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These New Puritans: Field of Reeds

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Quando uma banda começa a partilhar os seus sentimentos mais verdadeiros numa busca de novas sonoridades, podemos considerar que estamos perante um caso de amor pela arte de fazer música.

Este terceiro disco dos These New Puritans intitulado “Field of Reeds”, é um desses grandes encontros. Uma evolução musical e estética que começa em “Beat Pyramid” de 2008 – álbum de guitarras, pós-punk e esquizofrenia – e que desemboca depois num magistral “Hidden” de 2010, obra-prima na junção de orquestra e elementos clássicos com electrónica e guitarras, combinação de texturas complexas num álbum negro. Inevitável a comparação com os nova-iorquinos Liars, pelo percurso. Ambos começam a sua carreira com um brilhante disco de pós-punk e ambos os grupos se transformaram em duas das mais brilhantes bandas da actualidade. Pela forma como desconstroem a música, a experimentação e inovação na procura de novas linguagens. Se os Liars foram para o ruído e potencialidade do espectro sonoro que as máquinas podem atingir, os These New Puritans tentam descobrir uma junção de orquestração e ligação de elementos sintéticos e orgânicos em algo que ainda não conseguimos compreender bem.

Assim, em 2013, “Field of Reeds” comprova estarmos perante uma das mais emocionantes e empolgantes bandas que a indústria musical do Reino Unido atirou para o Mundo nos últimos anos. Arrisco dizer que não vamos ouvir nenhum outro disco em 2013 a soar assim.

O vocalista e força motriz por trás do projeto – Jack Barnett – é visto aqui a empurrar as suas habilidades de composição para um novo campo. Surpreendente é a colaboração com a cantora de jazz portuguesa Elisa Rodrigues. A Preguiça Magazine Coimbra falou com a própria sobre esta colaboração: “fui convidada pelo Jack, ele descobriu o meu trabalho no youtube. Ouvi muito a música e demorei algum tempo a aceitar, mas pareceu-me tudo tão bonito que quis fazer parte. Canto neste disco, sou muito respeitada e estou muito feliz, quanto ao futuro, conhecendo-os como já conheço, imagino que se renovem totalmente. Vou fazer com eles todos os concertos que a minha agenda permitir.”

Field of Reeds” abre com “The Way I Do”, jazz nervoso, melodia de piano suave – sem o alarde sintético de “Hidden” – e que conta aqui com uma brilhante ajuda do veterano trompetista do jazz britânico Henry Lowther. Elisa Rodrigues canta este “The Way I do”, um desafio à estrutura clássica do jazz: “não venho do jazz, canto jazz, admiro-o mais do que a qualquer género musical mas não sou purista. Ouvi todo o tipo de música a vida toda. Consigo cantar qualquer coisa desde que me emocione. Quem me conhece sabe que o meu universo é grande!”

A voz introspectiva de Barnett aparece pela primeira vez em “Fragment Two”, música de apresentação deste novo disco dos These New Puritans. Apoiado num piano que entrecorta com percussão, sopros e elementos riquíssimos de orquestra clássica, esta é a música que melhor define esta espécie de novo mundo: “não gosto de descrições, acho estranha a necessidade de catalogar a música. Para mim só existe o que me agrada e toca e o que não me diz grande coisa. Este disco arrepia-me… Estranhei, agora está entranhado, já é meu e não consigo pensá-lo de fora.”

Field of Reeds” prossegue por mais 7 músicas, sempre imprevisível, num recorte introvertido de timbres jazzísticos, orquestrais e experimentais que gritam e sabem projetar para fora uma quantidade incrível de sentimento. Não existe aqui espaço para fugas, a visão por vezes cinematográfica que Barnett imprime nas suas composições são de tirar o fôlego.

De salientar a participação do germânico Michel van der Aa, um dos mais inovadores e prolíferos compositores contemporâneos clássicos alemães da actualidade.

Com esta música, aparentemente secreta, “Field of Reeds” é um registo fabuloso, feito a pensar no dia de amanhã, mas que para muitos, não passa de uma página em branco.

Texto de Bruno Simões

(Publicado a 11 de Julho de 2013)