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Aqui há BD

BPI_0294-2Fomos ver livros aos quadradinhos e falar com João Lameiras, um dos proprietários da única loja especializada em Banda Desenhada de Coimbra. Envolvidos por muita cor e sob o olhar atento de um Corto Maltese emoldurado numa das paredes da loja, é caso para dizer que houve verdadeira animação.

Em que ano abriu a Dr. Kartoon e como se desenvolveu?
A Dr. Kartoon abriu em Dezembro de 1998. Quem fundou a loja foi uma belga, que na altura estava a viver em Coimbra, chamada Fanny Denayer. Decidiu abrir uma loja de banda desenhada (BD), porque era uma área de que gostava e em que a Bélgica tem bastante tradição. A loja foi-se desenvolvendo e foi ganhando nome. Entretanto ela decidiu voltar para a Bélgica e falou com alguns clientes, porque tinha pena de deixar morrer este projecto, sendo um deles eu, o Fernando Ferreira e o João Ramalho. Eu falei com o Miguel Reis e decidimos juntar-nos os quatro e aproveitar a oportunidade. Na nossa gerência abriu em 2006, perto da altura do Natal. Tem-se aguentado até agora, sobretudo porque nenhum de nós vive propriamente de ser livreiro. No fundo, é um hobby que alimentamos, porque achamos que é importante haver uma livraria que satisfaça a procura neste mercado e também porque somos pessoas que gostamos de BD e é uma oportunidade de ter acesso a muita coisa.

Coimbra é uma cidade que consome BD?
Coimbra é uma cidade um bocado estranha. Tem pessoas que consomem banda desenhada mas é sobretudo, e acaba por ser o nosso nicho de mercado, a BD franco-belga em francês, que é consumida por uma geração dos quarenta anos para cima. Nas pessoas mais novas, sobretudo estudantes, o consumo é bastante mais limitado. Compram algumas coisas americanas de vez em quando, quando não estão a gastar o dinheiro em copos (risos). Acabamos por ter muitas vezes mais estudantes de Erasmus do que portugueses, o que é um fenómeno engraçado. Há muitos erasmus que compram banda desenhada portuguesa porque já gostam de BD nos países de origem e querem conhecer o que se faz em Portugal, mas também porque é uma maneira fácil de treinar o português. Como têm texto e imagem conseguem perceber mais facilmente o que está escrito do que se, por exemplo, pegassem num romance do Saramago ou do Lobo Antunes. No Lobo Antunes tinham de perceber primeiro quem é que estava a narrar e no Saramago onde é que acabavam as frases (risos). Na banda desenhada não, sai o balãozito das bocas e não há grandes dúvidas.

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Quais são as personagens e os autores mais procurados?
Depende muito dos diferentes públicos. O pessoal mais novo e raparigas gosta de coisas de mangá e daquelas séries clássicas que saem sempre como o Asterix, o Blake & Mortimer, o Calvin, o Zits... Depois há também as pessoas que leem as séries americanas. Há séries bastante procuradas de personagens mais clássicos como o Homem-Aranha, Batman, e séries da Vertigo, da Image, como a The Walking Dead, agora a Fables, a Chew, séries que as pessoas começam a ler e acabam por seguir. Três autores também bastante procurados são o Tardi, o Joe Sacco e O Craig Thompson que fez o Blankets e o Abibi. Aliás, o Blankets é capaz de ter ser dos livros que mais vendemos ao longo de todos os tempos, apesar de ser em inglês e ser um livro caro. Normalmente as pessoas querem uma coisa definida que provavelmente não encontram noutro lado e depois acabam por vir aqui à loja. Em português, o que mais vendemos é sem dúvida As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, do Filipe Melo e do Juan Cavia.

Qual o livro mais caro que já venderam?
Deve ter sido uma Artist’s Edition. A Artist’s Edition é um conceito engraçado, mesmo para coleccionadores. O livro custa entre os 150€ a 200€ e não há muita gente a comprar, mas até agora vendemo-los todos. Temos também os Art Books, que rondam os 50€ a 60€.

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Costumam realizar eventos?
Temos as noites dos jogos de tabuleiro às quintas-feiras. No início eram no piso de cima da loja, mas como passou a ser muita gente agora são no Estádio Municipal, no café Psicológico. Aos domingos são na sala Arte à Parte. Fazemos também sessões de autógrafos aqui na loja, normalmente duas vezes por ano. Uma perto do Natal, até porque é uma altura em que há mais novidades e outra por volta de Março ou Abril. Funciona muito bem, embora dependa sempre das novidades que há e da disponibilidade dos autores.

Hoje em dia, como se desenha mais? Digitalmente ou continua a ser à mão?
Há de tudo. O mais natural é o desenho, o trabalho base, ser feito à mão. Depois, quer a montagem, quer a arte final, quer a cor, acabam por ser digital. Varia muito de autor para autor. Há muita gente que trabalha directamente no computador, que já faz tudo no computador. Mas na maior parte o desenho é em papel e depois o computador é usado mais para dar sombras, para corrigir, para mudar pormenores num desenho, para acabamentos. Não há propriamente uma receita, depende do autor. Mas também há quem ainda faça tudo à mão.

Como é, na vossa opinião, o panorama da Banda Desenhada em Portugal?
O panorama para quem trabalha em Portugal, está mau. Aliás, como sempre esteve. Praticamente durante dois ou três anos, no início dos anos 2000-2003, em que havia a bolsas de criação literária, havia pessoas que podiam dizer que viviam da banda desenhada em Portugal. Actualmente, há alguns autores que vivem da BD mas que trabalham para o mercado americano ou para outros mercados. Há ainda pessoas que vivem da banda desenhada, mas que fazem também ilustração e publicidade. Ninguém consegue viver só da BD e a maior parte dos autores acaba por fazer outras coisas, seja ilustração, story boards para cinema ou cartazes. Não só por questões económicas, mas também porque no fundo são áreas próximas.

E em relação às lojas de BD em Portugal?
Não há muitas e cada vez vai havendo menos. Neste momento, Lisboa tem duas e o Porto também. Depois há a Dr. Kartoon em Coimbra. Muitas outras fecharam em várias cidades e há uma na Madeira que se vai aguentando. Um das nossas (lojas de BD) vantagens é que encontras livros que já saíram há mais tempo.

Projectos para o futuro?
O projecto é aguentar isto até não dar muito prejuízo e fechar (risos).

Dr. Kartoon
Horário: segunda a sábado das 9h30 às 13h00 e das 14h30 às 19h30
Morada: Rua da Manutenção Militar, nº. 15
Telefone: 239821543

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 25 de Julho de 2013)