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O corpo é a sua voz

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A vida de Sara Jaleco é a dança. Apesar da sua naturalidade e de uma parte do seu percurso ser Coimbra, cedo dilatou as fronteiras e rumou em busca de novas impressões. Mas vamos por partes.

É bióloga de formação académica. No entanto, o gosto pela dança vem desde cedo e parece-nos que a sua mãe é cúmplice na matéria. “Lembro-me que sempre gostei de dançar mas foi a minha mãe que me inscreveu nas aulas de ballet do Centro Norton de Matos quando eu era pequenina”. Essas aulas sempre foram motivo de felicidade e duraram mais dezasseis anos, coincidindo a uma certa altura com as outras aulas, as da Universidade. E foi precisamente algures neste momento que a magia aconteceu: “com duas novas professoras no centro comecei a ter aulas de ballet contemporâneo, que representaram os meus primeiros encontros regulares com a dança contemporânea e um outro olhar sobre a dança”, conta-nos.

Quando acabou o curso, a sua sede de dançar, embora não a vontade, ficou um pouco adormecida e decidindo apostar na sua veia científica, foi para Montepellier fazer um doutoramento em Biologia Celular. “Esse primeiro ano em Montepellier foi um ano de mudança, não fiz quase nada no que respeita à dança”, recorda. No entanto, a inquietação não demorou a instalar-se e começou a frequentar aulas de dança contemporânea e dança africana (durante três anos), com uma professora de dança tradicional africana. Esse encontro com África, apesar de aleatório na altura, não surgiu do nada: “África para mim sempre foi fundamental. Representa espaço, não só a imensidão do território, como o espaço interior, de terra e de corpo”.

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E eis que surge na sua vida, qual anjo salvador, Thierry Raymond, bailarino, coreógrafo, mestre com quem fez diversos trabalhos. “O que fiz com ele não tinha nada a ver com a minha experiência anterior. Foi com ele que percebi que o meu desejo e amor por dançar faziam sentido. Ele deu-me a conhecer uma forma de dança que para mim é muito próxima da vida, que é aquilo que faço hoje. E foi aí que a minha vida começou a mudar”.

De seguida, fez uma formação para fazer um exame e obter o diploma do Estado francês que lhe daria acesso a dar aulas de dança. Trabalhando ao mesmo tempo no laboratório, para poder pagar a formação, um caminho novo começou a desenhar-se, de “descoberta e de início de uma imensidão de coisas que nunca tinha sentido antes”. Não passou no exame mas o seu optmismo e segurança mostraram-lhe que esse exame na “realidade não era imprescindível para o que queria fazer”. É aliás algo que tem muito bem resolvido: “o facto de não ter tido um percurso académico na dança não foi por acaso, simplesmente não tinha a ver com a minha forma de estar na dança”.

A partir daí, e já com alguns anos a viver em França, os acontecimentos foram-se desenrolando e Sara foi bailando ao ritmo. Conheceu por lá uma coreógrafa portuguesa que lhe apresentou o CEM (Centro Em Movimento) em Lisboa, onde esteve numas férias a fazer dois cursos e onde conheceu uma das suas grandes mestres e parceiras actuais: Sofia Neuparth. “Fiquei super entusiasmada e encantada” com a formação intensiva acompanhada que entretanto fez em 2005. Esse, admite, foi mesmo “um momento decisivo em termos da minha autonomia artística, em que percebi o que queria fazer com o corpo, que era investigar”. Só que desta vez não era em laboratório.

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Os projectos e as viagens que fez não se contam pelos dedos das mãos. Entre a Europa, África e Brasil, tem vindo a ensinar, a pesquisar e a criar em dança, nos mais diversos tipos de estrutura. Não havendo aqui espaço para citar o seu extenso currículo, podemos dizer que actualmente dirige o colectivo, que ajudou a criar, Le MooveneMent em Montepellier, dedicado à investigação artística e às ligações entre arte e sociedade. São aliás as múltiplas relações entre os seres humanos e estes com os outros elementos da natureza e formas de vida que a fascinam. “Interessa-me criar a partir de como se comunica com o corpo e como a dança pode ser uma forma de intervenção social e política muito forte. Estar activo no mundo e dizer o que se pensa através dessa forma artística”, explicou-nos.

As suas últimas criações em dança/performance, Corpo em Manifesto e Derrières les Viscères le Baiser, são precisamente fruto de inquietações políticas e sociais. Nasceram em Montepellier mas estão agora em diálogo com Portugal e nomeadamente com Coimbra. Desenvolve igualmente formação pelo Body Mind Centering de Paris, em que a educação somática pelo movimento é a tónica principal: “são os estudos do corpo a partir da experiência, do toque e do movimento e acaba por ser o encontro perfeito entre a minha formação em biologia e a dança”.

Esta bailarina, criadora e investigadora do corpo e movimento é também uma mulher que luta pelos direitos dos cidadãos acreditando “no potencial da arte enquanto conhecimento e da dança enquanto forma de vida, num corpo que é político e em transformação”.

Sara está próxima de nós. Dancemos!

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 11 de Julho de 2013)