de Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta. Deste último, existem 150 exemplares numerados e assinados.

Luxúria Canibal esteve no Salão Brazil, em Coimbra, no início de Julho, para apresentar “Todas as ruas do mundo”. Um “percurso pela urbe moderna” com direito a “uma espécie de descida aos infernos”, segundo Osvaldo Silvestre, professor do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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O próximo título a ser publicado é “Mixtape”, que reúne 22 poetas portugueses e brasileiros e retira inspiração das velhas cassetes. Sai em finais de Julho.

A editora de Coimbra pretende publicar mais dois livros em Setembro ou Outubro: “O que eles costumavam dizer”, uma antologia do autor americano Hal Sirowitz; e “Sonho americano”, de Teresa Andruetto, em que a autora mistura poemas sobre a sua vida e a da cantora Patti Smith. Na calha estão ainda obras dos portugueses Pedro S. Martins e Tatiana Faia.

“Horror aos poemas” é culpa da escola

Maria Sousa diz que por cá só 200 a 300 pessoas compram poesia, e a culpa é do ensino secundário. “As pessoas, em Portugal, não lêem poesia por causa da escola secundária, que as obriga a dissecar poemas. Ganham horror aos poemas. Dissecas um poema e ficas sem nada, destróis a sua subjectividade. E na faculdade também. Acho que as pessoas têm muito medo de ler poesia porque têm medo de não a perceber”.

Maria é formadora de Inglês e poeta, e tem 44 anos. Nuno é engenheiro electrotécnico e tem 37. Conheceram-se há aproximadamente quatro anos, na passagem de ano, numa república estudantil, em Coimbra. Algumas conversas depois, descobriram nos livros uma paixão comum.

Mas foi preciso esperar até Março de 2011 para avançarem com uma revista de poesia, contos e ilustração, em PDF, a que deram o nome “A sul de nenhum norte”. “A revista foi determinante para o nascimento da editora”, assegura a co-editora. Até porque lhes permitiu contactar com “poetas fantásticos” que não conheciam.

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Hoje, Maria vive em Coimbra e Nuno no Fundão. O trabalho é feito sobretudo por telefone e e-mail. Os livros não estão à venda em livrarias, podendo apenas ser encomendados através do e-mail da editora, que também tem página no Facebook.

A importância do “estremeção”

Mas afinal a que se deve este gosto especial pela poesia? “Geralmente, um poema é um romance concentrado. A linguagem é mais forte, é muito imagética, e é subjectiva. Num dia dás uma interpretação, noutro dia, outra”, sustenta Nuno Abrantes, que nem lê outra coisa. O pai, que sempre o incentivou a ler, acredita mesmo que devia ter seguido Letras, em vez de Ciências.

Já Maria realça a importância do “estremeção” que, a seu ver, a poesia tem de causar, citando Manuel Hermínio Monteiro: “Mas eu ainda não descobri outra maneira de analisar a poesia para além do secretíssimo estremeção, como um choque eléctrico, que alguns versos que lemos descarregam sobre o nosso coração”.

*Em referência ao poema de Carlos de Oliveira Sobre o lado esquerdo:

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração”.

Texto de Carina Fonseca
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 1 de Agosto de 2013)