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Território Comum

BPI_6745Território Comum, Imagens do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, Portugal 1955-57 é o nome da exposição patente no Centro de Artes Visuais (CAV) de Coimbra até 29 de Setembro. Trata-se de uma iniciativa que decorre de uma parceria entre o Centro de Artes Visuais, o Festival das Artes, a Ordem dos Arquitectos e a Fundação EDP, comissariada por Sérgio Mah.

Foi entre 1955 e 1957 que o Sindicato Nacional dos Arquitectos realizou o primeiro Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa (IARP), então coordenado pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral. Este levantamento visava a sistematização do património arquitectónico regional do país numa altura em que a ruína constituía já uma séria ameaça a um vasto e relevante espólio.

O Inquérito organizou o território arquitectónico português em seis regiões (Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Alentejo e Algarve), e desse trabalho resultou um vasto conjunto de mais de dez mil fotografias executadas por dezoito arquitectos. Seleccionado o grupo de imagens, o Sindicato Nacional dos Arquitectos publica, em 1961, a primeira edição dos três volumes dedicados à Arquitectura popular em Portugal, obra que ainda hoje serve de referência a quem se interessa pelo assunto. Esgotada a primeira edição, o título reeditar-se-ia em 1980, em 1988 e em 2004.

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No ano das comemorações do meio século volvido sobre a primeira edição dos volumes dedicados à arquitectura popular portuguesa, em 2011, pensou a Ordem dos Arquitectos divulgar o valioso acervo do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa disponibilizando-o online (cf.: http://www.oapix.org.pt/) depois de tratadas e digitalizadas as imagens que não conheceram pública forma nas edições de 1961 e seguintes.

A exposição Território Comum resulta da eleição de 100 imagens pertencentes ao Inquérito realizado entre 1955-57 e intenta exibir um novo olhar sobre aquela vasta e importantíssima colecção fotográfica. A selecção baseou-se em critérios muito específicos, na medida em que as peças escolhidas resultam de uma opção que alinha a mostra da arquitectura vernácula com a dimensão estética da sua reprodução fotográfica. Desse alinhamento resultou um conjunto belíssimo de fotografias a branco e preto que nos permite recuar no tempo e sentir-lhe o pulsar, ainda que muito vagaroso.

Os interiores arquitectónicos de Aljustrel e do Fundão irradiam silêncios de vidas que já se apagaram mas que ainda nos permanecem, as fotografias onde assomam figuras da época, como as de Ferreira do Alentejo, Vidigueira, Borba, Alandroal e, especialmente, as de Olhão, Castro de Aire e Lamego constituem-se como preciosas fontes iconográficas de índole social e antropológico. As imagens de arquitectura vernacular beirã, tais como as do Sabugal e Idanha-a-Nova permitem-nos entender a perfeita integração da construção nas paisagens, retratando a harmonia das vidas dos homens que ali estiveram e ali se desenvolveram com o espaço e com o tempo, nas suas velocidades exclusivas ligadas à rudeza do mundo feito dos dias de sol a sol.

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Num olhar de sobrevoo, podemos dizer que esta selecção das 100 imagens do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, empreendida por Sérgio Mah, resultou numa exposição de uma beleza muito singular, porque nos faz recuar à arquitectura autóctone que possui esta espessa e sui generis personalidade, porque nos remete a um Portugal perfeitamente datado, servindo-nos como fonte de conhecimento, porque a qualidade estética e artística das fotografias nos permite realizar esta viagem imagética sem a crueza do documento. Para além do registo que produz, este conjunto fotográfico sobrevive a partir do seu carácter de obra de arte íntegra quando se expressa, quando se arremessa ao nosso olhar desprotegido, quando apela aos valores discursivos porque se diz, quando ultrapassa a sua função de Inquérito para estabilizar-se enquanto força criativa.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 25 de Julho de 2013)