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Uma Colina para as Artes

BPI_7051Entre vários compromissos agendados, a arquitecta Cristina Castel-Branco conseguiu encontrar um espacinho na agenda para falar connosco. Projectou o Anfiteatro “Colina de Camões” e é presidente da Fundação Inês de Castro, uma das instituições impulsionadoras do 5º Festival das Artes. Este Festival começou no passado dia 16 de Julho e decorre até ao próximo dia 23. ‘A Natureza’ é o tema deste ano e ao falar sobre este projecto, percebemos como, de facto, a natureza é tema desde o início.

Como vê hoje o espaço que projectou há cinco anos, o objectivo cumpriu-se?
Cumpriu-se. Cumpriu-se plenamente. Tem sido um grande gosto ver que é um espaço tão utilizado, quer durante o Inverno, como espaço de passeio, quer no Verão, com este festival. É uma vivência extraordinária pois, mesmo que não existisse anfiteatro, há uma excelente vista de Coimbra. Pode ver-se também esta colecção de árvores do seculo XIX e depois, claro, juntar a música. Portanto está aqui uma receita muito especial. Tudo isto são emoções estéticas importantes na vida das pessoas.

Quais as suas valências?
Aqui temos a possibilidade, e era esse o meu objectivo, de ter a emoção estética a triplicar. Podemos ver a certa altura o céu todo azul, depois começar a ficar mais escuro e a ver-se Coimbra iluminada. E ver tudo isso com o espaço cheio de pessoas a ouvir música de muita qualidade, posso dizer que é mesmo um objectivo que ficou cumprido.

Faria algo diferente se o projectasse hoje?
Faria, porque nunca se projecta da mesma maneira. Em termos projectuais, o design é uma coisa muito dinâmica e o que sai pode dizer-se que é uma espécie de fenómeno que acontece naquele momento, naquelas circunstâncias. E quando mudam o momento e as circunstâncias, muda a efusão criativa. Este é um fenómeno muito interessante: o design, a criatividade, o desenho. Como diziam os arquitectos no Renascimento: eram os imaginários. Portanto, a imaginação não é uma coisa parada. Mas estou muito satisfeita com o desenho que se encontrou para este espaço, porque não é excessivamente rígido, não são bancadas brancas a reflectir. E esta intervenção, com a relva pelo meio, suaviza e torna-o uma peça mais escultural e não tanto aquela arquitectura pesada de anfiteatro.

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Como se deu esta relação com o Festival das Artes?
Sugeri fazer-se um jardim medieval, quando me foi perguntado como é que se havia de restaurar este jardim. A minha área é arquitectura paisagista e fazer aqui o desenho de um jardim em restauro era, para mim, celebrar Pedro e Inês e a Rainha Santa, que também deixou cá o canal, mandado fazer por ela. E o canal é extremamente importante: é água, é vida, é tudo o que permite ter um jardim. A partir daí começou a fazer-se o jardim medieval e vi que havia aqui uma oportunidade enorme de se fazer um grande anfiteatro para espectáculos ao ar livre, que era algo que tinha vontade de fazer há muito tempo. Experimentei em Lisboa, quando restaurei o Jardim Botânico, mas percebi que era muito difícil de concretizar. Em Lisboa há muito ruído, temos os aviões, temos muito vento à noite e as folhas das árvores fazem muito barulho. Entretanto, houve a oportunidade de vir para aqui e observei com algum cuidado, todos os fins de tarde, o sossego deste sítio. Percebi também que havia ainda uma coisa muito especial, e com um potencial enorme, que não se tinha reparado: a vista para Coimbra. E o que fazemos em arquitectura paisagista é descobrir o potencial dos sítios. A relação com o festival foi eu ter sugerido que se fizesse um festival e mostrei como eram os festivais de outros sítios que eu conhecia, por exemplo, Massachusetts. Lá faziam festivais em que os bilhetes eram na altura oito dólares e toda a gente podia ir. Houve então essa ideia: de uma oferta de qualidade ao público durante o Verão. E numa sala que não pode ser mais barata que esta. No início era só música clássica e jazz, mas depois decidiu alargar-se às outras áreas e decidiu-se ser um festival anual. Existe sempre um risco que é ser ao ar livre. Mas temos um grande profissional a assegurar a qualidade do som, que é essencial.

O que tem Coimbra a ganhar com o Festival das Artes?
Normalmente os subsídios da cultura e do turismo vão para Lisboa, Porto e quando muito Algarve. Vê-se aqui um vazio que não tem razão de ser. Logo ao início o apoio da Secretaria de Estado do Turismo foi determinante, mas entretanto deixou de haver. O valor do festival já foi muito alto comparando com aquilo a que agora temos de nos reduzir. Trouxemos cá pessoas de muita qualidade. A ideia era despertar novos talentos portugueses e ao mesmo tempo, misturá-los com artistas conceituados estrangeiros. Esta era a ideia inicial. Neste momento, já há artistas que não conseguimos trazer, mas procuramos manter a qualidade.

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Sente que o público se rendeu a este projecto?
Houve sempre a ideia de que Coimbra não correspondia aos eventos. Por exemplo, a Orquestra Gulbenkian tocava no Gil Vicente e tinha muito pouca gente. Mas ontem o Gil Vicente estava cheio! Houve sempre a ideia que não havia público. Ora, não é possível! Com tanta gente culta, com tantos professores, como é que não há? Alguma coisa está errada. E de facto, este festival mostrou que as pessoas estão interessadas nas várias valências que se oferecem. E o que é preciso é ter bilheteira. O festival está em risco para o próximo ano.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 18 de Julho de 2013)